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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

31
Ago20

A questão da habitação digna


celiacloureiro

Quando o meu avô morreu em Abril, o contrato de arrendamento da casinha onde sempre viveu com os filhos expirou também. Era um contrato celebrado em 1975, e a senhoria há muito que torcia pela morte do meu avô para poder recuperar a casa. Tudo bem, é património que lhe pertence. O tio sairá, até Outubro. A odisseia de procurar casa é que tem sido muito amarga, e tem-me levado a muitas reflexões.

Em primeiro lugar, o meu tio tem 54 anos, a quarta classe, um emprego estável (embora apenas desde Maio, porque antes disso era cuidador do avô), e um salário diria que até bem simpático. Resumindo, o salário dele equivale ao que eu recebia ao fim de uns 5 anos a fazer uso da minha Licenciatura em Turismo. Não me parece nada mau para um homem nas suas circunstâncias, e é um emprego numa junta de freguesia onde têm manifestado apreciação pelo seu trabalho e intenções de o manter.

 

Dir-se-ia que tem as ferramentas certas para viver uma vida digna, com emprego digno e habitação digna, mas não. Não porque um T1 em Almada custa, no mínimo, uns 500,00€. Além disso, pedem referências do além, IRS, fiador, e sei lá mais o quê. Eu compreendo, porque ao longo dos últimos anos houve imenso investimento em imobiliário, as casas compraram-se, remodelaram-se e estão no mercado de arrendamento que reflete todos esses gastos, os impostos e ainda o lucro (mais ou menos) pretendido com o negócio. Mas a maioria dos portugueses – creio eu -, não tem como viver nessas condições. Há um T0 a arrendar em Almada Velha (onde os carros mal circulam e a cada duas casas há uma em ruínas cheia de bicharada) a 850,00€, "totalmente remodelado". Uff!

O mais chocante para mim tem sido a questão dos quartos alugados. Toda a gente aluga um quarto, a preços astronómicos, sem recibo, a exigir todo o tipo de papeladas, e nas circunstâncias mais absurdas.

Vi um “excelente quarto” a 500,00€ em Almada, e fiquei estupefacta. Até “referências” da pessoa eram exigidas. Vi quartos de toda a espécie, inclusive quartos partilhados – quem não adoraria pagar 250,00€ por uma cama de beliche e dividir o quarto com outras três pessoas? Hoje vi um quarto a 190,00€, mas dizia “partilhado”. Quando fui ver as fotografias, cheguei à conclusão que, se a pessoa tiver mau dormir, acaba na cama com o parceiro de indignidade imposta.

190 por cama.png

Falei ao telefone com inúmeras pessoas, todas elas com quartos para alugar em casas onde não habitam, e que desejam inquilinos sem animais, que não fumem, que tenham trabalho fixo ou que sejam estudantes, de preferência jovens e mulheres. Há um quarto a duas ruas de mim por 230,00€, pareceu-me o ideal porque o tio sempre viveu aqui. O senhor nem se dignou a responder-me. Outro, com um quarto na mesma localização a 250,00€, diz que só quer aceitar estudantes, prefere esperar. “É outro tipo de vida, sabe?”. É, acho que sei. E o que resta para um homem de 54 anos, com um salário razoável para este país de gorjetas, sem habitação própria?

Há dois dias fui visitar um sítio onde ninguém merece viver, e fiquei horrorizada. Trata-se de um bairro social ainda no concelho de Almada, mas noutra freguesia. Está a quatro ou cinco paragens de metro da minha porta (centro de Almada) e é um mundo à parte. A senhora era muito simpática, tinha uma voz doce e é conhecida de uma amiga da minha mãe. Enfim, não estava a lidar com uma estranha. Falaram em 180,00€ para o quarto, com tudo incluído, porque se tratava de uma casa num bairro social. Perdoem-me por, apenas aos 30 anos, descobrir o que é um bairro social.

A minha conclusão é que, quando se trata as pessoas como animais, algumas delas transformam-se mesmo em animais. Por favor, não interpretem mal a minha frase. Eu dirigi-me a casa de uma angolana com dificuldades que teve direito a habitação social, que trabalha e que já passou por muito. Eu é que nunca podia sonhar que o Estado atirasse pessoas para aquela realidade.

Por toda a parte se via muçulmanos, negros, pessoas de etnia cigana. Um mundo à parte, como vos digo. Não tenho absolutamente nada contra aquelas pessoas, e o que por vezes as possa tornar degenerados não é a sua cor, etnia ou religião, mas a segregação a que os vi ali expostos. Tive algum medo – porque senti que estava em terra de sobreviventes, e a sobrevivência por vezes toma diversas caras. Eu morei a algumas ruas dali, quando tinha 18 anos. E, uma vez mais, era outro mundo. Era uma área tranquila, com um jardim público muito sujo, isso é verdade, e com um supermercado frequentado por toda essa multiculturalidade de pessoas, mas até tinha um espírito bairrista. Dávamo-nos todos bem, a minha mãe é negra e tem amigos de todas as cores e etnias. Éramos uma parte tranquila daquela freguesia, por muito que as histórias más nos chegassem de perto.

Naquele bairro social, os prédios não têm porta. Pensar-se-ia que, se os prédios precisam de porta, ali precisam mais do que em qualquer outro lado. Havia lixo cá em baixo – pó, penas, plástico enrolado, garrafas, latas. Dentro do prédio, não fora. As paredes, outrora brancas, estavam todas amareladas, escavacadas, grafitadas. Vi mensagens de cariz xenófobo, racista, preconceituoso em geral nas portas, nas paredes, nas caixas de luz e gás. Por toda a parte graffitis, barulho, roupa estendida, tinta lascada, sujidade em geral. Subi as escadas (um prédio de uns seis andares sem elevador) de coração nas mãos. Como é possível que a senhora simpática viva ali? Como é possível que o Estado a tenha mandado para ali?

A senhora simpática abriu-me a porta. A casa cheirava bem, era ampla. Mas pobre, tão pobre! Tão maltratada… Cheia de remendos… levou-me ao quarto e eu senti que estava dentro de um filme. Daqueles sobre as misérias da América do Sul, ou daqueles sobre a Europa durante os anos de barbárie nazi. Uma miséria indescritível. O chão de tacos, irregulares, estava cheio de manchas e não vê cera há décadas. O roupeiro era barato e desengonçado. A cama era daquelas de pinho barato, mas já com história, e tão estreita que um homem adulto mal caberia lá. Um lençol preso por molas coloridas fazia as vezes de cortinado. A televisão (minúscula e antiga) estava pousada sobre dois tocos de madeira. A cama estava primorosamente feita, com lençóis limpos, e eu sentei-me nela acompanhada pela senhora simpática. A senhora simpática é muito bonita, muito doce de modos, muito cuidada. Unhas e cabelo perfeitos, e eu olhava-a recortada contra a parede atrás, suja, descascada, crivada de buracos, torta. Ela disse-me que queria pintar o quarto, queria torná-lo mais confortável. Aceitou tudo o que lhe perguntei: “o tio poderia pôr um pequeno frigorífico no quarto?”. Foi um amor, e comunicou-me que o preço não era 180,00€, que a amiga se tinha precipitado. O preço era 250,00€ mas podia aceitar um pouco menos. 230, talvez? Ficou 230,00€.

Ficou 230,00€ mas, ao sair daquela casa, ao chegar cá fora para tentar respirar, ao deparar-me de novo com aquela rua, aquele lixo, aquela fachada em ruínas, as pessoas à janela, tantos rostos diferentes, todos desconfiados – todos uma ameaça para mim – lamentei, lamentei que tenha sentido desse modo. Lamentei, acima de tudo, que aquela mulher esteja a viver de uma habitação que eu e o meu tio pagamos com os nossos descontos, e que esteja a alugar um quarto a um valor talvez 500% acima daquilo que paga de renda num sítio onde ninguém – absolutamente ninguém – muito menos crianças! – deveria ter de viver.

Vim para casa a sentir-me horrível. Como recusar o quarto sem a ofender? Como dizer-lhe que o meu tio não pode morar num sítio desses? Que uma pessoa que toda a vida viveu numa rua limpa em Almada, com hortas e jardins cheios de flores, não consegue viver naquele sítio onde tantas vezes nem a língua que é falada se compreende? Como dizer-lhe que, na minha sensibilidade, acho que daria um tiro na cabeça ao fim de uma semana ali? Que, quando o quarto me fosse insuportável, os barulhos insuportáveis, a sujidade insuportável, não teria como fugir para a rua para respirar ar puro, porque na rua há pessoas a vender droga? Na rua há pessoas a assaltar outras (a minha amiga e a sua mãe foram assaltadas ali, embora vivessem na parte “segura” da mesma freguesia). Um ambiente assim leva ao desespero, ao crime, ao suicídio, ao abandono escolar, aos antidepressivos, aos homens a tornarem-se bestas para sobreviver. Porquê? Porquê que se permite que alguém viva assim?

E o meu tio, que será feito dele neste contexto de ganância, de irrealidade, de miséria anunciada para todos? Encontrará um quarto digno? Irá viver para debaixo da ponte? Portugal, para onde vais assim tão desgovernado?

10
Ago20

O velho e o cão


celiacloureiro

Enquanto lia "A Morte de um Apicultor", que não é um livro que me tenha apaixonado por aí além, vieram-me vários pensamentos à ideia. Quando o livro é vago nas mensagens, o cérebro põe-se a divagar para procurar significados mais profundos naquilo que vê impresso. Não me saía uma imagem da idade: a do senhor A., tolhido pelo Parkinson, no pátio da sua casa, com o focinho da cadela entre as mãos. Pedia-lhe perdão por não ter podido passeá-la nesse dia, e pedia-lhe também perdão por saber que no dia seguinte estaria ausente e também não poderia levá-la a esticar as pernas. A Luna, como qualquer cão fiel, sacudiu a cauda e olhou-o com adoração. Mas a cena ficou-me: o senhor A. desiquilibra-se constantemente, e sente necessidade de pedir perdão ao cão por não poder passeá-lo. Eu pensava nisso, e também tentava discernir o nome das árvores ao meu redor, que começaram a derramar a folhagem sobre o Dão. Passei o dia com os pés descalços sobre os blocos de granito, a equilibrar-me no topo da levada e a atirar seixos lisos sobre a superfície das águas. O máximo que consegui foram quatro pulos antes de a pedra se afundar. Há tanta paz aqui... Porém, a data de regresso está estipulada. Com ela, a necessidade de procurar rumos mais definitivos. 

Fomos passear a Luna. Levámo-la pela estrada principal, passámos por roseiras, pereiras, figueiras, laranjeiras, limoeiros, macieiras. Há árvores de tudo nesta terra, uma riqueza nunca vista. O meu sobrinho diz que, quando crescer, quer uma casa com horta para não ter de comprar legumes nem fruta. E, a guardá-la, um husky, um pitbull e um rottweiler. Pergunta-me qual é o cão mais inteligente, e eu digo-lhe que é o rafeiro. 

Tento ensinar-lhe a ser bom, que força não é sinónimo de brusquidão. Ele é um miúdo sensível, que está quase (quase) a abandonar a infância. Em breve vai inibir-se perante a ideia de se ajoelhar para acariciar um cão. Em breve os sentimentos vão ficar ainda mais fechados dentro dele, e os motivos das suas lágrimas, dos seus desgostos, ficarão encerrados nele sem que ninguém lhes tenha acesso.

Hoje, no café, perguntaram-me "Trinta e quantos?".

Caramba, será que, de repente, já aparento ter os 30?

Tempo maldito, sempre a voar, sempre a mastigar-nos.

09
Ago20

As amoras


celiacloureiro

A casa tem três andares. Estava deitada no último, sobre a cama de ferro. Duas das três janelas estão abertas e as cortinas quase translúcidas filtram o sol do fim de tarde. No segundo andar, alguém tomava duche e os vapores chegavam-me perfumados. Procurava a poesia que havia em mim: o jeito de observar as coisas ao meu redor, de me importar o suficiente para registá-las. Mas estou sempre cansada. Continuo a estar sempre cansada e a dormir demasiado. Pouco depois de acordar, já tinha sono. Pouco depois de almoço, tinha sono de novo. E, assim que regressei do rio, vi-me de novo sonolenta. Dormi tão bem, esta noite, que nem ouvi as crianças brincarem a jogos de mímica até tarde. Dizem que se riram, debitaram detalhes da brincadeira, mas eu não ouvi nada.

Quando vim dormir a minha sesta, disseram “vamos às amoras”, e partiram. Usaram uns chapéus de pescador que encontraram ao lado da porta, percorreram toda a aldeia até ao cemitério e debruçaram-se da ribanceira escudada de arbustos de amoras. Colheram-nas na palma das mãos, comeram-nas quentes e por lavar. Estão felizes. O mundo está a abrir-se para eles. Ontem, o R. escondeu-se de um menino francês atrás de umas bilhas de gás. O L. procurou-o para trás e para diante na rua, sem o encontrar. O francês perguntou algo ao pai, quando os dois foram apresentados. Depois disse-nos “esconde”. É a única palavra que sabe dizer em português, mas bastou.

A A. esfolou o joelho no rio, hoje. A dada altura, ela competia em velocidade, braçada após braçada, com uma menina aqui das redondezas. O R. juntava-se a dois meninos e procuravam seixos na beira da água. Sentada num bloco de granito, com o Dão aos pés, lia “A Morte de um Apicultor”, meio desligada do enredo, e meio deslumbrada pela beleza de algumas asserções.

Estou a gostar muito daqui. É a primeira vez que me vejo a sós com a gente da terra. Aprende-se imenso com os mais velhos. O senhor A., tolhido pelo Parkinson, percorre quilómetros todos os dias apoiado no seu cajado. Não o faz por necessidade: fá-lo porque lhe é intolerável estar parado. Conhece a minha cidade como a palma da mão, mas já não a pisa desde os anos 70. Significa que veio o metro de superfície e lhe alterou o rosto, mas não as nomenclaturas. O senhor A. contou que, em 1973, era cabo e foi instruído a trazer um prisioneiro de Viseu à Trafaria. O prisioneiro já tinha fugido várias vezes da cadeia em Viseu, era jovem e esperto. Na companhia de dois guardas, e de um motorista, o senhor A. viu-se na incumbência de o levar para o novo cárcere, sob ameaça de punição caso o deixasse fugir. As ordens foram as de o abater, caso tentasse fugir. O senhor A. não recebeu sequer um par de algemas para o manter imóvel, então, este senhor doce que só queria saúde para gozar a velhice, disse-nos como resolveu o quebra-cabeças: tirou os botões das calças do prisioneiro, tirou-lhe o cinto para garantir que, se tentasse fugir, as calças haviam de o atrapalhar. Por último, carregou a própria arma e mandou os outros guardas repetirem o gesto diante do prisioneiro, de modo a que este soubesse que não hesitariam em atirar. E assim se fez a travessia, sem gracinhas por parte do preso.

A história emocionou-me.

É interessante estar num local onde tanta gente conheceu a minha avó. Ela partiu, mas assim é como se estivesse mais perto dela. Hoje mesmo as senhoras da Associação Cultural do Vale do Dão montaram uma barraquinha no largo à nossa porta, a vender iguarias caseiras. Bola de carnes, pão, rissóis, pastéis de bacalhau, bolo mármore e bolo de chocolate e nozes. Quando fui aviar-me, uma delas reconheceu-me como neta da dona N., e disse que a avó era muito boazinha, e muito calma. Sinto-me em casa, aqui. As pessoas conhecem-se todas umas às outras - conhecem a minha família, lembram-se de mim em pequena. É como se não existisse só a pessoa que sou na minha cidade, mas há outra aqui. Outra que, ontem, pôde falar italiano no café, e a quem perguntaram se não se veria nesta vida, porque falta insuflar vida nova no interior - vida que tenha estudado, que acrescente valor, que arranque as aldeias a esta letargia. Há um sentido de comunidade e de entreajuda muito forte. A beleza da paisagem é inspiradora: mesmo quando o tempo está nublado é difícil considerar que haja alguém a sofrer no mundo. Mas há. Isto é um refúgio do mundo lá fora e creio que, se não fossem as minhas irmãs, seria uma opção séria a considerar.

Porque devo sacrificar a minha liberdade, a minha sanidade, para viver a vida que é esperada de mim? Knut Hamsun, Lars Gustafsson e Júlio Dinis acreditam nos poderes regeneradores do campo, da vida rural, da proximidade à natureza. E eu sinto-me tão sufocada na cidade… É como se o meu coração fosse verde, e os meus olhos só exultem perante o dourado do sol a pôr-se nas serras.

Esta pausa a que a vida me obrigou, não será antes uma oportunidade de repensar o que quero para o meu futuro mas, acima de tudo, o que desejo para o meu quotidiano?

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