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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

06
Set22

Setembro


celiacloureiro

Li algures que somos a geração que mais trabalha. Não me espanta. O que me espanta - e não sei se temos tempo para o analisar -, é que trabalhemos por status, por conforto, por vício. Vivemos num estado de alimento garantido. De privilégio constante. Vivemos de pequenos luxos, e não conseguimos imaginar o dia-a-dia sem eles. Ir de carro para o trabalho. Refeições fora. Um certo coleccionismo - no meu caso, de livros. Mais olhos do que barriga sobre quase tudo, quase sempre.

De repente, tenho muito pouco tempo livre. Estou sempre cansada. Por um lado, trabalho a partir de de casa. Às vezes, dou por mim a trabalhar fora de horas, só porque sei que a tarefa tem de ser concluída, e já não há a barreira dos transportes, das horas, do anoitecer lá fora e da chuva no caminho a impedir-me de a concluir. Depois, lembro-me que tudo é um bater de asas de borboleta, e que o efeito dominó faz com que por consequência fique cansada, desinspirada, e me deite mais cedo para recomeçar tudo igual no dia seguinte.

Também continuo a traduzir livros. É preciso uma cabeça limpa e ideias coerentes para rever ou traduzir um livro. Se falhar nessa tarefa, vou ficar mesmo muito desiludida comigo mesma. Creio que, um dia, é aos livros que hei de ir buscar o meu sustento. E não me refiro à escrita. Traduzi uma mão cheia de livros em seis meses, mas, pelo motivo que mencionei no primeiro parágrafo, uma falha parece ter sempre mais peso do que uma tarefa concluída com louvor. Tenho medo de errar. Medo de que venha o cansaço e me atire por terra.

Tem-me apetecido escrever, mas não há tempo; não há vida. Há sempre algo que exige a minha presença noutro lugar. Ou uma atividade menos cansativa para concluir. 

Tenho tido cada vez menos tempo para pensar na vida. Na importância de attraversarla de olhos abertos. Atenta ao que vai acontecendo ao redor. Para ser. Para escutar o universo. Para me sentir mulher, viva, livre. . Olhando para trás, compreendo que não me conhecia muito bem. Achava que, por esta altura, teria uma vida igual à dos outros. Estaria casada e submergida pelas exigências da maternidade. Daqui a uns anos divorciava-me e voltava às amarguras da escrita, ao alívio destes desabafos. Não vi, de início, que sou feita de um material que se deixa ficar à parte, a observar, enquanto os outros vivem, triunfam e cometem erros. Acabo por julgar, por opiniar, e também por me emocionar até às lágrimas com a vida que corre como o rio para o mar, sem se deter, ao meu redor. E que não é a minha. Eu permaneço sobre uma rocha à beira do riacho, abraçada às pernas. Ora choro por nunca ter lugar na corrente, ora me dou por satisfeita por não andar à deriva por águas turvas. É mais fácil suportar os elementos a partir da margem. Em tempos, escrevi num romance algo a respeito de uma garça à beira-mar. Vem a espuma das ondas e salpica-lhe as asas. Mas a garça permanece.

Resta-me observar. Sonhar. Escrever. Viver, anestesiada, porque sentir é-me tantas vezes insuportável.

Chegou setembro. O meu mês favorito. Voltei a tomar chá e a calçar meias. Tenho um cão. Ainda consigo alinhavar algumas frases em tom literário quando me sinto inclinada a isso. Debato-me com as palavras, mas não ao ponto da exasperação. Coisas bonitas hão de chegar para mim, e todas elas cheiram a papel, a tinta e a tipografia. Livros, livros e mais livros.

Sem livros, que vida me restaria para viver?

Mood.

 

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