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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

26
Jan20

A ditadura da cosmética (a indústria e a nossa conivência)

- ou como descobri que tenho a cara suja -


celiacloureiro

Há uns dias, horrorizei a funcionária de uma parafarmácia com um hábito chocante. Tinha-me dirigido à secção das marcas sonantes para procurar dois cremes que pesquisei primeiro online. É que as minhas sobrancelhas andam sempre a escamar durante o inverno, e agora a pele ao redor também estava a ficar vermelha e irritada. De modo que fui pesquisar e o meu amigo Google sugeriu que pode ser dermatite seborreica. Antes de marcar uma ida ao dermatologista, decidi comprar um creme adequado para esse meu autodiagnóstico e ver se a coisa funciona. Depois de me esclarecer quanto aos dois cremes que me puseram em dúvida, perguntou-me como lavava o rosto. E agora pasmem: lavo a cara com água. Umas vezes morna, outras fria. Pronto, é isso, sou uma porcalhona. Fora as vezes em que uso maquilhagem, que são muito poucas, e em que passo desmaquilhante (em creme, toalhitas ou águas micelares etc.), não tenho o chamado ritual de beleza. Aquela coisa do instagram e das revistas? "A rotina de beleza de ....?", nope, não tenho. Basicamente, eu acordo, tomo banho e saio de casa. Quando saio do banho, considero que a cara já está lavada, foi esfregada com a esponja de banho. Se estiver frio, seco o cabelo à pressa. Se não, vou mesmo com ele molhado. No fim do dia, desfaço os nós do cabelo e lavo a cara (com água, em várias vezes) do fumo, suor, gordurices do dia.

A senhora começou a falar no pH da água, dos cremes de supermercado, disto e daquilo, e tentou vender-me um frasquinho de uma água qualquer coisa com “extratos naturais”, suave e sem perfumes, para eu, digamos, tirar o surro da pele.

Saí de lá apenas com o meu cremezinho básico (já de si bem caro), depois de lhe explicar que já usei a emulsão hidratante da Avène, o sérum mineral da Vichy 89, e mais uma panóplia de porcarias que às vezes me dá para comprar e que depois de duas utilizações nunca mais uso. Por isso não, dispenso dermocosmética a esse preço e com essas funções.

Porquê? Porque detesto sentir coisas na cara. Detesto sentir maquilhagem, detesto sentir cremes. Sinto que a minha pele não está a respirar, e está a absorver uma quantidade enorme de porcaria. Quando saía à noite, costumava pintar-me sempre para essas ocasiões. Entretanto, isso desapareceu e raramente ponho alguma coisa na pele. Também tenho muita dificuldade em pôr base. Faço a cedência ao BB cream, que costumo usar quando me pinto, apenas porque me parece menos agressivo do que a base. Nunca me pintei para fingir que tenho pestanas maiores, ou que tenho os lábios mais grossos, ou que não tenho sardas. Nunca usei a maquilhagem para esconder nada. Mas há quem o faça, e isso é um problema maior do que estético. É um problema de mentalidade. Creio que é melhor, até para a autoestima, preservamos o que temos, realçá-lo, talvez, mas não nos transformarmos em pessoas de plástico num mundo em que somos cada vez mais iguais, por via do sugestionamento das marcas e das influências digitais. É ver as manas Kardashians/Jenner, com os seus lábios, narizes, rabos e contornos faciais falsos. Milionárias de calções de ciclismo. Porque tiramos o cérebro da avaliação destes hábitos? Ou, se não quisermos julgar, porquê não pensar antes de adoptar esse tipo de excentricidade para as nossas vidas?

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É um mal que nos chega de todas as partes. No Instagram, há instantes, apareceu-me um anúncio de base a falar da sua capacidade de cobertura. Basicamente, tapa tudo. Tapa sardas, tapa a palidez, tapa sinais, tapa vermelhidões, tapa-te a ti. Há uns tempos, vi umas unhas de gel com pestanas lá coladas, na mesma rede social. É meio extremista, mas há quem o faça. Quando eu era pequena, a minha bisavó usava pó de arroz. Apenas. A minha tia-avó usava as unhas impecavelmente limpas, curtinhas e bem limadas. A minha avó nem isso, nem sequer pintava o cabelo. Nós agora temos de pôr creme hidratante, primer, corretor de olheiras, base, iluminador, blush, sombra, rímel, eyeliner, pó matificante e fixador de maquilhagem no fim. Nem introduzi o stick de contorno facial, que seria mais uma camada de claros e escuros. Para quê tanta porcaria?

Eu respondo: para os gigantes da cosmética fazerem dinheiro. Muitas vezes, o dinheiro vem das crianças que trabalham nas minas de mica que fornecem a matéria prima para os glitters e os highlighters. Já se luta por maquilhagem cruelty free para os animais, e que tal também free de trabalho infantil?

O segredo para contornar tudo isto não seria parar de abraçar hábitos nocivos para nós mesmos e para o planeta? Parar de consumir em massa, cremes e maquilhagem, inclusive?

A senhora que ficou chocada por eu lavar a cara deficientemente, tinha várias camadas de betume na cara, além de pestanas falsas, a boca pintada com aqueles batons mate que parece que estás desidratada, e podia atestar que aquela não era a cor da pele dela. Porquê que as pessoas se prestam a isso? Usam uma máscara todos os dias, mesmo quando o seu trabalho é dar conselhos de limpeza e de saúde. A sua autoconfiança depende dessa tal máscara? Julgam mesmo que podem sufocar a cara em toxinas e depois salvá-la com cremes e emulsões e séruns e tónicos faciais?

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Compram todas as novas teorias, como aliás as mulheres o fazem desde sempre (já no século XIX ficavam carecas de tanto usar ferros de encaracolar para estarem à la mode). Além disso, inventou-se a primeira máquina de encaracolar cabelos e as mulheres dispunham-se a passar seis horas ali sentadas. Porque é que nos deixamos ser escravas da beleza? Ou melhor, porque é que embarcamos com tanta facilidade no padrão de beleza que nos impõem?

Há uma indústria enorme por detrás disto tudo. Uma indústria que te convence a pôr pestanas falsas (que te envelhecem bastante), que te convence a usar unhas de gel (o maior flagelo estético do século XXI), apesar dos avisos de que a luz que os aparelhos emitem pode causar cancro de pele, convencem-te a fazer solário e, se não tiveres tempo (ou dinheiro) aposta no autobronzeado. Há quem use extensões, quem se banhe em perfume logo pela manhã e que quase me mata de alergia nos transportes públicos apinhados e sobreaquecidos.

Não sei se a boa saúde da minha cara se deve a andar tantas vezes limpa dessa quinquilharia toda (ou suja, na ótica da senhora da loja), mas a verdade é que cheguei aos 30 com uma pele boazinha. Esperaria chegar assim aos 40, e depois aos 50. Com as devidas rugas, mas sem a secura desértica de algumas peles maltratadas pelas águas tónicas, pelos séruns disto e daquilo, pelas esfoliações e máscaras, spas faciais e etc.

As mulheres libertaram-se de tantas coisas nos últimos cinquenta anos… Porque é que ainda se deixam escravizar e escravizam as outras com a ditadura da imagem?

https://www.theguardian.com/global-development/2019/nov/21/children-as-young-as-five-make-up-most-of-madagascars-mica-mining-workforce

https://www.health.harvard.edu/cancer/do-gel-manicures-increase-cancer-risk

Link das imagens:

https://www.express.co.uk/news/uk/506355/Slap-in-the-face-for-women-who-love-make-up

https://greatergood.com/clicktogive/ggc/terms-of-service

21
Jan20

Pequenas reformas, grandes patifes!


celiacloureiro

A minha querida avó, figura máxima na minha educação e presente em quase todas as minhas memórias felizes da infância, sempre se queixou da sua reforma baixa. Tanto ela quanto o avô sofriam desse flagelo em Portugal: o desamparado do Estado. Eu já teria uns 20 anos, se não mais, quando finalmente entendi que estavam desamparados por um estado para o qual contribuíram pouco ou nada.

Foi para mim um instante de revelação, que levantou a ponta do véu sobre a complexidade do Estado Social, a desigualdade, a educação e o desalento das pessoas que não entendem e que, por não entenderem, se julgam abandonados e desresponsabilizados pelas suas próprias escolhas.

Costumo acompanhar o Linha Aberta e, no link abaixo, temos a história de uma senhora que sem dificuldade conquista a nossa compaixão, mas decidi tomar atenção aos factos. Como é invariável em todas as histórias de idosos no limiar da pobreza em Portugal, a história começa com "trabalho desde os...". Geralmente segue-se uma idade precoce em que deviam estar na escola, mas não estavam porque o ensino obrigatório em Portugal não é bem obrigatório. Só tens de estar inscrito, depois se vais ou não...

A questão para aqui chamada é que esse trabalho desde os 13 anos a pastorear patos, ou a coser camisas, ou a lavar roupa no tanque, não trouxe dividendos para o Estado. Não acrescentou 10 tostões aos cofres do país. Mais tarde a senhora lá terá trabalhado com descontos, completando um total de 15 anos de contribuições para a Segurança Social.

Segundo o simulador de reformas da Segurança Social, posso reformar-me a partir dos 66 anos e 4 meses, que é como quem diz: em 2056. Se esperar pelos 68 anos, obtenho uma bonificação extra. Esses dois anos já devem implicar deslocar-me de arrastadeira para o escritório, e depois devem sobrar-me uns 10 aninhos de qualidade de vida para gozar o sol e a Natureza, depois de uma vida de trabalho. Mas de uma vida de trabalho significativo para o Estado. Trabalho que, todos os anos, enriquece os cofres do país. Ainda que eu nunca tenha estado de baixa, nunca tenha beneficiado de subsídio de desemprego, raramente use o SNS (por inúmeros motivos, o principal deles a desorganização colossal, a tecnologia obsoleta, a marcação de consultas num post-it que me é entregue em mãos e que perto numa semana, quando a consulta está marcada para daí a meio ano). Que significa isto? Que durante dez anos apenas contribuí, não beneficiei. Os meus impostos garantem por aí os RSI, os subsídios de desemprego para quem não se empenha em procurar emprego enquanto dura a bonificação de férias, as baixas sistémicas de alguns nichos da função pública, etc., etc.

Eu contribuí. Muitos dos portugueses que agora estão a chegar à reforma não contribuíram, ou contribuíram pouco. As suas reformas, nesta pirâmide etária em que os jovens beneficiam de bolsas ou se agastam em estágios, e os velhinhos são cada vez mais, são garantidas em parte pelos seus parcos descontos, em parte por um esforço previdente de um Estado onde a cultura máxima é o judaico-cristianismo, e a caridade é uma virtude. Eu considero que embora a caridade enobreça quem a pratica, retira a dignidade a quem a recebe. Não seria mais proveitoso formar as pessoas, direccioná-las, instigá-las a trabalhar e a prosperar por si em vez de esperar um apoio que nem sempre vem a tempo e horas, nem sempre é garantido? Não seria melhor abater a vaca magra e obrigar o povo a lavrar a terra, em vez de lhe permitir que esprema para sempre as mesmas tetas flácidas do mesmo bicho decadente?

Qual é o problema? A educação. A formação. A população é ignorante. Mesmo os jovens são ignorantes quanto ao modo como funciona o país e as suas instituições. Depois andam pela vida a sentirem-se renegados, injustiçados. 

Tenho pena da senhora, mas será que não devia ter tentado levado uma vida fora dos circuitos da economia paralela?

https://sic.pt/Programas/linha-aberta-com-hernani-carvalho/videos/2020-01-17-Linha-Aberta---com-Hernani-Carvalho---Emissao-de-dia-17-de-Janeiro---1-Parte

20
Jan20

Os media, as redes sociais e o futuro dos nossos miúdos


celiacloureiro

Tenho uma adolescente lá em casa, conheço outros tantos. Tenho acompanhado crianças a crescer de perto, e concluo que os media, os feeds de notícias do Facebook e sobretudo a influência dos influenciados do Instagram arruinam a infância e a juventude de muita gente.

No caso da infância, é esse incutir de consumismo desde as primeiras palavras. É Patrulha Pata, é Panda, é Violeta, é Frozen. Bolos disto tudo, festas de aniversário temáticas, fatiotas a preceito, a ideia, possivelmente errada, de que uma criança de 5 estaria mais apta a assistir a um concerto da Hannah Montana do que a um concerto dito decente, de algo que lhes prepare a formação cultural e lhes treine o ouvido para o poder enriquecedor (e até terapêutico) da Música. Nunca entendi como é que os pais desembolsam quantias astronómicas para esse tipo de concerto, e depois acham uma visita ao Jardim Zoológico ou ao Oceanário cara. Atenção, não estou a posicionar-me junto dos animais enjaulados, mas creio que apesar da controvérsia podem ser passeios mais lúdicos do que aquele até ao parque onde um tipo anda vestido de panda a dançar canções repetitivas.

Na adolescência tudo adquire outra dimensão. As miúdas ganham as manias das divas do Instagram, quer queiram quer não. Querem meter pestanas falsas, querem tops a mostrar o umbigo, querem os ténis do momento. Quando damos por elas, andam por aí com unhas de gel (o maior flagelo estético desde as permanentes falsas nos anos 80), a tirar fotos no WC, com biquinho de pato e sem nunca terem lido um livro na vida. Engravidar na adolescência é quase glamoroso. No caso dos rapazes, as marcas adquirem uma dimensão ainda mais significativa. Enquanto a rapariga se contenta com renovar o guarda-fato a cada trimestre com as últimas da Primark, o rapaz precisa de ténis e equipamentos de marca, daqueles muito caros mesmo. E privilegiarmos o bom, o duradouro, em vez da etiqueta?

Na idade adulta, a nossa geração tem de enfrentar o exagero de páginas de Instagram de famosos e de pessoas saídas de lado nenhum mas apelidadas de "influencers", que na realidade apenas ecoam a propaganda de meia dúzia de marcas que compreenderam a facilidade que os rebanhos têm em seguir um cão pastor (aka influencer). Até enjoa tanta Prozis, tanto post em torno de como o champô tal ou o iogurte tal foram capazes de nos mudar a vida. Pessoas cheias de acessórios, com tatuagens minimalistas, cabelos balayage ou ombré, em eterna remodelação das casas, viagens recorrentes a sítios exóticos, bronzeados, a fotografarem com GoPros ou drones, a usarem os mesmos relógios, os mesmos blusões de motoqueiro, os mesmos ténis compensados, as mesmas pulseiras no tornozelo, as mesmas orelhas com vários furos, as mesmas pestanas falsas e unhas de gel, o mesmo kit de contorno facial. Há que ter pelo menos uma mala da Bimba y Lola, que é um caso flagrante de se pagar pela marca em vez de pelo design ou pela qualidade. De manhã comem as mesmas panquecas da Prozis (e por 50,00€ levam uma faca de cozinha se puserem o código 4932827#), vão aos mesmos ginásios, aos mesmos restaurantes de sushi, branqueiam os dentes nos mesmos consultórios dentários, usam os mesmos batons mate, levam os filhos ao mesmo Spa para bebés, têm casamentos de sonho planeados até à exaustão, filhos perfeitos que usam todos as mesmas marcas de creme porque têm todos a pele sensível, deitam-nos todos no mesmo ninho e passeiam-nos no mesmo carrinho, que guardam dentro da marca de SUV que lhes ofereceu um renting em troco de publicidade. 

Procuram todos ser tão diferentes que nem se apercebem como são todos iguais.

Para cúmulo, o Harry e a Meghan são notícia. Não me ocorrem duas pessoas que me importem menos. Porquê dar tanto tempo de antena a estas futilidades?

O que faz os miúdos de hoje em dia, esses insatisfeitos crónicos, felizes? Eles sequer concebem o significado de felicidade para além do materialismo?

Não será esta a lista de essenciais à felicidade de um jovem, e não traduzirá isto o falhanço dos pais, que consideram as visitas de estudo demasiado caras (digo-o porque conheço a reação dos outros encarregados de educação a visitas propostas pelos professores da minha teen), mas que lhes pagam bons telemóveis para as suas crianças poderem manter os feeds atualizados?

- Subscrição Netflix ou HBO;

- Ténis de marca;

- Uma consola moderna com um vasto leque de jogos;

- Praia no verão, para se bronzearem;

- Um iPhone ou similar;

- Roupa de marca;

Cabe aos pais construir a individualidade dos filhos, protegê-los das massas, do consumo desenfreado, da insatisfação crónica e das vidas de fachada, disfarçadas com os filtros nostálgicos dos editores de imagem. Incutir-lhes o que é importante e o que é acessório. E isto é crucial para o mundo do amanhã.

19
Jan20

Escrita por fórmula


celiacloureiro

Como escritora, com certeza terei as minhas manias e os meus pontos recorrentes. Há assuntos que, de tão pertinentes, de tão pessoais (mesmo sem o serem), insistem em revisitar todos os meus livros. A violência doméstica, por exemplo, é um tema que me é difícil de contornar, e o motivo é simples: está em toda a parte. Em cada aldeia deste país, em todos os tempos que eu escolha para escrever. Como não criar um novo calhamaço em torno dela? Com muita força de vontade... Há mais a dizer, digamos outra coisa num outro volume.

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Ontem à noite estava a ler um livro da Nora Roberts que a minha mãe me trouxe. É da Harlequin e compila duas histórias num único volume. Cada história tem cerca de 250 páginas. Tinha lido a primeira há uma semana, talvez, e atirei-me à segunda porque tinha o cérebro demasiado parado para me lançar a um livro bom. Costumo ler estes livros mais light como se servissem para limpar o paladar, função que cumprem com louvor.

 

Qual é, então, esta questão em torno da escrita por fórmula?

Acho que não temos dificuldade em nomear uns quantos autores que se apoiam num nicho específico, numa fórmula reproduzida a cada novo volume, para construírem o seu percurso literário e fidelizar leitores.

Nora Roberts é, sem dúvida, uma dessas escritoras por fórmula. Tanto o é que num livrinho em que os editores compilaram dois enredos da sua autoria ficamos na dúvida se ainda estamos a ler a mesma história. A premissa é a mesma: mãe solteira, filho rapaz, acaba de se mudar (ou precisa de mudar-se), muito independente (na realidade cheia de medo de uma nova relação devido a traumas passados), tipo simpático, ambos lindos de morrer. É tão parecido que dói... Parece que o autor teve um esforço mínimo de imaginação para pôr este livro cá fora e receber os direitos de autor. E funciona, não estou a dizer que não funciona. Quando quero um livro lamechas, com final feliz garantido, pego nestes livritos feitos à medida para não me defraudarem as expetativas. Não se esperando muito, o sucesso é garantido!

Talvez aquilo que sai mais caro a um autor seja precisamente a imaginação. Por isso temos alguns autores a regressar aos mesmos temas, a alinhavá-los segundo a mesma fórmula, uma e outra e outra vez.

 

Alguns exemplos abaixo:

Dan Brown (cria-se uma personagem indispensável a investigações, mas ainda assim leigo nas questões policiais/legais, e constrói-se uma série em torno dele. A pessoa que estiver a patrocinar as suas descobertas é, quase decerto, o vilão!)

José Rodrigues dos Santos (ler descrição para Dan Brown);

Nicholas Sparks (gente a passear de barco, a beijar-se à chuva, o problema de um ter dinheiro e outro não, geralmente é a rapariga de classe alta e o rapaz carne para canhão numa obra qualquer);

Margarida Rebelo Pinto (mulher muito independente, mas na realidade carente até à quinta casa, muito liberal a nível sexual, dividida entre dois - ou mais - homens, sendo que nenhum deles a trata especialmente bem e ela passa as páginas todas do livro a tentar esquecê-lo mas a vê-lo em cada pacote de leite);

Sveva Casati Modignani (foi a minha grande desilusão, porque consegui avançar bem na obra dela no fim da minha adolescência antes de descodificar a fórmula. Mas cá vai: rapariga linda de morrer do Sul pobre e socialista de Itália é cobiçada - ou apaixona-se - por um barão das indústrias de Milão e toda a gente lhe diz a cada três páginas como é linda, forte e maravilhosa, e que superou imenso);

Lesley Pearse (no caso da senhora Pearse bastaram-me três livros para retirar a fórmula: mulher linda de morrer é admirada por toda a gente ao seu redor e elogiada, mas ela não se acha assim tanta fruta e tudo de mal que lhe pode acontecer acontece, isto enquanto toda a gente salienta o seu azar e a sua força colossal!)

Nora Roberts (a acrescentar ao assunto lá de cima: mulher das artes ou homem das artes fica obcecado com pessoa que conheceu num encontro casual e a arte daí por diante só funciona com o convívio com o outro. A dada altura, ele vai dizer "estou a cortejar-te, ainda não reparaste?" e ela vai dizer "porque é que não fazemos sexo?", porque elas são sempre muito desinibidas e têm a iniciativa. Também pode dar-se isto tudo mas com fadas, elfos ou bruxas à mistura, numa Irlanda que os irlandeses não reconhecem como sua)

Outros há que pegam em temas universas - quais temas, é o amor, pronto! - e esmiuçam-no com frases que se querem chocantes, reveladoras, life changing! Mas que são só ar. E conseguem vender muito, mesmo muito, a plagiar o próprio trabalho, a fazer copy/paste e reciclagem do que lhes trouxe a fama em primeiro lugar. Por sorte, as pessoas crescem e vão-se enjoando. Muitos desses autores da nova geração de pseudo-sentimentais não sabe - ou não consegue mesmo - escrever um romance, no sentido formal da coisa.

Escrever um romance é difícil, ah pois é bebé.

Questões prementes: quais são os escritores de fórmula a que voltamos sempre? Podemos considerar os escritores de fórmula tão talentosos como os escritores que se reinventam a cada livro, trazendo novos temas, novas inquietações ao leitor?

O escritor de fórmula será um mero empreendedor (será a escrita o seu ganha-pão, o seu emprego das 9h às 18h?), enquanto os escritores de talento ganham menos mas a escrita é a sua vocação, o seu dom? O jeito para as palavras, como para qualquer arte, será mesmo um dom ou pode ser treinado? Podemos exercitar a imaginação, a linguística e a inteligência para conceber romances infalíveis no mercado, ou a capacidade de criar vidas é inata? Podemos ser todos, mediante muito treino, Cristianos Ronaldos do mundo editorial?

Duvido.

14
Jan20

"Os Pássaros" e a paternidade


celiacloureiro

Se tudo correr bem, o meu próximo romance a ser publicado, Os Pássaros, estará convosco ainda este trimeste. Estamos a trabalhar na capa e nos detalhes finais.

Bem a propósito do tema central desse romance (a mãe, o pai), ando a ler um romance vencedor do Prémio Gongourt 2016Canção Doce, de Leïla Slimani. Somando a isto, o facto de ter chegado há cerca de um mês aos temidos 30 lançou-me numa senda existencial sobre a questão da reprodução. Ter filhos ou não ter, eis a questão.

Toda a gente me dirá que ainda sou nova, só tenho 30 anos, e eles só foram pais aos 32, aos 36, aos 40. O problema principal é a disposição. O querer a criança, os momentos bons, e não estar disposta a passar noites em claro, nem mudar lençóis urinados (ou vomitados) a meio da noite.

Na semana antes do Natal, dei a mão à minha sobrinha de 3 anos pelo parque da cidade, e fomos espreitar a tenda onde se davam os eventos da quadra em questão. O sol já se tinha posto, e o crepúsculo é a minha altura favorita do dia - quando tudo recai numa estranha inquietude, as tarefas diárias estão cumpridas e podermos escutar-nos por fim. Com a mãozinha dela presa na minha, as duas atafulhadas de roupa, seguimos no seu passo lento, de pernas curtas e de galochas coloridas. Foi tão perfeito, abrandar assim o ritmo da existência, permitir-me ver o mundo como novo, a partir dos olhos de uma menina esperta de 3 anos...

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Pensei que, se fosse sempre assim, se fosse sempre eu a apontar-lhe a beleza das árvores, ainda rubras do outono que se despedia, a dizer-lhe que dentro daquela curiosa tenda estavam os elfos do Pai Natal a embalar os presentes... Se fosse sempre assim...

Como é que podemos ter filhos hoje em dia, condignamente? Como é suposto conseguir ter um filho, sustentá-lo com o meu salário, conseguir-lhe vaga numa creche, submetê-lo às crueldades de um mundo tantas vezes sublime, tantas vezes cão? Como é suposto separar-me dele quando é uma criaturinha frágil de cinco ou seis meses, voltar para o trânsito, para as buzinas da ponte, e depois sair, dormitar com a testa na janela do CP, lutar por lugar no Cacilheiro, e ir resgatar a criança aos braços de estranhos, chegar a casa, dar-lhe banho, alimentá-lo, lidar com as suas birras, entretê-lo, ler-lhe uma história, cortar-lhe as unhas. E ainda cortar as minhas unhas, lavar o meu cabelo, ir às compras, cozinhar, alimentar-me, limpar a casa. Há quem o faça, e parece-me extraordinário que assim seja. Não sei se serei capaz.

Há dias em que quero muito uma criança, outros em que suspiro de alívio por o miúdo que grita junto aos dispensadores de gomas da Auchan não ser meu.

Todos os dias vejo mulheres-heroínas a dar o sangue e o suor pelos filhos. São apenas de carne e osso, e o flagelo dos homens que não ajudam. Que acham que os filhos e a casa são coisas do domínio do nosso género. Como é que essas mulheres, exaustas, ainda se dispõem a servir um companheiro egoísta e pouco colaborante?

Se fosse possível ter um filho das 19h00 às 20h00, seria ótimo. Mas os filhos são para todas as horas, fins-de-semana incluídos, não é? E se eu não o amasse o suficiente para deixar de me entreter com os meus livros e os meus papéis para lhe dar colo? E se o amor místico que tanta gente diz que as mães sentem pelos rebentos não existir em mim, e só me restar um arrependimento infinito quando a criatura desdentada estiver a esgoelar-se nos meus braços?

E se o tempo passar, os meus ovários secarem, e eu me arrepender? É um dilema impossível, este. Não saber se sim se não. Se agora se amanhã. Se tarde demais. Se adotar se parir, se ...

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13
Jan20

As borlas e a dignidade do cidadão


celiacloureiro

Várias fontes - o Jornal de Notícias, por exemplo - avançaram com a notícia de que se prevê uma diminuição do valor das propinas no Ensino Superior para 2020. Fala-se em fixar a propina anual em 697,00€. A propina de uma licenciatura, este ano, está nos 871,52€. Em 2011, quando saí da Universidade, estava perto dos 1000,00€.

O português comemora, mas eu não. Porquê? 

Primeiro porque favoreço a equidade acima da igualdade, e o mérito acima de tudo. Identifico-me pouco com esta esquerda moralista em que se fala tanto de igualdade de oportunidades que se acaba a cavar um buraco maior na Economia do país atribuindo ajudas sem critério. De tabela, perde-se a oportunidade de permitir aos estudantes e às famílias portuguesas que amadureçam. Vou tentar simplificar...

Primeira questão: caminhar na direção de Ensino Superior gratuito quando não há creche gratuita para as crianças até à pré-escola parece-me absurdo. É como começar a construir uma casa pelo telhado. Assume-se que os pais têm fundos - nunca menos de 100,00€ para uma família com dificuldades, e muito mais para famílias sem dificuldades - para pagar mensalmente uma creche, às vezes durante 12 meses por ano, e pelo menos durante três anos e meio a quatro anos, até que a criança seja admitida no pré-escolar, e depois considera-se que 871,52€/ano, com todas as facilidades que existem para parcelar o pagamento, bolsas de estudo, etc., pode ser impeditiva ao acesso Ensino Superior... a sério?

A sério que o Estado que nos governa considera que é mais importante interceder junto das famílias com filhos com idade de ingressar no Ensino Superior (e consequentemente de trabalhar, ainda que em part-time), do que junto das famílias que têm um, dois, mais filhos em amas (por vezes não credenciadas), creches ou familiares, e que, por limitações de idade, evidentemente não podem trabalhar? E numa situação de obrigação de entregar a criança aos cuidados de alguém, porque urge trabalhar e fazer face às mil e uma despesas de se ter um pirralho a crescer mais um número de pé a cada seis meses, enquanto ingressar no Ensino Superior é opcional?

Segunda questão: A propina de 1 000,00€, ou a atual, é castradora do acesso ao Ensino Superior em que medida? Por um lado, se o agregado familiar não consegue pagar a propina, a Ação Social existe para isso mesmo. Isto traduz-se em que, para um aluno sem fundos, tanto faz que a propina seja 2 500,00€ ou 500,00€: o estado vai custeá-la à mesma. Para um aluno com fundos, daqueles que não precisam de requerer bolsa, que chegam à faculdade em viatura própria, ou que têm computadores que custaram 4 cifras, ou que pediram créditos para passearem o novo iPhone XXX (aqui o xxx remete para a pornografia do custo desses equipamamentos), um desconto como o que foi dado nas propinas este ano significa menos um par de Air Max.

Estas borlas, estes descontos indiscriminados, não serão uma corda ao pescoço das nossas finanças? Não deveriam ser os utilizadores do Ensino Superior, os que optam por isso, a pagá-lo? Porque é que o povo faz uma ovação de pé a este tipo de resolução? O vosso filho vai estar 3 anos no Ensino Superior, com um desconto de meia dúzia de euros... Mas vocês vão pagar todos os anos, daqui por diante, os cursos de todos os meninos, ricos e pobres, porque os Professores, as infra-estruturas, os equipamentos de sala, as impressoras e tudo aquilo que se encontra à disposição na Universidade, não são de graça. Por muito que o governo diga que os "oferece", somos nós quem o paga. Sim, porque não há como acreditar que a gorjeta que os alunos pagam às entidades de ensino cubram o seu custo para o sistema. E cada vez cobre menos.

Por último, comecei por dizer que acredito em mérito. Também acredito em sacrifício; não gosto de borlas. Não vejo dignidade na borla. Quando se falou em tornar o acesso aos museus gratuito para "jovens" até 30 anos, senti-me ofendida. Fiquei envergonhada por descobrir que o meu país acha que eu teria dificuldade em pagar 10,00€ para entrar num monumento nacional, se quisesse fazê-lo. Assume que estou desempregada, ou em situação de precariedade. A sério que é essa imagem que Portugal tem do futuro dos seus jovens? "Deixa-me cá oferecer porque os desgraçados tão depressa não conseguem pagar"?

A meu ver, o Estado tem de estar disponível para aliviar os contribuintes sempre que possível, bem como para responsabilizar os utilizadores pelo serviço que lhes presta na Educação opcional. Dizer que é gratuito é bonito, mas não há almoços grátis. A fatura do gratuito é paga por todos, chega-nos nos impostos (diretos e indiretos), ou na bancarrota e nos pedidos de ajuda ao FMI. 

Porque não sanar as feridas crónicas da nossa Economia mantendo-a consciente e, ainda que não rentável, pelo menos o mais próxima possível de autossustentável? Um aluno que não tem como pagar a Universidade, beneficia do devido apoio, e é urgente que o Estado preste esse apoio a quem realmente precisa. Com tanta borla, haverá possibilidade de ajudar os cerca de 60 000 estudantes deslocados por ano, ao custo a que as rendas/quartos andam em Lisboa e Porto, principais polos? Não será isto prioritário? O nosso dinheiro, os nossos impostos, chegam para tudo? Isto não será uma esmola insignificante para manter o povo optimista, enquanto o deixam a braços com os verdadeiros desafios?

E porque é que as famílias portuguesas se agarram a essa mesma esmola com tanto afinco? Não seria importante abraçar o tal espírito de sacrifício, poupar no tabaco, no televisor de X polegadas, quem sabe escolher um mais pequeno, adquirir um telemóvel adequado aos seus meios, ir menos vezes beber copos para o café, deslocar-se menos de carro e dar uso à outra esmola, a do passe (benzádeus), e pagar condignamente os estudos do filho com orgulho, e não sentindo-se "explorado" porque o Ensino está caro? Que há de mais valioso do que a mentalização de que estudar é essencial, e de que é para aí que devem ser canalizados os recursos de uma família?

O dinheiro do Estado é como o das nossas casas: não dá para tudo. E, quando parece que dá, é porque a fatura do crédito está aí a chegar no fim do mês, e com juros.

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