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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

05
Mai24

Marraquexe - Parte III


celiacloureiro

Termino este relato a viagem mais fora da caixa que fiz até hoje nesta parte III, para descanso dos interessados e alívio de quem se deixa incomodar por aquilo que os outros publicam a respeito da sua vida nas suas próprias plataformas.

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Os últimos dois dias foram dias de repisar o mercado, que já conhecíamos, a Medina e as lojas de souvenirs. Fomos até à avenida Mohammed V, onde havia restaurantes mais "modernos" (isto é, ocidentalizados), onde pedimos menu de pequeno-almoço. Uma vez mais, o menu de pequeno-almoço trazia uma grande variedade de comida para experimentar, alguma menos local (como ovos mexidos ou torradas com abacate), mas também traz especialidades como as saladas marroquinas e os clássicos incontornáveis franceses, como croissants e crepes. Acabou por ser uma ótima opção em termos de custo-benefício, experimentámos coisas diferentes e sobrou sempre imensa comida. 

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Neste ponto, vale a pena refletir resumidamente na influência francesa em Marrocos, que terá tido início na primeira metade do século XIX, quando França, já depois das tentativas de expansão napoleónicas, voltou a focar-se no potencial valor da sua presença no Norte de África. No entanto, foi apenas em 1912 que o Tratado de Fez constituiu Marrocos como um protetorado francês, sendo que o país mantinha a sua soberania, mas França podia fundar cidades, criar feitorias e portos e, portanto, ter mão ativa na exploração económica do território. Em troca, oferecia proteção militar a Marrocos e tornavam-se assim aliados numa época de grande convulsão a nível mundial (a Primeira Guerra Mundial estava prestes a eclodir). Essa influência, que surge tão bem retratada no filme Casablanca, de 1942, permaneceu no território do atual reino de Marrocos até 1956, altura em que o país se tornou independente. Arrepio-me sempre na cena em que os convivas elevam a voz para cantar La Marseilleise no bar da personagem principal e abafam completamente o hino alemão e concluem com gritos de Vive la France! Vive la démocracie! Não esquecer que a Alemanha ocupou a França na Segunda Guerra Mundial, e, consequentemente, estendeu as suas garras até Marrocos. Tudo muito relativo, porque a própria França já dominava, em grande medida, um território que ansiava por autonomia.

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Uma das coisas mais especiais que testemunhei nesse penúltimo dia em Marraquexe, foi a forma como toda a população se moveu em uníssono quando o sol se pôs e bateram as sete horas da tarde. Com o Ramadão, estão moralmente impedidos de comer ou beber até essa hora. Assim, e embora andássemos à procura de lembranças para trazer para casa, vimos o mercado e as ruas adjacentes a transformarem-se numa grande família. Surgiram bancos e almofadas no meio da rua, chaleiras, copos de vidro, por toda a parte fumegava o chá de menta e abriam tajijes, partiam pão, sentavam-se em círculo. Alguns barricavam as entradas das lojas com caixotes e mercadorias, e sentavam-se no interior a partilhar a primeira refeição do dia. Achei uma bela demonstração da cultura local, confesso que me senti um pouco comovida. É curioso como tanto da vida desse povo é vivida a céu aberto, em público. Pareceu-me que há muita camaradagem e entreajuda, mas também testemunhei discussões acesas cujo sentido, por serem conduzidas em árabe, me escapou. Não vi mulheres nesses círculos de convívio, provavelmente, estariam em casa a cuidar das crianças e do lar - não julgo, é o estilo de vida deles, a organização social que funciona para eles. Quem sou eu para os borrifar com os meus princípios ocidentais?

Vi muitas mulheres a conduzirem motas, e homens com os filhos em marsúpios ou simplesmente ao colo. Fiquei com a impressão de que as crianças são muito estimadas na cultura islâmica. No entanto, reafirmo que me incomodou ver meninas de seis ou sete anos a vender pacotes de lenços na rua, com as mães a alguns passos. Fiquei com a impressão de que não há CPCJ atenta, como não há proteção de animais. São coisas que haverão de surgir conforme a mentalidade do povo evoluir - assumindo que será nesse sentido.

Em suma, é preciso ter um bocadinho de estofo para percorrer aquelas ruas, testemunhar alguma miséria, mas também desordem, ferocidade, vitalidade e alegria, e o melhor é deixarmos a sensibilidade em casa. O melhor é não olharmos nem pararmos em cada bancada, se sabemos que não temos espaço para levar candeeiros de tecto, é de evitar esse bate-boca com o vendedor. Eles vão tentar vender - terá sido assim a sua vida toda, é o seu meio de subsistência e estão bem cientes de que o nosso olho ocidental não sabe para onde se virar no meio de tanto exotismo, e que os nossos bolsos carregados de dirhams se abrem com facilidade sempre que nos fazem um desconto simpático. Não estamos habituados a confronto. Não estamos habituados a usar as mãos e os olhos e a postura corporal para enfrentarmos vendedores e lutarmos pelo produto que cobiçamos. Não temos o costume de assumir que o preço pode ser outra coisa que não aquilo que o vendedor definiu. Saí de Marraquexe pronta a regatear, é uma skill menosprezada que já me deu jeito numa noite de dança, quando o senhor das rosas veio vender cada uma a 2€. Arrebatei-lhe 3 por 5€, eheh!

Fiquei com muita curiosidade de conhecer outros destinos em Marrocos, que me parece uma excelente porta para o mundo islâmico. Faltou-nos o deserto "a sério", o vale de Ourika, Casablanca e Fez, onde tenho a certeza que um dia haverei de ir aportar. 

No regresso, obrigaram-nos a imprimir os cartões de embarque (tinhamos indicação de que o aeroporto não aceita bilhetes eletrónicos). Fizeram-nos suportar a fila para o balcão de check-in da Ryanair durante mais de uma hora porque só passamos no controlo para as portas de embarque se tivermos os cartões carimbados pela compainha aérea. É uma oportunidade para controlarem as malas - fizeram-nos encaixar as mochilas nos expositores das dimensões das malas de cabine, muita gente abriu malas e redestribuiu o peso pelos companheiros de viagem. De salientar que a maioria das pessoas naquela fila de regresso à Europa tinha ténis novinhos em folha nos pés - as contrafações a que foi tão difícil resistir e que permitiu que se regressasse com All Star ou Adidas Samba por 25-30€. Pessoalmente, não comprei nenhuns ténis - não teria espaço para isso -, mas foi curioso ver como somos todos tão iguais. 

Uma vez o cartão de embarque carimbado (e ressalvo: a fila demorou mais de uma hora a andar), corremos para o controlo de passaportes, onde ficámos mais uma hora. Duas horas depois, chegámos à sala de embarque a 20 minutos da partida do voo, sem conseguir imaginar como as dezenas de pessoas que ficaram atrás de nós na fila para o balcão de check-in e para o controlo de passaportes se haveriam de safar. A verdade é que, a poucos minutos da partida do voo, começaram a apressar-nos para o interior da aeronave, controlando os nossos passaportes e os cartões de embarque carimbados, e mal sentámos os rabiosques nos assentos já o avião estava a recuar para se lançar aos céus. Foi um último pôr do sol em África. Para trás ficou a areia, o vento e as palmeiras.

Comigo, veio a vontade de regressar. Um dia, quem sabe.

Maktub.

 

Dicas práticas:

- Documentos: Passaporte com pelo menos 6 meses de validade;

- Dinheiro: Teria solicitado dirhams no meu banco com umas duas semanas de antecedência, porque haverá comissão de mínimo 5% do valor levantado no multibancos em Marrocos;

- Tomada elétrica: Igual à europeia;

- Há quem diga que convém levar probióticos e antidiarreicos, no meu grupo ninguém passou mal (eu passei, mas já ia doente daqui). Nos meses de verão, consta que há mosquitos, talvez levar repelente;

- Levar os cartões de embarque impressos;

- Apresentação no aeroporto para o regresso pelo menos 3 horas antes (fila no balcão de check-in e fila no controlo de passaportes);

- Comprar antecipadamente uma mala de cabine vazia para trazer as maravilhas que vendem por lá (a própria mala compraria por lá, ao desbarato);

- Levar protetor solar;

- Marcar todos os serviços possíveis antecipadamente - transfers, tours, hotel (é provável que queiram o pagamento em dinheiro);

- Comprar por lá um cartão com dados móveis (o meu telemóvel esteve 10 minutos, sem exagero, com o roaming ligado. A conta foi de 20,00€).

- Desligar a cabeça.

- Aproveitar.

 

 

 

17
Abr24

Marraquexe - Parte II


celiacloureiro

Ficámo-nos pelas tajines num terraço sobre a praça. Descobri que, se o menu apenas anunciasse "tajine de beauf", podem crer que não há acompanhamento. Fui obrigada a pedir um bocado de couscous para engolir aquele pedacinho de carne, por sinal bastante tenrinho. Será por isso que quase todos os marroquinos se saíam com um batata frita quando descobriam que éramos portuguesas? Será que outros portugueses percorreram o caminho antes de nós e, quando se levantava a tampinha de barro do tajine, ficavam a olhar para dois cubinhos de carne cheirosa e apetitosa rodeada de molho fumegante, mas nem um arroz, nem uma batatinha a acompanhar?

Enfim, saltemos das tajines para o dia seguinte, durante o qual descobrimos que nada sai como previsto em Marrocos. Para começar, saímos cedo até às lojas que estavam abertas ao longo das ruas sinuosas que envolvem a praça principal. Já não estavam os 37 graus do dia anterior, por isso pudémos respirar. Depois de passarmos por brincos, luminária, tapetes, marroquinarias, sabonetes e perfumes em barra com profusão, e de inalarmos o perfume da hortelã, do âmbar e do sândalo a cada esquina, confirmámos que são quase exclusivamente homens que trabalham em comércio, mas também nas oficinas de corte e costura de cortumes, que se viam para lá das portas entreabertas ao lado das lojas. Há muito menos mulheres a trabalhar. Por exemplo, nunca fomos servidas por mulheres em nenhuma refeição, apenas vi duas jovens na caixa de restaurantes, mas nunca entre as mesas. Vi mulheres a guardar casas de banho, a recolher o pagamento de parques de estacionamento e a cuidarem dos quartos no nosso hotel. Nunca vimos mulheres no comércio, nem atrás das barraquinhas que vendiam pastelaria local nem sumos espremidos na hora.

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Por volta das 11h30, decidimos tomar um pequeno-almoço tardio perto da praça principal, num restaurante com uma decoração muito bonita, de nome Taj (havia vários com esse nome). Pedimos um menu de pequeno-almoço, que parecia bastante completo, com omolete, panquecas, pão tradicional, sumo natural e chá de menta, que nunca pode faltar, e também um sortido de doces locais. O total ficaria por cerca de 150 dirham. Quando a comida chegou - e o serviço foi bastante demorado em quase todos os restaurantes que frequentámos - perguntei-me pelos doces, mas assumi que seriam as tigelinhas com mel, doce de damasco e as panquecas com amlou, uma espécie de nutella marroquina, melhor ainda do que a original, segundo o meu gosto pessoal. Além disso, considerei que a espécie de legumes em marinada - cenouras, beringela, pepino (?) - como parte do menu do pequeno-almoço, de modo que começámos imediatamente a molhar o pão nos potes. A dada altura, aproxima-se o garçon para nos comunicar que trocou o sortido de doces por um sortido de saladas marroquinas, porque os "doces são para a sobremesa". Em suma, não mandamos em nada. Mas ríamo-nos porque fomos nesse espírito, deixámo-nos ir. Nunca me pareceu que estas mudanças fossem por maldade o ganância.

Passei a tarde a descansar no hotel, porque alguns dias antes da viagem tinhamos marcado um jantar no deserto de Agafay através da própria booking. Preferimos marcar tudo antecipadamente por uma questão de organização e gestão de custos. Ainda assim, e com o voucher impresso para nos virem buscar às 17h00 junto ao hotel, houve problema. Na madrugada anterior, recebi um "Hi" de um número marroquino no Whatsapp, que bloqueei ao acordar por ir ao encontro de outros "Hi" que recebo frequentemente de números da Nigéria e do Senegal e etc. Entretanto, estávamos no quarto de hotel e eram 16h00, com as jovens acabadas de chegar das compras no mercado a tomar banho e a perfumarem-se, quando decidi descer ao pátio inferior para apanhar um bocadinho de wi-fi. Comecei a ser bombardeada por chamadas e mensagens de Whatsapp da agência que organizava o tour, a dizer que, por ser Ramadão, teríamos de partir às 15h30 para apanhar o pôr do sol no deserto. Ora eu tinha fechado o tour e imprimido o voucher há nem uma semana, mas nem cheguei a enervar-me demasiado. Chamei as meninas e informei que estaria no local em 10 minutos, era o melhor que conseguia.

Fomos a correr debaixo do sol africano até à esquina onde era suposto irem apanhar-nos às 17h00, a perguntar-nos como era possível serem ainda 16h00 e já termos perdido a van. A dada altura, e perante a demora da guia - que não estava lá -, comecei a perguntar-me se não iria dar-se o caso de eles terem partido efetivamente às 15h30 e de estarem agora a voltar para trás por causa de nós. Disse-nos a agência, por Whatsapp, que eu tinha sido avisada, mas escolhi bloquear a guia. Enfim, situações. Confesso que estava animada por ser uma guia mulher, estimei que iria tratar-se de alguém com fibra. O meu pior receio confirmou-se: após quase meia hora de espera, para uma van do outro lado da avenida, apita e as pessoas põem-se a acenar-nos. Tinham, de facto, voltado para trás. Senti-me tão mortificada que subi para o veículo já com o telemóvel em riste, a dizer que o pick-up era às 17h00 perante os outros turistas. Claro que estavam lá as três portugueses trombudas e barulhentas do voo de ida, mas isso é a teoria que defendo no meu romance "Até os Comboios Andam aos Saltos". Se nos incompatibilizarmos com alguém, podem crer que havemos de nos cruzar muitas vezes.

A guia não gostou da nossa justificação, era uma jovem cheia de garra que me encostou logo ao canto e me disse que eu é que a tinha bloqueado. Ripostei em inglês que apenas o tinha feito por causa das fraudes com nigerianos e argelinos, e ela cortou-me com um:

"I don't care about you, you can leave if you want. People from Nigeria and Argelia are good people". Comi e calei, quem me manda generalizar? Gostei da atitude e prometi a mim mesma que, durante a viagem, iria pedir-lhe desculpa pelo meu nervosismo. Só não queria que todos nos detestassem na van por estarem prestes a perder o pôr do sol no deserto por culpa nossa. Como guia que fui, deveria saber que jamais se pode pôr um guia contra o grupo, o guia é o nosso principal aliado no tour, e esta acabou-se por se revelar isso mesmo.

As estradas não eram espetaculares e, logo à saída, vimos um motoqueiro no chão rodeado de outros motoqueiros, e não percebemos se estava vivo ou morto. Toda a gente anda de mota por ali, até casais com o bebé e o carrinho de passeio debaixo do braço, não me pareceu nada seguro, mas eles lá se orientam. Às vezes, eram aos quatros montados num motociclo.

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A primeira paragem foi numa cooperativa de óleo de argão. O nosso furgão - vou chamar-lhe assim, apesar de ter ar condicionado e de ser bastante confortável, por uma questão de comédia - parou junto a muitos outros absolutamente iguais. Fomos conduzidos para um jardim onde já havia várias mesas postas. Serviram-nos azeite marroquino - mais intenso do que o alentejano, adorei -, amlou e óleo de argão puro, que usam para temperar saladas (mas não para cozinhar). Molhámos o delicioso pão deles nos potinhos e pusémo-nos à conversa com duas italianas e duas amigas da Malásia. A minha irmã tinha lido A Guardiã do DestinoThe Rice Mother no original, sobre a invasão da Malásia pelo Japão, e estabeleu-se ali uma ponte para a nossa conversa. Eu também li esse livro, até a nossa avó leu esse livro, e foi muito especial estarmos ali, pessoas de mundos tão distantes, unidas sobre azeite marroquino em torno de um livro que li há 20 anos. Raios, foi mesmo. À saída, vimos as mulheres marroquinas a usarem uma espécie de mó para extrair o óleo do fruto da árvore do argão. Pareceu moroso, como tudo o que é tradicional e que usa o nosso suor como força motriz. Comprei um frasco de óleo de argão puro por 100 dirham e troquei algumas palavras com a guia. Pedi-lhe desculpa pela minha atitude e mostrei-lhe os "Hi" bloqueados no meu telemóvel, para ela entender a minha desconfiança. Disse-lhe que também trabalhei como guia e que admiro muito essa ocupação, sei como é cansativa. Com um sorriso e uma espécie de abraço, posicionámo-nos do mesmo lado.

À chegada ao deserto de Agafay - que os marroquinos dizem que não é o verdadeiro deserto, porque tem muitas pedras em vez de apenas areia e dunas - começámos a ver a poeira levantada pelas Moto 4. Um exército de Moto 4 logo à entrada mas, felizmente, à medida que avançávamos por estradas de terra batida, com nada que não aquela paisagem agreste à esquerda e montanhas distantes à direita, apercebemo-nos do isolamento em que estávamos a mergulhar. Bem no meio, havia uma espécie de acampamento montado, com tendas, almofadas, mesas postas com almofadas para nos sentarmos no chão, camelos acorrentados e um restaurante, casa de banho e até uma piscina. Havia também uma espécie de uma pira, um poço que me despertou curiosidade e que depois descobri que era o palco para o espetáculo - enfeitiçante - de fogo.

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Pediram-nos que guardássemos lugar - questão delicada, há muita ânsia por conseguir bom pouso para o seu grupo por parte dos guias, questão que levou a discussões acesas em que a nossa guia meteu os matulões a um canto - e depois a guia veio buscar-nos para irmos andar de camelo. Seguimos com o restante grupo - curiosamente, apenas não conseguimos conversar com as três portuguesas e um casal também português, que por vestir Lanidor nunca se dignou sequer a olhar na nossa direção. Paradas perante os camelos, o nosso coração de ocidentais começou a apertar-se. Não quero julgá-los, compreendo que quando se vive numa área sem nada mais a oferecer e sem bocas para alimentar, os camelos configurem uma fonte de rendimento aparentemente inofensiva. No entanto, não consegui participar naquele negócio. Havia camelos juvenis ou até mesmo bebés a seguir as mães, que iam acorrentadas. A dada altura, quando os camelos se baixaram para os turistas as montarem - incluindo das três amigas portuguesas e o casal que nunca mostrou os dentes - um deles soltou um urro que me destabilizou. Não cheguei a chorar nem a fazer nenhum tipo de discurso às pessoas que estavam comigo - nenhuma de nós quis ser cúmplice daquilo, nem nós as quatro, nem as italianas. Ficámos por ali a tirar fotos umas às outras, deixando os camelos na paz possível de quem percorre o mesmo caminho para a frente e para trás todos os dias, sabe-se lá quantas vezes por dia. Evoquei uma vez mais o "terror" que temos a camelos para não os montarmos e a guia não insistiu.

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Seguiu-se o jantar - o melhor couscous e tajine que comemos em Marraquexe, supostamente preparado por residentes locais. O que é certo é que a comida era verdadeiramente saborosa, e empurrámo-la para baixo com chá de menta. Seguiu-se um bolo de coco fofo e húmido que comemos já ao som da música berbere. A magia começou quando a noite caiu e as fogueiras se acenderam. Houve qualquer coisa de primitivo em ver pessoas a dançarem à volta da fogueira, ao ritmo daquela música hipnotizante e, em simultâneo, bastante animada. Pensei no meu próprio passado civilizacional, quantas vezes não se terão os homens e mulheres reunidos em redor de uma fogueira para cantar e dançar, porque não havia outro tipo de animação possível à noite, e era mais seguro estar-se junto diante das chamas, com as feras ao largo.

Voltámos para Marraquexe numa espécie de comboio de várias vans, a ouvir músicas internacionais. A alegria era tanta que concordámos em sair com as amigas da Malásia e a mãe e filha italianas, e pedimos para sermos todas deixadas junto à Medina. A partir daí, percorremos aquela que batizámos como "a rua dos ténis", porque era o paraíso da contrafação. Por toda a parte estavam expostos os modelos mais recentes de ténis de renome internacional, disponíveis por menos de 400 dirham. Um marroquino muito simpático quis acompanhar a italiana até um bar de shisha, e eu já imaginava que no final estaria à espera de uma gorjeta - outro aviso que ignorámos. Na verdade, penso que acabou por não levar nada - talvez uma comissão do bar para onde nos levou, visto que ficou a conversar com a recepcionista quando nos sentámos? Mas, se acham que pudémos fumar shisha, desenganem-se. Não havia shisha - consta que era preciso uma licença especial, como para o álcool. Não há nada na vida dos marroquinos/islâmicos que tenha qualquer ligação a álcool, Alá os abençoe. Não senti falta, mas vi o desespero sentado ao meu lado quando, ao terceiro bar experimentado, a única opção continuava a ser cerveja sem álcool. Bebi um cocktail sem álcool - Bora Bora -, absolutamente delicioso, principalmente no preço: 35 dirham (menos de 3,50€).

Conversámos sobre coisas de mulheres - amor e sexo, independência e oportunidades - à volta do globo. Trocámos contactos, tirámos uma fotografia todas juntas. Despedimo-nos com alegria e orgulho mútuo.

E assim terminou o segundo dia em Marrocos, cansadas mas felizes, uma vez mais seguras enquanto caminhávamos sozinhas pelas ruas escuras e cheias de animação - de cores, de brilhos, de vozes e de música - até ao nosso hotel na Medina.

10
Abr24

Marraquexe - Parte I


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Há muito que estava curiosa em relação a Marrocos. Sentia uma estranha proximidade para com o país cujas areias engoliu o nosso saudoso D. Sebastião, e a partir do qual nos chegou a civilização muçulmana em 711, com as laranjas e o zero. A viagem foi planeada um bocadinho em cima do joelho: decidimos que seria o presente ideal para celebrar o 18º aniversário da minha irmã. Cerca de mês e meio depois estávamos a embarcar, só mulheres, para o Norte de África. Permitam-me pensar assim  Norte de África, adoro a ideia de pisar o continente Africano.

Em Lisboa, tudo se passou com relativa tranquilidade, apesar de o voo sofrer um atraso de uma hora. Íamos com os vouchers dos transferes impressos, com os respetivos contactos das agências que iam fornecer os serviços, e sem grande conhecimento do que iríamos encontrar, à exceção dos comentários lidos no Reddit e de algumas trocas de informação com pessoas que já visitaram o destino e que diziam para não se comer nada cru nem dar muita conversa aos vendedores. Passei dias a treinar o meu La, shukran, porque supostamente um "não, obrigada" em arábico seria melhor acatado do que um simples "Non, merci". No entanto, como em tudo na vida, nada sai de acordo com o imaginado.

Deixem-me começar por dizer isto: Marraquexe é uma cidade altamente turística, portanto diria que segura. Sim, é possível experienciar um bocadinho da cultura muçulmana, especialmente nós, que fomos no período do Ramadão, sim, convém estar atentos e sim, há choques culturais e coisas que me custaram a digerir, mas nem por um instante me senti insegura. Nem quando me vi no meio de um jardim deserto com três miúdas e quatro ou cinco matulões de túnica ao nosso redor. Mas já lá vamos.

À chegada ao aeroporto de Menara, a fila para o controlo de passaportes foi demorada, ficámos por lá mais de uma hora de pé, com calor e cheias de sede. Como o voo já tinha partido com atraso, dei o transfer por perdido. No entanto, assim que me conectei à rede gratuita do aeroporto, recebi algumas mensagens de Whatsapp por parte da agência que ia realizar o transfer e do assistente que estava à nossa espera desde a hora esperada. Reservámos o transfer aqui e suponho que o serviço seja distribuído pelas agências parceiras. O motorista perguntou-nos quanto tempo ainda íamos demorar e esperou por nós até ao final. Em suma, deveríamos ter chegado às 08:15, hora local, e chegámos junto dele por volta das 11:00. Fomos conduzidas a uma carrinha com o logo da agência de viagens (HL Travel). Conversámos em inglês e francês sobre a cidade, a nossa futura estadia, o Cristiano Ronaldo. Todos os marroquinos e conhecem e quase todos torcem pelo Benfica. O motorista chegou mesmo a parar junto a um banco (há caixas ATM por toda a parte, mas as comissões são mais baixas nas dos bancos) para podermos levantar dinheiro. Deixou-nos junto à Medina, porque há muitas ruas intrasitáveis em Marraquexe, e pensei que seria um martírio dar com a rua do nosso pitoresco Hotel Salsabil, que pratica preços fixos pelos quartos e que tem triplos e duplos. Em menos de três minutos, tinhamos dado com o beco e estávamos ao balcão diante de um senhor com um sorriso muito dócil que, mais tarde, descobri chamar-se Said e ser um dos irmãos que cuidam do hotel. Deixou-nos fazer check-in de imediato e usar o quarto, facultou-nos a password do wifi e levou-nos para um terraço com bunganvílias e vista para a Medina, onde nos serviu thè à la menthe

Neste ponto já estava bastante relaxada, o contacto foi em tudo "ocidental", apesar de termos feito questão de nos apresentarmos com alguma modéstia (sem umbigos à mostra) e de termos visto imensa gente com trajes islâmicos pela janela do táxi. Por essa altura, também já era evidente que a palete de cores seria um "vermelho Marraquexe", uma variação mais diluída do vermelho de Pompeia, uma espécie de terracota que é a tela perfeita para a profusão de cores com que as ruas, pejadas de comerciantes, estão ornamentadas. Foi o dia mais quente, estavam cerca de 35 graus e o sol é de certa forma implacável naquela latitude.

Nesse dia, fiz uma curta visita às ruas do mercado que se estende em redor da praça Jemaa

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El Fna, a praça principal que tem o seu pico de atividade depois do pôr-do-sol e que cheira a hortelã. Vimos inúmeros produtos exóticos pela primeira vez, sentimos cheiros desconhecidos e fomo-nos apercebendo do ritmo das coisas. Em primeiro lugar, pouquíssimos preços são fixos ou estão afixados. Tudo é negociável, se estivermos dispostos a perder um bocado a regatear. Também ia com receio de parar para avaliar coisas só por curiosidade, porque tinha lido que iria materializar-se alguém ao meu lado para mas impingir. Acontece que muito pouca gente foi realmente insistente ao longo dos quatro dias. Só vivemos um episódio em que de facto o senhor tentou insistir e nos seguiu pela rua, mas não havia volta a dar: não íamos dar 200 dirham (c. de 18€) por 2 pulseiras que custam 3€ na Parfois. Não senti que, com isso, nos quisessem propriamente enganar. A minha mãe vendia nas feiras e sei como era importante ler os potenciais clientes e perceber quais os que estariam dispostos a apartar-se de uma boa quantia sem que isso lhes causasse moça enquanto, por outro lado, se cedia a um "preço de amigo" quando havia urgência em despachar a mercadoria ou contas inadiáveis a pagar. Para esse fim, basta evitar gritar Lindo! quando vemos algo de que gostamos, o que aumenta significativamente o valor do produto, e torcer o nariz quando a nossa amiga nos mostra os brincos que está a pensar comprar, o que resulta numa descida quase imediata do valor. A verdade é que uma de nós comprou um camelo miniatura de madeira por 50 dirham (c. de 4,60€), que noutro dia conseguimos arrebatar por 1 dirham (0,92€). Na mesma fileira de bancas, pediram-me 200 dirham por um artigo que comprámos mais adiante por 100. Por toda a parte, julguei tropeçar em sabonetes incrivelmente perfumados, mas depois descobri que são, na realidade, uma espécie de perfume sólido. Conseguimos obter cada por 80-100 dirham, e foi a única coisa do mar de quinquilharias que me entusiasmou realmente: o cheirinho intenso a âmbar e sândalo e jasmim e almíscar, bem como os chás de verbena, camomila, verde, hibisco.

Também foi evidente que a cidade vive de comércio e, para isso, os turistas são fundamentais. Fiquei com a impressão de que não seríamos de modo algum incomodadas, a bem de manter a fama de cordialidade e segurança. Por outro lado, o povo marroquino em si pareceu-me extremamente afável, acolhedor e inclusivamente atencioso, sem ser bajulador. Achei que há muita honra em regatear um preço e, depois de acordado, fornecer o troco exato sem mais deliberações. Por duas vezes vi-os abandonar a banca e correr pelo mercado com a nossa nota na mão, em busca de alguém que a trocasse, e nunca senti que "não voltaria a vê-la". Recebemos sorrisos, elogios a Portugal, sius e até um "É uma casa portuguesa, com certeza".

Nesse primeiro dia, enquanto me recolhi no frescor do quarto, as meninas foram até um hotel de 4* onde lhes foi dito que poderiam usar a piscina por 250 dirham cada. O nosso anfitrião telefonou para o balcão e regateou o preço, e acabaram por as deixar entrar por 200. A minha irmã ficou espantada (e francamente deliciada) por ter de discutir o preço da utilização da piscina de um hotel de 4*. Passaram o dia entre outros portugueses e espanhóis, de biquini, a tomar bebidas (sem álcool) ao sol.

O lado menos positivo foi o facto de realmente termos de estar atentas a cada pormenor do discurso. Isto é, parece-me que, uma vez estabelecido um acordo oral, o mesmo será cumprido. Porém, se puderem ocultar alguns detalhes, o mal é nosso por estarmos a pensar na morte da bezerra. No segundo dia decidimos ir visitar os jardins Majorelle, coisa que não me entusiasmava por aí além, e que ficava a cerca de 40 minutos a pé da Medina. O nosso anfitrião aconselhou-nos a chamar um táxi e informou-nos de que o preço justo seriam 50 dirham. O primeiro taxista que encontrámos na Medina disse-nos que fazia 75. Dissemos-lhe que estávamos informadas de que o justo seria 50. Do outro lado da janela, em segunda fila, O Berbere disse-nos que nos levava lá pellos 50 acordados. Mostrou-nos os valores afixados no vidro do táxi: Jardins Majorelle, 50 dirham. Durante a viagem, não pudémos verificar mas, se dizia que assim era, que estava escrito, tudo bem. Avisou-nos dos taxistas que praticam preços à descarada.

Falámos do Cristiano Ronaldo, do Ramadão, dos berberes e dos árabes e do facto de se falar espanhol numa qualquer região no norte de Marrocos. A dada altura, começaram os conselhos para os quais nos tínhamos preparado psicologicamente. Disseram-nos que os Jardins Majorelle cobravam mais ao fim-de-semana, posto que íamos sem bilhete. Seria mais de 20 euros por pessoa, e estaria apinhado de turistas. Foi tão convincente que nos levou até à rua que lhe dava acesso, onde se viu um mar de reformados e de jovens, bem como a polícia aquartelada a impedir a passagem a mais veículos. Ofereceu-se para nos levar a outro jardim "muito mais giro", e ainda por cima gratuito, ao qual "teríamos de chegar de túnica e camelo e podíamos tirar uma foto". Eu não sou esse tipo de turista, o que gosta de se mascarar de local. Trabalhei nessa indústria durante anos e acho que o turismo deve, acima de tudo, causar o mínimo de impacto no local visitado e, sempre que possível, contribuir positivamente para o desenvolvimento local. Perguntámos se o outro jardim ficava muito longe, ele disse que era praticamente a mesma coisa e que esperava por nós para nos trazer de volta. Isso já começou a parecer-nos demasiada generosidade. De mencionar que tinha acabado de levantar uma soma de dinheiro considerável, posto que teríamos de pagar o hotel em numerário. O belo jardim prometido chamava-se La Palmeraie (ei-lo aqui), mas também nenhuma de nós tinha internet para compreender a onde nos estávamos a dirigir. Decidimos confiar. Fomos tontas? Talvez, mas nunca me senti em perigo. Aliás, olhámos umas para as outras cientes de que fomos a Marrocos para ser enganadas e levar a coisa na desportiva. 

Antes de chegarmos, O Berbere aconselhou-nos a visitar o vale de Ourika no dia seguinte, e fez-nos um preço de 60,00€ pelo dia inteiro, que sabia ser bom porque tinha consultado o das agências, que era de cerca de 90,00€ para as 4. Poderíamos almoçar à beira de um curso de água e fazer um passeio da natureza, e ainda espreitar as Montanhas Atlas. Estávamos mais ou menos convencidas a ponderar, dependendo de como corresse o passeio com o nosso "guia-taxista" privado. Mostrou-nos os valores afixados no vidro do táxi: Jardins Majorelle, 50 dirham. Durante a viagem, não pudémos verificar mas, se dizia que assim era, que estava escrito, tudo bem.

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Parámos naquilo que só posso descrever como um descampado com palmeiras de aspeto bastante sofrido, estilo "armadilha para turistas". Descemos do táxi e O Berbere fez um gesto para o seguirmos. Perguntámos-lhe onde era a entrada de tal "jardim", mas era aquilo o jardim. Aquelas palmeiras tristes e os camelos lânguidos a ruminar. Naquela espécie de oásis no deserto, estavam uns quantos matulões sentados em redor de qualquer coisa, e um senhor mais velho que nos mostrou a seleção de túnicas sebosas que iríamos "ter de vestir"numa corda entre duas palmeiras, para seguirmos até à pressuposta entrada do jardim em pompa e circunstância. Ficámos sempre a olhar para o além, para os muros ao fundo, a perguntar-nos onde raio ficava o tal jardim, e porque seria tão longe dali que não podíamos ir a pé, porque "tínhamos" de ir de camelo. Neste ponto, ressalvo que o francês não é sequer a minha terceira língua, é a quarta, e que posso ter compreendido alguma coisa mal. No entanto, penso que o mais provável é que o taxista tenha sido vago de propósito. A dada altura, estou a ouvir a minha professora de história a lembrar-me de que não há almoços grátis enquanto nos enfiam as túnicas pela cabeça sem nos tocar, e nos ajeitam os lenços na cabeça em estilo... berbere?

Quando demos por nós, estávamos as quatro a olhar umas para as outras naquela fatiota, e o taxista chamou-me para a lateral do carro para me dizer que depois de andarmos de camelo teríamos de dar a contribuição de 75 por pessoa pelo passeio e pela túnica. Assim que regresso para perto da minha irmã, ela nem precisou de abrir a boca: quanto?, é o que diziam os seus olhos.

Levam-nos para junto dos camelos e, ao primeiro olhar para os pobres animais, já sei que não vou ter coragem de ser conivente com esse tipo de exploração. Prometi a mim mesma que ia deixar a sensibilidade de ocidental na Europa, mas não tive coragem. Senti que aqueles camelos só precisavam de uma coisa de mim: que os deixasse em paz. Todas nos recusámos a montá-los mas, para não dizer que achamos aquilo um tanto desumano, dissémos que tínhamos muito medo dos camelos, muito medo mesmo. Passaram um bocado a tentar convencer-nos de que devíamos tocar-lhes, eram muito dóceis. Em momento algum me senti em perigo, e diria que sou hipersensível ao perigo, mas também não me pareceu muito seguro estar ali no meio de homens cujos braços me percorriam do joelho ao pescoço a negar-lhes a minha bolsinha cheia de dirhams. Recusámo-nos veementemente e o taxista acabou por dizer que a escolha era nossa. Entretanto, o senhor que não falava francês disparou números em francês, 250 por pessoa para andar de camelo. E nós paradas diante dos bichos, a recursar-nos. 200, pronto. Nada feito. No final a coisa já ia em 75 dirhams por pessoa, como o taxista começara por anunciar, mas tive de lhe dizer no meu francês mais polido que não era uma questão de dinheiro. Simplesmente não conseguíamos ultrapassar o nosso pavor a dromedários. Afinal onde era a porta do jardim? E de quanto tempo precisávamos para o visitar? Porque não havia ali mais táxis, só nos restava regressar com ele.

Com um revirar de olhos e um bufo muito universal, o senhor das túnicas e dos camelos desistiu, enquanto o taxista nos mandou dar uma volta pelo "jardim" que ficava à nossa espera durante o tempo que quiséssemos. 

Assim que começamos a afastar-nos, digo à minha irmã que era para aquilo que estávamos ali, a experienciar outro mundo. Para ser enganadas e para nos rirmos disso. Ela esticou a túnica e riu-se: Como é que isto aconteceu? Como é que acabei num descampado com este traje? Tirámos algumas fotos e o quarto elemento, ainda mais aluado do que eu, perguntou então onde era o jardim. Deve ter sido aí que começámos a rir-nos às gargalhas e percebemos que o jardim era aquilo. aquilo. Combinámos que, ao regressar, íamos dar 50 dirham ao senhor das túnicas e estava ótimo. Nota em riste para não termos de abrir as malas entre tantos pares de olhos, e enfiei a nota na mão do senhor no instante em que nos livrámos das túnicas. Percebi que estava desapontado e começou a discutir com O Berbere, que nos disse que era 50 por cada, e não 50 total. E eu, que não tinha acordado nada, virei-me e voltei para dentro do táxi com elas. O Berbere seguiu-nos meio aborrecido, porque o passeio não tinha sido tão lucrativo como tinha imaginado que seria. Disse-lhes que eram estudantes, esclareceu. Como se não estivessem fartos de saber que as pessoas vão até ali ao engano.

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Foi então que considerou que era boa altura informar-nos de que os Jardins Majorelle eram 50 dirham, mas La Palmeraie era 100, por ser mais distante. Apontou para o vidro e dessa vez lemos mesmo: estava certo. Era 100, ele bem que podia ter avisado quando sugeriu a mudança de trajeto. A minha irmã começou a remexer na roupa e percebi que pensava o mesmo do que eu. Disse-lhe, no português mais tortuoso que consegui - porque ali todos parecem falar francês, inglês, espanhol, árabe e mesmo português - que, se ele aceitasse os 100 total, iríamos no tour ao vale de Ourika no dia seguinte. Se não os aceitasse, nada feito. Certo que, neste ponto, devíamos ter simplesmente afastado essa possibilidade por completo. Mas, é como vos digo, senti que havia honra nestes caminhos sinuosos para "ludibriar" os turistas, porque o prometido é sempre devido, é só estarmos atentos ao que se promete.

Chegamos à Medina, e portanto ao nosso hotel - vivas, com o dinheiro mais ou menos intacto e profundamente aliviadas, O Berbere teve de se dirigir à minha irmã para receber, e ela sorri bem menos do que eu, Alá a abençoe. Passou-lhe 100 e, após um compasso de espera, ele disse-lhe que 100 era por percurso. Passou-lhe os outros 100 e ele nem insistiu sobre o dia seguinte, disse apenas que estaria por ali se quiséssemos encontrá-lo.

No total, gastámos cerca de 23 euros entre as quatro para fazer uma panorâmica, ver camelos tristonhos, palmeiras delapidadas, o acesso ao Jardim Majorelle e tirar umas fotos mascaradas. Não achei totalmente mau, foi uma manhã bem passada.

Tirando esta experiência em que estivémos com menos mão no leme, o resto passou-se com bastante tranquilidade. Os restaurantes oferecem menus marroquinos com muita inspiração francesa, a doçaria é maravilhosa, comemos tudo, inclusive alimentos crus como laranja, cebola, alface e tomate. Ninguém passou especialmente mal (eu passei, mas já ia com uma virose daqui). 

Nessa primeira noite saímos para jantar num terraço em torno da praça principal e revisitei as tajines, que já tinha comido em Paris há dois meses. Viva a Schweppes citron e continua (...).

 

08
Mar23

What is a woman?


celiacloureiro

Vivemos num tempo em que se celebra o dia da mulher mas se receia definir o que é uma mulher. Escolho este dia para deixar a definição de mulher.

A mulher é o ser do sexo feminino da espécie Homo Sapiens Sapiens, o que sangra todos os meses e que continua a trazer ao mundo a continuação da espécie por via de suor, dor e lágrimas, porque “a natureza não se interessa pela dor, interessa-se pela reprodução, e continuamos a reproduzir-nos.” A nível sociológico, a mulher é uma coisa diferente em locais diferentes do globo. Foco-me em ser mulher aqui.

Nascer mulher aqui é descender de uma longa linhagem de desconsideração e por vezes até abusos. É nascer-se o sexo mais fraco num mundo pensado para os homens mas que temos vindo a conquistar aos poucos. É crescer com os pais e a família a imputar-nos responsabilidade, arrumação, asseio, a oferecerem-nos bonecas, nenucos, cozinhas e panelas. Enquanto isso, os nossos irmãos são crianças em paz. Sujam-se e brincam, e nada lhes fica “mal”. Por volta dos 12 anos (cada vez mais cedo agora) surge o período, e as regras voltam a apertar-se. “Agora és uma mulherzinha, tens de te comportar, não podes andar por aí feita maria-rapaz”. Em cima disso, há as dores menstruais, a endometriose tardiamente diagnosticada, o coro de vozes “passamos todas pelo mesmo, é normal”, e a compreensão relativamente recente de que não é. É passar a adolescência a ouvir “vê lá, não engravides”, porque a responsabilidade, aqui palavra de ordem, é dessa menina e não do rapaz, pois a sociedade já assume que esse deve é divertir-se, curtir a vida e atentar no futuro, sem obstáculos. É ser adolescente e ouvir constantemente comentários sobre o nosso corpo. Eu cresci com “é baixinha” e “é só pele e ossos, ela come?”. E ainda “não tem quase maminhas”, o que é imperdoável segundo a estética da imprensa. O meu irmão, a meu lado, “era alto e tinha olhos lindos.”

Ser mulher foi especialmente difícil na adolescência, e sobretudo quando se é pobre e não havia dinheiro para depilações a cera em salões, e as atividades da escola incluíam idas à praia e passeios de barco no Zêzere. Lembro-me especialmente desse passeio porque usei uma lâmina nas pernas e deixei-as como um cenário de massacre. Passei o dia quente de calções mais atenta às feridas nas pernas do que aos remos. Profundamente embaraçada. Imagino que os rapazes não passem por isso, se o fizerem é sem pressão social e por isso, mesmo que desgracem as pernas, o dia segue com naturalidade. Ou ir de férias e não aproveitar a piscina porque, apesar de toda a gente dizer que o tampão é seguro e higiénico e fácil de colocar, não é assim para todas. Ser mulher é ter uma despesa extra mensal com analgésicos e parafernália higiénica.

É engravidar sem o desejar e ter a opção de assumir uma criança que não se quis - eventualmente amá-la - ou ser mutilada para a remover, e possivelmente ter de viver com isso na consciência para sempre.

Ou não poder engravidar, e submeter-se a tratamentos e exames de diagnóstico, muitos deles dolorosos, enquanto o escrutínio ao parceiro é deixado para último recurso.

Tendo crianças, é esperado que seja a sua cuidadora máxima. E isso de ser o esperado já tem um grande peso. Não tendo crianças, por vezes é olhada como se houvesse algo de errado consigo por simplesmente não acalentar o desejo de ser mãe.

É ir a consultas de rotina e perguntarem-nos "alguma vez engravidou?", e ter de lidar com o painel emocional que se acende perante essa questão. Posso? Não posso? Quis? Não quis? Não, e tirei. Sim, e perdi-o. 

Ser mulher é ganhar peso mais tarde e ninguém se coibir de o mencionar. Ou as rugas que vão surgindo. Ou os cabelos brancos. Vão sugerir-nos cremes e cabeleireiros e tintas e soluções para “esconder” a fealdade que vai engolindo a mulher que envelhece naturalmente. No meu caso, é perguntarem-me várias vezes se estou grávida, quando estou apenas mais gorda, ou inchada.

É ter 33 anos e por isso estar numa sala de espera a aguardar uma ecografia mamária, porque além do patriarcado o cancro da mama é um grande inimigo do sexo feminino.

Por volta dos cinquenta, ser mulher é enfrentar as provações da menopausa, de sentir que somos uma flor que murcha, lá se vai a frescura, o sangue, os atrativos. Chegam os afrontamentos, as indisposições. O homem? O homem envelhece como o vinho, fica mais atraente com a idade (ou melhor, quando alguém se manifesta, é para este tipo de reparo, não para “estás a relaxar-te. Queres o contacto de uma clínica de implantes capilares? Já experimentaste aquele creme y? A barba branca fica-te mal, não dá para pintar?”

E fiquemo-nos por aqui. Não posso considerar isto tudo e recusar-me a responder à pergunta “What is a woman?”

Para mim, ser mulher é isto tudo. E isto merece ser dito. Não pode ser varrido para baixo de nenhum tapete. Não pode ser silenciado por receio de ofender. Isto é uma mulher.

08
Fev23

Leaving on a Jet Plane


celiacloureiro

O cancro é uma coisa imunda, cruel, do mais ignóbil que existe à face da Terra.

Quando percebemos que o cancro estava finalmente a apanhar a minha mãe, descobri uma canção de Peter, Paul & Mary chamada Leaving on a Jet Plane sobre uma partida. Não pensei que a minha mãe nos deixasse tão cedo. Pensei que ainda tivéssemos mais um bocadinho. Mais uma ida à Costa da Caparica, uma pequena trégua numa doença implacável. Mais um bocadinho do sorriso alegre dela, por entre sofrimento que nem consigo imaginar. A minha mãe devia ter dores. Devia ter carências. Devia ter medo. De algum modo, encapsulou tudo isso no seu interior e mostrou-nos sempre sorrisos e optimismo. Em janeiro, pelo braço do companheiro dos últimos dez anos, falava no verão. Falou sempre nos seus planos para quando voltasse a ter a sua vida de volta. Para quando nem tudo se resumisse a funções básicas corporais como comer, dormir, falar. Acontece que o tempo nunca voltou atrás por uma tarde que fosse. Cada degrau que ela descia era irrevogável, não havia volta a dar. Todas as capacidades que ia perdendo ficavam perdidas para sempre. Não houve medicina moderna que a ajudasse, ou sequer que a reconfortasse um bocadinho fora um Metamizol e uma malfadada bomba de Ventilan que pode, ou não, ter contribuído para o colapso da sua função cardíaca.

O que me entristece - quando me permito sentir - é saber que ela tinha medo. Ela tinha muito medo do fim, da escuridão do desconhecido, do silêncio do nada, da inação. A minha mãe preenchia todos os instantes de trejeitos de voz, de palavras infindáveis, de narrativas, de apartes, de histórias. E eu, sabendo que ela estava a ir embora num jet plane, sentia-me triste por saber que ela estava prestes a confrontar-se com esses seus receios. Pensava nos meus próprios receios - abandono, solidão - e imaginava-me diante deles. Doía-me pensar que não havia nada que pudesse fazer para mitigar os seus receios. 

A minha mãe foi embora - I don't know when I'll be back again - e eu não sei se lhe disse vezes suficientes que a amava. Acho que ela não chegou a conhecer bem o colo do amor, o amparo do afeto incondicional. Viveu sempre a sentir falta da mãe biológica, do pai adotivo que a deixou numa Consoada para nunca mais regressar, e até do piano que tocava aos quatro anos e que saiu pela porta em troca de dez contos de reis quando ainda era demasiado pequena para compreender ou se opor. Deve ter atravessado a vida com um vazio terrível, condenada a enfrentar as suas batalhas a sós. Longe dos pais, dos filhos, apenas com a música e a Feira da Ladra como amigos do peito, companheiros constantes.

 

Vou ter saudades, mamã.

Sei que voltaremos a encontrar-nos para um grande, grande abraço.

13
Jan23

Piso 3 (Outra Vez)


celiacloureiro

Hoje foi dia de exame ao coração. Pus um batom vermelho para me sentir confiante no meio das dificuldades e, antes de apanhar a dona Vanda, pus The Beatles a tocar. Da última vez ouvimos The Supremes/Diana Ross. A minha mãe adora música, e a música põe-nos para cima.

Subimos até ao terceiro andar, as senhas não funcionam. Na secretaria, pedem-nos que esperemos a nossa vez para realizar o exame junto à porta x, e ainda estamos a percorrer o corredor de mão dada quando vemos a técnica à espera. É daquelas pessoas que, por trás da máscara, falam com um sorriso. Diz-nos que somos os últimos “clientes” do dia, e a sua animação faz-nos sorrir. Perguntei se podia acompanhar a minha mãe, deixaram porque ela declarou imediatamente que ia precisar de ajuda para despir as camisolas. De repente, está cheia de calor. A caminhada da porta até ao fundo do corredor deixou-a exausta, respira com dificuldade. O peito que lhe foi removido é muito mais estético do que temi. Nunca a tinha visto despido desde a remoção do peito, mas ali está ele: como o peito de uma adolescente, com uma espécie de mamilo pequeno e subdesenvolvido, mas harmonioso. Se calhar, estas pessoas precisam que alguém lhes diga que a sua mama ausente é bonita, que apesar da assimetria o corpo continua a ser uma paisagem de beleza, principalmente quando há saúde.

A minha mãe não consegue respirar deitada, nem de lado como lhe pedem que se posicione. Dão-lhe tempo para recuperar o fôlego, abrem a ficha dela. Eu sacudo o seu leque, a seu pedido. Rio-me, rimo-nos as duas. Jamais prevemos que, um dia, eu haveria de a abanar com um leque. Sempre foi ela que arregaçou as mangas e me ajudou, sempre recusou ajuda. Pouco depois, espalham o gel no seu peito, com a maca soerguida e a minha mãe deitada de lado, com a respiração um pouquinho mais calma (e sem máscara, Deus abençoe as técnicas, porque o valor máximo de um hospital devia ser não provocar mais sofrimento aos pacientes). Parece uma ecografia, e penso que seja uma variante disso, mas o órgão que se move nos dois ecrãs é o coração da minha mãe. Visto de vários ângulos. Ventrículos, válvulas e formações fibrosas aqui e ali. A mãe está bem, conseguiu acalmar-se, não tem frio. E eu absorvo por um instante a circunstância de estar a olhar para o coração de uma pessoa – a minha mãe – naquele ecrã. Vejo-o a trabalhar, abre, fecha, a válvula parece a lagartinha do livro de Eric Carle. As técnicas são minuciosas, trocam comentários. Oiço palavras como “fraco”, “esforço”, “formação fibrosa”, “colapso”, “função comprometida”. Depois interpelam a minha mãe, dizem-lhe, num tom meio alegre, se ela se perdeu entre 2018 e 2022. Não voltou lá porquê? Porque faltou às consultas? A minha mãe suspira, aperta os lábios, alça as sobrancelhas. A técnica diz-me que é possível que ela já tivesse problemas cardíacos há algum tempo, não sabemos porque esta paciente é muito esquiva. Disse-me, no entanto, que há líquido nos pulmões. Auscultaram-na (não sei se são técnicas, se eram médicas, só sei que tinham o dom de cuidadoras). A oncologista da minha mãe não a auscultou. Não quis despistar uma pneumonia, não quis perceber como estava aquele par de pulmões a funcionar em tempo real. Não ponderou interná-la.

Enfim, a minha mãe é forte. Saímos dali de mãos dadas uma vez mais. Sentámo-nos na sala para ela recuperar. Depois chamámos o elevador e entrámos. Pareceu-me tão pequena, ali de pé, com o casaco enorme e as calças largas. A última coisa que vejo diante de mim, antes de a porta se fechar, é a placa do piso 3 que indica, à esquerda, a unidade de Cirurgia Maxilo-Facial. Onde o meu pai passou dois dos três últimos meses da sua vida. A proximidade das duas alas parece-me ofensiva, mas nada melhor do que voltar a sorrir.

Vou buscar o carro. A mãe não quer esperar no interior, diz que quer ver-se livre da máscara. Lá fora, arfante, precisa de se sentar. Não há bancos. Eu vou buscar o carro em corrida, ligeiramente animada pelo que ela me disse quando saiu do elevador. “Se estou cheia de calor e sem fôlego agora, imaginem quando chegar o verão”.

Se ela acredita que o verão há-de chegar, porque hei de duvidar?

05
Jan23

Piso 8


celiacloureiro

Estou de volta ao piso 8 do Hospital Garcia de Orta. De volta aos velhinhos que não sabem inserir o cartão de cidadão na ranhura para validar a consulta. De volta à sala de espera de oncologia, rodeada de condenados e de um punhado de futuros milagres. Desta vez, a pessoa ao meu lado é a minha mãe. Uma vez mais, o médico dirige-se a mim, porque a pessoa ao meu lado, sobre a qual paira a foice, não tem palavras.


Enquanto o médico da minha avó era mais reservado, esta oncologista é direta, sucinta, incisiva. Não há nada a fazer. Não há cura. Pode fazer quimioterapia ou não, diga-me você, você é que sabe, eu acho que devia, mas você é que sabe. Não sabe quanto tempo a quimioterapia poderá comprar-nos, se descobrirmos agradece que a informemos. É uma roleta-russa. Continuamos a remar, apesar de sabermos que estamos sozinhos no meio do oceano, sem salvação possível, ou pousamos os remos e deixamos que o sol e a sede nos devorem? Morrer a lutar ou morrer tranquilo, sem viagens ao hospital, sem salas de espera, sem catéteres nem o assalto do cheiro a antisséticos?

Lá estou eu, a descer às catacumbas do hospital para marcar outro exame de medicina nuclear, mais de quatro anos depois. A suportar 35 utentes à minha frente para marcar as análises, as senhas que não funcionam, a funcionária que se ausentou um instante, a fila desordeira e o utente que assoma só para “perguntar uma coisa”.

Lá estou eu, ao lado de outra pessoa condenada, sem palavras, sem plena noção de que o que lhe anunciam é o fim, com a Ponte 25 de Abril para lá da janela, uma paisagem solarenga que não se coaduna com o silêncio da médica que digita a um ritmo insuportavelmente lento a transcrição total do relatório de um raio-x ao tórax. Fomos chamadas para uma consulta de oncologia e, nos primeiros dez minutos, a médica passa o olhar do relatório para o teclado, ocasionalmente para o monitor de um HP antigo, e continua a transcrever a nossa sentença. Parece-me pouco humanizado, o processo. Por fim, pousa os cotovelos na mesa, apoia o queixo nos dedos e diz: Pronto, o cancro espalhou-se. Está nos dois pulmões, nos ossos e no fígado. Não tem cura, está num estado muito avançado. Quer tentar fazer quimio ou peço consulta de cuidados paliativos?

E as respostas absurdas. Tal como o meu pai, há quatro anos, a minha mãe também tenta combater as dores de um cancro terminal com Ben-u-ron. Mas diz que nem sempre o toma, porque receia que lhe faça mal. Ou dormir, nem sempre (quase nunca) dorme, mas também não toma nada por receio que lhe faça mal. Também não come, come pouco ou nada, se a médica pudesse ajudá-la a recuperar a fome… A médica procura-me os olhos, é tudo o que vemos uma da outra. Repete: Tudo vai dar ao mesmo. Ao cancro. Encolhe os ombros, como quem diz “para o pouco tempo de vida que tem, tome os comprimidos que quiser para dormir.”

Pede algo que lhe abra o apetite, porque a médica diz que 45kg para uma mulher de 1,60m não é peso de gente. Saímos do hospital depois de correr três pisos para marcar exames e de sermos extorquidos no parque de estacionamento. A ronda das farmácias não corre bem. O comprimido para o apetite está esgotado nos fornecedores. Um suspiro profundo, como se daí pudesse vir a salvação, e agora tudo estivesse perdido.

Antes de bater a porta do carro para entrar na farmácia, a voz arfante da minha mãe pede-me: Traz-me Halibut, custa-me a estar sentada.

E eu regresso minutos depois, a perguntar-me como foi que viémos aqui parar: a este estranho momento no tempo em que o Halibut passa das minhas mãos para as dela, 33 anos depois.

07
Dez22

Outra vez a Bolsa DGLAB


celiacloureiro

Na segunda-feira, saiu uma vez mais a lista de bolseiros atribuída pela DGLAB para 2023. Alguém que se sinta inseguro quanto à qualidade do seu trabalho e que não tenha sido contemplado pode considerar que se trata apenas disso: falta de qualidade. No meu caso, e detestando teorias da conspiração, não posso deixar de passar os olhos pelos vencedores (pelo menos dois deles pela segunda vez) e de me perguntar uma vez mais sobre a justiça e os critérios que levam à avaliação das candidaturas. Isto é: os projetos são avaliados por aquilo que são (um escritor bom com um projeto mau, um escritor desconhecido com um projeto bom), ou pelo nome de quem apresenta a candidatura?

Este ano, assim que recebi a lista e que vi que poderíamos consultar a ata do júri relativa aos projetos vencedores, tomei um duche, meti-me no carro e rumei à Cidade Universitária. Entrei pela primeira vez na Torre do Tombo (uma espécie de arca de Noé) e subi até ao gabinete da DGLAB. Fui recebida com cortesia num escritório ao fundo de um corredor cheio de retratos a preto e branco de autores portugueses consagrados (alguns imortalizados). Pedi para ver a ata do júri, bem como a classificação dos meus projetos (apresentei dois). 

Para termos direito a bolsa, temos de obter a classificação máxima (10) em todos os critérios. Todos os bolseiros tiveram 10, e apenas eles. Por um lado, parece-me uma classificação muito simplista. Basta correr os "favoritos" a 10, sem sequer lhes dar margem para um ponto menos forte na candidatura.

Um dos meus projetos teve 8. Anteriormente, tive um projeto com 8,6. É agridoce. Olhei para a nota, revirei as páginas nas mãos e pensei: é preciso que nenhum favorito se candidate com um projeto sobre rissóis para que este 8 se torne um dia num 10.

Atenção: não estou a dizer que todos os contemplados sejam favoritos mas, das 7 bolsas atribuídas para Ficção Narrativa, parece-me evidente que pelo menos 6 estão no circuito dos prémios literários (a sério, investiguem os juris, as organizações, e estabeleçam as conexões), dos pais escritores, dos nomes sonantes, dos passeios ao colo do Público e das editoras que ditam o que é "cultura" em Portugal.

Ana Teresa Pereira - pela segunda vez, Grande Prémio Romance e Novela APE/DGLAB 2011 (isto é, organizado pelo mesmo gabinete, possivelmente com os mesmos funcionários/juri a regê-lo). Tem mais de 40 obras publicadas, segundo o nosso amigo Google, por isso a parte em que a Bolsa se propõe a permitir que o bolseiro se dedique exclusivamente à escrita (parafraseando) também não importa quando o escritor já o faz independentmente dos fundos da cultura.

Frederico de Melo d'Ornellas Pedreira - o senhor d'Ornellas é um Doutorado na própria Universidade de Letras de Lisboa, no coração da qual temos este bonito escritório da DGLAB.

Daniela Margarida Duarte Leitão - quem é Daniela Leitão? A única que recebeu a bolsa por mérito?

Ana Mafalda Leitão Ivo Cruz Valente - Grande Prémio APE do Romance e Novela 2003, muitas raízes deste prémio terão ligação com a nossa querida DGLAB

Maria Antónia Neves Nazaré Oliveira - académica com especial interesse no nosso Camilo Castelo Branco

Matilde Maria D’Orey de Sousa Campilho - bisneta materna do 5º Duque de Palmela, querem convencer-nos que é um génio da poesia mas agora vai escrever contos e a bolsa, que favorece outras obras de referência na mesma área a que nos candidatamos, fechou os olhos. É um 10. O que quer que saia da pena da bisneta do 5º Duque de Palmela será ótimo e será anunciado na Sábado com ovação

Ana Margarida Taborda Duarte Martins de Carvalho - filha do nosso querido Mário de Carvalho, recebe bolsa pela segunda vez, a última sendo em 2017, também foi agraciada pelo Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB 2013 (em colaboração com o mesmo gabinete que atribui as bolsas)

Posto isto, o que me pergunto uma vez mais é se o Ministério da Cultura está ao serviço dos autores, do surgimento de mais vozes, ou ao serviço de apelidos e de personalidades construídas pela própria DGLAB, muitas delas sem qualquer reflexo nos hábitos de leitura dos portugueses. Trata-se de dinheiro público a pingar constantemente sobre as mesmas pessoas - por muito genias que possam ser (duvido), será que as classificações são atribuídas com o rigor que se espera a um comité responsável por gerir estas oportunidades? 

Pergunto-me se um serralheiro mecânico da Azinhaga, apenas com a escola técnica, teria direito a bolsa neste mundo de académicos. Se é preciso um doutoramento para pensar, para sentir e, portanto, para escrever.

Este país exaspera-me.

26
Nov22

Pai Natal Solidário CTT


celiacloureiro

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Há dois anos, oferecemos um computador portátil à Laura através do Pai Natal Solidário. Reparei na carta da Laura já tarde, e era das últimas que precisavam de atenção.

É triste imaginar que algumas destas crianças não irão receber o que pediram, e às vezes são coisas tão singelas que comovem.

Este ano decidi ajudar com antecedência, elegendo duas cartinhas pelas quais serei pessoalmente responsável (juntamente com a minha irmã que não pode ouvir expressões como "roupa quentinha" que começa a chorar).

Porém, como juntos conseguimos mais, peço uma vez mais o vosso apoio para realizar mais desejos de Natal de crianças desfavorecidas.

 

Como consta no website dos CTT, que podem visitar aqui:

O Pai Natal Solidário dos CTT é uma ação de solidariedade social que surpreende crianças em situação de risco, realizando os seus desejos de Natal.

Estas crianças, até aos 12 anos de idade, são convidadas a escrever cartas ao Pai Natal, com os presentes que desejam receber. Depois, as responsáveis pelas instituições entregam as cartas nos CTT, que tratam de as colocar online e nas Lojas CTT para serem escolhidas.

Qualquer pessoa pode fazer com que o desejo de uma destas crianças se torne realidade e surpreendê-las no Natal. Para isso, apenas tem de apadrinhar uma das cartas que estão disponíveis durante os meses de novembro e dezembro.

 

Selecionei algumas cartas que me comoveram especialmente, e proponho-me a:

- Receber os vossos donativos e atribuir um número de "doador" a cada pessoa que me aborde em mensagem privada. A pessoa poderá ver o seu número na listagem de doações recebidas e a respetiva contribuição, para ter a certeza de que foi contabilizada;

- Organizar os donativos carta a carta, segundo a ordem abaixo, sempre que fechar uma carta aquele presente está assegurado e passamos à próxima;

- Escolher artigos de qualidade e duradouros, sempre que possível em saldo/com desconto, sem prestar atenção a marcas a menos que ofereçam a melhor relação qualidade/preço;

- Apresentar as faturas, fotos e quaisquer materiais de apoio para que acompanhem o processo deste lado.

 

Informo-vos que também poderão fazê-lo a título pessoal indo ao site dos CTT e apadrinhando uma carta. Depois só têm de entregar o presente diretamente num balcão e os CTT entregam-no gratuitamente. No entanto, essa opção funciona para presentes mais modestos. É para os mais "bicudos" que podemos precisar de ajuda. E para os mais urgentes.

 

Selecionei estas cartas, por ordem de "importância"

1. Uma Mochila e estojo para o Nataniel + chuteiras nº 40 // Budget 50,00€

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 2. Fraldas Nº 3 Dodot + Toalhitas Pele Sensível Dodot // Budget 35,00€

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 3. Brinquedo musical e roupinha para o Aildo - Budget 50,00€

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4. Uma cozinha para o Dinis - Budget 50,00€

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5. Fraldas tamanho 3 e leite Aptamil 2 para a Dulce (2 fraldas tamanho 3 Pingo Doce + 3 latas Aptamil) - Budget 50,00€

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6. Uma bola do Benfica e uns ténis da Fila nº 32 para o Carlos - Budget 50,00€

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7. Uma Casa de Bonecas para a Lia - Budget 25,00€

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8. Um bebé com carrinho para a Petra - Budget 25,00€

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9. Uma guitarra e um livro de colorir para o Lucas - Budget 25,00€

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10. Legos para o Rodrigo - Budget 20,00€

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11. Ténis para a Aguinalda - Budget 25,00€

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 12. Uma bicicleta para o Gihaith - Budget 200,00€

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Então, estamos juntos?

 

Estas e outras cartas aqui:

Pai Natal Solidário (painatalsolidario.pt)

06
Set22

Setembro


celiacloureiro

Li algures que somos a geração que mais trabalha. Não me espanta. O que me espanta - e não sei se temos tempo para o analisar -, é que trabalhemos por status, por conforto, por vício. Vivemos num estado de alimento garantido. De privilégio constante. Vivemos de pequenos luxos, e não conseguimos imaginar o dia-a-dia sem eles. Ir de carro para o trabalho. Refeições fora. Um certo coleccionismo - no meu caso, de livros. Mais olhos do que barriga sobre quase tudo, quase sempre.

De repente, tenho muito pouco tempo livre. Estou sempre cansada. Por um lado, trabalho a partir de de casa. Às vezes, dou por mim a trabalhar fora de horas, só porque sei que a tarefa tem de ser concluída, e já não há a barreira dos transportes, das horas, do anoitecer lá fora e da chuva no caminho a impedir-me de a concluir. Depois, lembro-me que tudo é um bater de asas de borboleta, e que o efeito dominó faz com que por consequência fique cansada, desinspirada, e me deite mais cedo para recomeçar tudo igual no dia seguinte.

Também continuo a traduzir livros. É preciso uma cabeça limpa e ideias coerentes para rever ou traduzir um livro. Se falhar nessa tarefa, vou ficar mesmo muito desiludida comigo mesma. Creio que, um dia, é aos livros que hei de ir buscar o meu sustento. E não me refiro à escrita. Traduzi uma mão cheia de livros em seis meses, mas, pelo motivo que mencionei no primeiro parágrafo, uma falha parece ter sempre mais peso do que uma tarefa concluída com louvor. Tenho medo de errar. Medo de que venha o cansaço e me atire por terra.

Tem-me apetecido escrever, mas não há tempo; não há vida. Há sempre algo que exige a minha presença noutro lugar. Ou uma atividade menos cansativa para concluir. 

Tenho tido cada vez menos tempo para pensar na vida. Na importância de attraversarla de olhos abertos. Atenta ao que vai acontecendo ao redor. Para ser. Para escutar o universo. Para me sentir mulher, viva, livre. . Olhando para trás, compreendo que não me conhecia muito bem. Achava que, por esta altura, teria uma vida igual à dos outros. Estaria casada e submergida pelas exigências da maternidade. Daqui a uns anos divorciava-me e voltava às amarguras da escrita, ao alívio destes desabafos. Não vi, de início, que sou feita de um material que se deixa ficar à parte, a observar, enquanto os outros vivem, triunfam e cometem erros. Acabo por julgar, por opiniar, e também por me emocionar até às lágrimas com a vida que corre como o rio para o mar, sem se deter, ao meu redor. E que não é a minha. Eu permaneço sobre uma rocha à beira do riacho, abraçada às pernas. Ora choro por nunca ter lugar na corrente, ora me dou por satisfeita por não andar à deriva por águas turvas. É mais fácil suportar os elementos a partir da margem. Em tempos, escrevi num romance algo a respeito de uma garça à beira-mar. Vem a espuma das ondas e salpica-lhe as asas. Mas a garça permanece.

Resta-me observar. Sonhar. Escrever. Viver, anestesiada, porque sentir é-me tantas vezes insuportável.

Chegou setembro. O meu mês favorito. Voltei a tomar chá e a calçar meias. Tenho um cão. Ainda consigo alinhavar algumas frases em tom literário quando me sinto inclinada a isso. Debato-me com as palavras, mas não ao ponto da exasperação. Coisas bonitas hão de chegar para mim, e todas elas cheiram a papel, a tinta e a tipografia. Livros, livros e mais livros.

Sem livros, que vida me restaria para viver?

Mood.

 

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