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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

05
Nov20

2020 - O essencial são os outros


celiacloureiro

2020 tem sido um dos anos mais conturbados da vida de toda a gente. Acontece de tudo, desde perder o emprego, até cair um frigorífico em cima do tio. Os dadaístas não teriam conseguido inventar um ano assim. Um ano em que de repente é evidente o que é essencial e o que é acessório. No fim das contas, o que se conclui é que o essencial são os outros. Mas os outros, quando autênticos, não vão a lado nenhum. 

Desde ontem que ando a remoer neste texto. Tudo começou quando a minha irmã parou diante da mesa onde estava sentada ao computador e me perguntou que champô ando a usar agora, porque o meu cabelo anda ótimo. Ora bem...

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- Em 2020 o meu champô é da marca do Pingo Doce, custa tipo 1,69€ e, ao que parece, o cabelo nunca esteve tão bom.

- Em 2020 o meu gel de banho é o carote d'Aveia, porque a psoríase tem estado péssima por causa dos excessos de gulosices;

- Em 2020 a psoríase esteve ótima, porque fiz imensas semanas de praia;

- 2020 foi o ano que mais fui à praia na vida;

- Em 2020 a Relógio d'Água publicou E Tudo o Vento Levou;

- 2020 foi o ano em que um contrato meu acabou sem ser renovado - o Turismo está hibernado - e descobri o que é ser desempregada;

- 2020 levou-me à inscrição no IEFP, e a sentir pela primeira vez o que é estar sentado em casa com o Estado a chover-nos dinheiro em cima;

- Em 2020 fiz imenso yoga;

- Em 2020 fiquei completamente sedentária e nunca tive dores de costas tão más;

- Em 2020, as dores de costas deram-me as piores enxaquecas da minha vida;

- Em 2020 tenho 30 anos e quero fazer um piercing no nariz - será que faço?

- Em 2020 cortei imenso o cabelo - que se lixe, não passa disso mesmo;

- Em 2020 não fiz a ecografia mamária semestral;

- Em 2020 fiz o rastreio do cancro do colo do útero e fui chamada num ápice para uma consulta que foi agora adiada por tempo indeterminado;

- Em 2020 cancelei o seguro de saúde e marquei uma consulta no público, à qual compareci uma semana depois;

- Em 2020 devia largar os anti-depressivos, mas vou continuar;

- Em 2020 li Guerra e Paz e li imensos outros livros;

- Em 2020 estive praticamente um mês de férias na aldeia da minha avó, a gozar aquilo que a vida tem de melhor: tempo;

- Em 2020 aventurei-me em novos troços do Dão a nado;

- Em 2020 colhi morangos;

- Em 2020 conheci um cabrito chamado Tiago;

- Em 2020 conheci imensa gente boa, gente nova, conheci as  suas histórias, aprofundei relações, recebi imensos presentes e dei outros tantos (o bacalhau com natas da Tété, os bombons, o bolinho de aniversário da Tété, mais bombons, o paninho de cozinha bordado em redor);

- Em 2020 comprei uma Bimby - depois de anos a dizer que aquilo é para quem não sabe cozinhar, comprovei que mesmo alguém que pouco saiba de cozinha, como eu, pode virar um chef de culinária;

- Em 2020 converti-me às marcas brancas e, com elas, aprendi a gerir uma vida digna e com o mesmo nível de qualidade anterior com quase metade do meu salário de 2019;

- Em 2020 acertei os contratos de serviços para o essencial, apaguei mais vezes a luz e fechei mais vezes a torneira enquanto lavava os dentes;

- Em 2020 comecei a comprar apenas roupa em segunda mão, e a essencial;

- Em 2020 tive mais tempo para reciclar e para plantar salsa e manjericão (vão florescer?);

- Em 2020 comprei uma hera e outras plantas para alegrar a casa;

- Em 2020 ajudei uma gatinha bebé, esfomeada, a ser salva de uma vida de parideira na aldeia e a ir viver com conforto na capital;

- Em 2020 fui para aí 6 vezes a um centro comercial (definitivamente menos de 10 vezes) e não tive saudades nenhumas;

- Em 2020 comi menos em restaurantes e mais em casa;

- Em 2020 entreguei o carro e percebi que os Ubers, Bolts e MTS desta vida funcionam às mil maravilhas;

- Em 2020 o meu tio de 54 anos, desempregado crónico, recomeçou a vida do zero - com alguma roupa e um emprego novo, está de pé e provou que podemos recomeçar em qualquer altura, basta estar-se vivo;

- Em 2020 o meu avô morreu e ainda não fui ao cemitério;

- Em 2020 a Rafaela começou a andar e a passar as mãos em todas as superfícies, e ando atrás dela a dizer "não, está porco" ou "não, pode ter covid";

- Em 2020 vi os portugueses nos transportes todos de máscara, e nem a minha imaginação tinha previsto tal coisa;

- Em 2020 fechei para sempre a porta da casa onde cresci, resgatando dela apenas a casa de bonecas de madeira que o meu pai fez com as próprias mãos;

- Em 2020 aprendi a desapegar-me ainda mais de consumismo, de marcas e de objetos;

- Em 2020 fiz mais companhia às gatas;

- Em 2020 descobri que os vizinhos com menos dinheiro, ou que perderam o emprego, são os que pagam a senhora da limpeza do prédio (minha mãe) com mais celeridade;

- Em 2020 as minhas melhores amigas instalaram-se a preceito nas suas novas casinhas;

- Em 2020 uma grande amiga licenciou-se;

- Em 2020 o meu tio levou com um frigorífico no peito no trabalho - rimos imenso, quando regressou do Hospital a dizer que queria ir trabalhar no dia seguinte;

- Em 2020 renegociei o contrato com a NOS e os tipos melhoraram os serviços e baixaram a prestação;

- Em 2020 fui a imensas entrevistas de emprego para entender duas coisas sobre o mundo do trabalho: a primeira é que não temos de ficar cingidos a uma área específica, e que temos mil e um outros contributos a dar noutras áreas, a outra é que os pattrões portugueses pagam uma miséria aos empregados, e muitos são autênticos sanguessugas. Porque é que os funcionários aceitam? Outros patrões aproveitaram o covid para fazer os empregados trabalharem full-time em layoff, quando continuavam a faturar normalmente. Descobri um caso em que a funcionária trabalha 6 dias por semana (48 horas) por um salário mínimo sem subsídios ou outros apoios, pago em mãos, e outro em que o funcionário trabalha 40 horas por semana, pelo salário mínimo, há 18 meses e sem férias nem subsídios. Ainda lhe disseram (é estrangeiro) que em Portugal pode ser despedido por faltar uma tarde para ir ao médico, ainda que traga justificação. E essas pessoas são donas de grandes grupos de pastelarias ou de restaurantes da moda, desses que vemos os amigos postarem fotos com hashtag no instagram em torno de salas bonitas e trendy;

- Em 2020 decidi que não quero ter filhos;

- Em 2020 quis ter filhos porque pareceu-me a altura ideal;

- Em 2020 percebi que vivo numa cidade ótima, numa localização ótima e com conforto, e que ia ficar fechada nesse refúgio com pessoas que amo, o tempo que fosse;

- Em 2020 conheci melhor o meu sobrinho durante as férias, e o amor multiplicou-se;

- Em 2020 comi Pho pela primeira vez (o desejo de um dia ir ao Vietname);

- Em 2020 voltei a cozinhar goulash (a viagem à Hungria e a vida que se tem gozado desse modo);

- Em 2020 comecei a cozinhar para o meu tio, cujos colegas de trabalho pedem para provar o Goulash e a sopa vietnamita que leva para o trabalho (chupem, o covid não deixa essas proximidades!);

- Em 2020 comecei a ir ao supermercado da minha rua e à mercearia da minha rua (esta semana, quando uma velhota levou o meu saco, foi-me assegurado que o devolveria, e assim foi) - vivo numa aldeia, embora cheia de serviços;

- Em 2020 comecei a comprar livros em segunda mão e agora custa-me muito comprá-los novos ao PVP costumeiro ou mesmo com 10% de desconto;

- Em 2020 fui a uma festa: a Feira do Livro;

- Em 2020 retomei relações antigas em torno de mesas intimistas, na casa dos amigos, com o cheiro deles e os objetos deles;

- Em 2020 percebi que estamos todos mesmo muito ligados uns aos outros;

- Em 2020 nasceram bebés sozinhos com as suas mães, e morreram pessoas sozinhas com os seus médicos;

- Em 2020 tenho tempo;

- Em 2020 perdi imenso peso;

- Em 2020 ganhei imenso peso;

- Em 2020 não fiz a limpeza de dentes semestral;

- Em 2020 ensinei a Rafaela a lavar os dentes;

- Em 2020 tentei aprender russo (agora sei ler em russo, embora não saiba o que as palavras significam);

- Em 2020 mantive contato com amigos de outras partes do mundo;

- Em 2020 ainda não sei se os amigos vão poder vir para soprar as velas;

- Em 2020 ainda não sei se vou poder receber a família para o Natal;

- Em 2020 ainda não sei como convidar o casal nepalês meu amigo para o Natal;

- Em 2020 o meu arroz doce é finalmente bom (Bimby linda);

- Em 2020 desenvolvi a ideia para um projeto em torno de livros;

- Em 2020 aprendi a amar de modo saudável;

- Em 2020 aprendi que o que vale no amor é aquele momento em que estamos com a cabeça no ombro da outra pessoa e sentimos o peito estremecer-lhe de gargalhadas por causa de alguma coisa que dissémos;

- Em 2020 o amor é universal;

- Em 2020 a internet mantém-nos todos ligados;

- Em 2020 a futilidade e a imagem perderam relevância - e os influencers afinal não servem para nada.

E podia continuar para sempre.

Mas fico-me por aqui, porque, e de modos inespesperados, e às vezes arrepiantes, está a ser um ano... wow. Inesquecível.

 

 

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