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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

23
Mai20

1993


celiacloureiro

Em 1993 tinha três anos. Vivia na casa dos avós; um primeiro andar de vivenda com um quintal que me parecia infinito. Agora dou-me conta do privilégio que foi ter crescido com espaço. O quintal proporcionava, além de ar livre, banhos de mangueira, naufrágios de Barbies no tanque da roupa, missões secretas do Action Man, casas de tijolos e cassetes para as bonecas. Também cheguei a fazer fogueiras e a destruir panelas quando me dava para fazer sopa de urtigas e hortelã. Andava sempre descalça e com a avó a ameaçar-me com um chinelo que nunca chegava a cair-me no lombo.

É engraçado como as minhas memórias de infância são as que me surgem mais vívidas, muito mais do que as se seguiram na adolescência, ou as da última década como "jovem adulta". Qualquer momento que me recorde da infância está povoado de cheiros, de sensações, dos ecos das vozes e dos avisos da avó. Lembro-me exatamente a que é que sabia o azeite no fundo do prato, depois de ser torturada com pescada cozida, e de como adorava molhar pão nele. 

Mas este desabafo é sobretudo a propósito do Festival da Canção de 1993. Dou-me conta de que, nessa altura, não fazia ideia do que era o Festival da Canção. Além disso, não entendia nada da letra d'A Cidade (Até ser dia), mas gostava de como palavras como "noite", "sonho" e "magia" soavam na voz da cantora. Ainda assim, do último degrau da escada, esgoelava-me toda para o anfiteatro das traseiras dos prédios ao meu redor. Quando a avó ia fazer o jantar, e me chamava de mais um dia a escavaloar (como ela dizia), eu punha-me à porta de casa e reinava sobre o quintal na sombra, o gato molengão no telhado de zinco e as vizinhas que iam à janela gozar um momento de paz antes de acenderem os próprios fogões. E Jesus, se berrava!

Da cozinha, a avó dizia-me que eu era uma "cachondinha da Barreira", que estava a envergonhá-la, que qualquer dia as vizinhas iam bater à porta a mandar calar-me. A mim, tanto se me dava. Continuava a minha playlist diária. Ao longo dos anos, rodaram muitos hits por aquela escada. Com o tempo, a avó aprendeu a encolher os ombros e a dizer que eu não tinha mais que fazer. As vizinhas abordavam-na na rua e riam-se da miúda que começaram a chamar de "a cantora". Caraças, eu era mesmo pequena! Como é que não haviam de achar graça? Agora dói-me os ouvidos só de imaginar o espetáculo de uma miúda a embrulhar aquelas palavras todas na língua. De vez em quando, a avó ainda me mandava ir comer palha a Abrantes, ou suspirava que eu parecia a bruxa de Arruda, ali desgrenhada e descalça a cantar o mais alto que os meus pulmões e cordas vocais permitiam. Mas já estava conformada, coitada. Já sabia que quando o sol começasse a pôr-se havia espetáculo.

Primeiro A Cidade (até ser dia), depois a Chamar a Música, em '98 cantava Santamaria (Eu sei, tu és), e não posso jurar que não tenha feito algumas homenagens à Ágata a partir do meu palco. Também tenho vagas lembranças, que procuro reprimir, de fazer algumas coreografias naquela escada. Assim de repente salta-me o Iran Costa e as Las Ketchup à ideia. Ok, já tinha 12 anos quando esta última saiu, o que é idade para se ter juízo. Mas vejam que já havia uma longa carreira no showbizz a obrigar-me a afastar as cortinas da porta das traseiras e a dar àqueles vizinhos alguma coisa com que se entreterem ao fim do dia.

Jasus, que vergonha. E, ainda assim, quem me dera voltar àquela escada, a essa idade e a essa liberdade, a esse "que se foda", para poder gritar:

Queria dizer-te que estou a sofrer...

Eu já não posso mais...

Nós não somos iguais... IGUAIS

E o tempo foge de mim

Wooooooooooooowhoaaaaaaaaaa.

21
Mai20

Recomeçar


celiacloureiro

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Diria que vivi muito bem as primeiras quatro semanas de pandemia em confinamento. Com a facilidade de poder trabalhar a partir de casa, auto-isolei-me a 13 de março e só afrouxei as saídas a semana passada. Quando digo que afrouxei as saídas significa que me rendi à falta que os meus sobrinhos (alguns deles meus vizinhos) me fazia. A mais pequenina está com nove meses. Por sorte, ainda vim a tempo de viver este momento com ela: põe-se em pé, começou a gatinhar, mexe em tudo, empoleira-se em tudo, diz várias palavras. Está a tornar-se uma pessoa e, antes que se esquecesse de mim, dei-lhe colo de novo. Não o faço com leveza de espírito: acredito que o certo seria manter-nos afastados mais um pouco, irmos sorvendo do copo dos afetos gota a gota, em vez de nos embriagarmos com os cheiros e os abraços dos que nos fizeram falta.

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Mais ou menos a meio desse confinamento, durante o Estado de Emergência, via as ruas desertas da janela, sobretudo a partir das sete da tarde, quando todo o comércio essencial fechava lá em baixo, e perguntava-me porque é que as pessoas se debatiam tanto com a quarentena. Porque é que lhes fazia tanta falta estar em outro sítio que não em casa. Nesse ponto tive de entender que a minha casa é minha, que tenho uma ótima relação com as pessoas que a dividem comigo, e que sou a voz de autoridade nestes domínios. Resumindo: estive sempre numa posição privilegiada. Além disso, a minha casa é confortável, tenho computador, internet, inúmeros canais com filmes, séries (não ligo grande coisa, mas elas estão lá), e tenho a minha biblioteca pessoal com cerca de 177 livros por ler (segundo a prateleira do Goodreads). Também tenho aqui muitos dos meus livros favoritos de sempre, por isso não podia estar em melhor companhia.

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No início tive de trabalhar, embora o trabalho escasseasse. Trabalho em Turismo, que foi o primeiro sector a fechar e que será o último a abrir - tem de estar tudo harmonizado para voltar a ser seguro recebermos estrangeiros. Comecei a perguntar-me até quando as empresas iriam suportar esta sangria. Por uma decisão estratégica, essencial para a sobrevivência do núcleo em que trabalhava, o meu contrato não foi renovado. Significa que, desde dia 14, estou desempregada. Estou desempregada pela primeira vez nestes primeiros quase 10 anos de trabalho. Durante estes dez anos aprendi tudo o que sei, conheci inúmeras pessoas que hão de ficar para sempre, com quem ainda comunico e com quem me preocupo. Recebi carinho, compreensão, ouvi e dei conselhos. Agora, no escritório, ríamos, tomávamos café na copa, contávamos um ou outro episódio pessoal, trocávamos livros e oferecíamos boleias uns aos outros, sempre que possível. Almoçávamos juntos sem qualquer obrigação, falávamos dos desafios de casa, dos outros pessoais. Estávamos a tornar-nos uma família, e seremos uma família de novo quando isto acabar, se tudo correr bem. De repente tenho tempo. Mais do que não ter emprego, é ter tempo. Eu já considerava o tempo o mais valioso dos bens. E, por isso, urge decidir o que fazer com ele. Planeá-lo. Porém, por uma vez, posso dar-me ao luxo de não planear.

Dizia que não me debati com o isolamento até há pouco tempo, quando as saudades começaram a apertar. Via tanta gente desabafar, nas redes sociais, a vontade de ir aqui e ali... E eu feliz em casa. Feliz com tempo. Feliz isolada. Feliz com os meus livros e com a tranquilidade. Estava tudo tão quieto... Foi como se o mundo se entregasse a uma longa inspiração. E esse sossego fazia-me bem. Houve, no entanto, um dia em que me incomodou. Um dia em que me perguntei porque estava tão conformada com a castração da minha liberdade. Será que não havia um sítio no mundo onde eu gostasse de ir quando pudesse? Será que não sentia que estava a perder nada lá fora, sem ser o sorriso dos meus sobrinhos? Então prometi-me. E entendi: a livraria. A livraria cujo nome só hoje descobri. Entendi que era aí que gostava de ir, se pudesse. Prometi-me que iria, assim que voltasse a poder.

E hoje, na sequência de ter ido tratar de burocracias associadas ao fim do meu contrato, passei lá em seguida. Perdi lá imenso tempo. Percorri todas as estantes de literatura traduzida, descobri o canto dos russos. Dei-me conta de que agora já não posso folhear todos os livros que me chamam da prateleira, nem cheirá-los. Mas, ainda assim, a minha cabeça inclinou-se para um lado, depois para o outro, e pude ler os títulos, recordar os autores, as edições. No ar o cheiro era daquela amálgama de livros juntos, sem cheirar a nenhum tipo de papel em particular. E havia bancos velhos, postais, litografias, azulejos em caixinhas. Edições antiquíssimas, com ar de estarem prestes a desfazerem-se em pó se lhes tocássemos. E a luz do fim de tarde entrava nessa livraria no Chiado, e lá fora, junto à Brasileira, dois rapazes tocavam jazz e bossa nova. Um deles fazia voos melancólicos com o saxofone. E tudo foi tão perfeito. Ouvir algumas vozes lá fora, estar rodeada de livros, ser livre.

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Lisboa estava linda, hoje. Os jacarandás desabrocharam, a calçada está coberta das suas flores liláses. Há poucos carros a circular no Chiado, os semáforos estão fechados mas acabamos por atravessar. Decidi descer até ao Cais do Sodré, enfrentar a rua do Alecrim, descobrir o que é feito do Desassossego que pintava a fachada de um prédio em recuperação, quase no Largo do Duque da Terceira. Revi o Fernando Pessoa, o poeta Chiado, o Luís de Camões e, no Largo do Barão de Quintela, o Eça de Queiróz e a sua musa. Chegada à 24 de Julho, atravessei juntamente com meia dúzia de peões, cruzámos o vermelho porque não havia carros que justificassem esperar ao sol, e quando o elétrico passou, em direção a Belém, um dos homens a meu lado, de máscara, estendeu a mão e imprimiu-a entre a poeira que cobria o veículo. Ele passava e ele olhava, e tocava-o, como que incrédulo. O mundo real parece assustador, fascinante, inacreditável.

Apanhei o Cacilheiro das 19h, com uma brisa agradável a cruzar as janelas de um lado a outro. Estávamos todos sentados a uma certa distância dos outros. Todos usavam máscara. Aqui e ali alguém esfregava as mãos com álcool. E eu refleti sobre Lisboa, sobre o facto de antigamente estar povoada de estrangeiros, como uma torre de Babel, e de agora apenas ter escutado o português, tanto o europeu quanto o sul-americano. Uma vez chegada a Cacilhas, havia vendedeiras de ramos de espiga, e de morangos a um euro o quilo. Tinha os braços cheios, por isso não pude deter-me. Mas senti-lhes o perfume. Vi como o sol se derramava no Ginjal. Está tudo tão igual, embora tão despido de pessoas... Ao subir a rampa do cais para o terminal de transportes, dei por mim a ensaiar aquele passo de multidão, em que nos esforçamos por conter os passos, para evitar albaroar quem temos pela frente, e para garantir que não somos albarroados por quem nos segue. Aquele arrepio costumeiro de quem pode, a qualquer instante, sentir o ombro de outrem a roçar no seu, e um breve "desculpe", e a vida segue.

Senti uma paz enorme. A paz de que agora, finalmente, terei tempo. Para refletir. Para decidir o que quero fazer com o resto da minha vida. Para ter ideias. Para escrever. Para descansar e me curar. E pensei, com toda a naturalidade, que estava a ir para casa.

Agora sim, estava a ir para casa.

17
Mai20

Sacrifícios


celiacloureiro

O que se tem passado nos últimos dias, em que toda a gente adoptou a palavra "desconfinamento" como mote, tem sido vergonhoso. Mais do que isso, saber que a PSP foi recebida a tiro no bairro dos Machados, perto do Parque das Nações, quando fazia o seu trabalho de acabar com uma festa... Uma festa. Pena que eu não mande em nada, porque não seria tão branda. Não faria avisos, não seria contida nas medidas de coação. Abrir fogo contra a autoridade policial não seria desculpável, fosse como fosse. Mas ignoremos esta parte. Uma festa? As pessoas estavam a fazer uma festa? Quão estúpidos podem ser, e à centena, para estarem a fazer uma festa? 

Não tenho argumentos para explicar o impacto desta pandemia a nível mundial. Não haverá cálculo total de quantos perderam o emprego, quantos viram o seu negócio afundar-se, quantos estão apartados dos seus familiares, quantos idosos estão sozinhos a passar por isto. Há cálculo, sim, de quantos perderam vidas: são mais de 300 mil pessoas, pelo mundo inteiro. 300 mil pessoas. Mas não, a nós não há-de tocar. E, se ficarmos doentes, a culpa é da senhora do supermercado, que não deve ter desinfetado as mãos. A culpa é daquele meu amigo, que no dia em que veio jantar a minha casa tinha ido visitar o primo. A culpa é do Estado, porque disse que podíamos desconfinar. A culpa é da Linha Saúde 24, que quando começámos a ter sintomas demorou 6 horas a atender. A culpa é do Hospital, que não tinha ventiladores. E entretanto pegámos à avó, ao filho, ao tio asmático e à prima sem sistema imunitário. E a culpa nunca é nossa.

Somos um povo de irresponsáveis. Além disso, somos um povo de otimistas que se fiam na Virgem. Somos um povo que manda tudo fora depois de tantos quilómetros de estrada. Estamos fartos, não estamos habituados a imposições, a regras, nem tão pouco a recomendações. Sacrifício para nós começa no ter de ficar em casa - na nossa casa, com os nossos 170 canais, internet 4G/5G, frigorífico à disposição, a família - que deveríam ser as pessoas que mais amamos no mundo, mas afinal é intolerável ficar-se fechado com eles dois meses. É intolerável não podermos beber cerveja e fumar na rua. É intolerável que os nossos filhos não possam ver os avós, o virus a nós não há-de apanhar! A mim não há-de chegar! Ah, eu que sou o maior da minha aldeia.

Sacrifícios... sabem lá os Europeus o que é isso.

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