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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

17
Abr24

Marraquexe - Parte II


celiacloureiro

Ficámo-nos pelas tajines num terraço sobre a praça. Descobri que, se o menu apenas anunciasse "tajine de beauf", podem crer que não há acompanhamento. Fui obrigada a pedir um bocado de couscous para engolir aquele pedacinho de carne, por sinal bastante tenrinho. Será por isso que quase todos os marroquinos se saíam com um batata frita quando descobriam que éramos portuguesas? Será que outros portugueses percorreram o caminho antes de nós e, quando se levantava a tampinha de barro do tajine, ficavam a olhar para dois cubinhos de carne cheirosa e apetitosa rodeada de molho fumegante, mas nem um arroz, nem uma batatinha a acompanhar?

Enfim, saltemos das tajines para o dia seguinte, durante o qual descobrimos que nada sai como previsto em Marrocos. Para começar, saímos cedo até às lojas que estavam abertas ao longo das ruas sinuosas que envolvem a praça principal. Já não estavam os 37 graus do dia anterior, por isso pudémos respirar. Depois de passarmos por brincos, luminária, tapetes, marroquinarias, sabonetes e perfumes em barra com profusão, e de inalarmos o perfume da hortelã, do âmbar e do sândalo a cada esquina, confirmámos que são quase exclusivamente homens que trabalham em comércio, mas também nas oficinas de corte e costura de cortumes, que se viam para lá das portas entreabertas ao lado das lojas. Há muito menos mulheres a trabalhar. Por exemplo, nunca fomos servidas por mulheres em nenhuma refeição, apenas vi duas jovens na caixa de restaurantes, mas nunca entre as mesas. Vi mulheres a guardar casas de banho, a recolher o pagamento de parques de estacionamento e a cuidarem dos quartos no nosso hotel. Nunca vimos mulheres no comércio, nem atrás das barraquinhas que vendiam pastelaria local nem sumos espremidos na hora.

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Por volta das 11h30, decidimos tomar um pequeno-almoço tardio perto da praça principal, num restaurante com uma decoração muito bonita, de nome Taj (havia vários com esse nome). Pedimos um menu de pequeno-almoço, que parecia bastante completo, com omolete, panquecas, pão tradicional, sumo natural e chá de menta, que nunca pode faltar, e também um sortido de doces locais. O total ficaria por cerca de 150 dirham. Quando a comida chegou - e o serviço foi bastante demorado em quase todos os restaurantes que frequentámos - perguntei-me pelos doces, mas assumi que seriam as tigelinhas com mel, doce de damasco e as panquecas com amlou, uma espécie de nutella marroquina, melhor ainda do que a original, segundo o meu gosto pessoal. Além disso, considerei que a espécie de legumes em marinada - cenouras, beringela, pepino (?) - como parte do menu do pequeno-almoço, de modo que começámos imediatamente a molhar o pão nos potes. A dada altura, aproxima-se o garçon para nos comunicar que trocou o sortido de doces por um sortido de saladas marroquinas, porque os "doces são para a sobremesa". Em suma, não mandamos em nada. Mas ríamo-nos porque fomos nesse espírito, deixámo-nos ir. Nunca me pareceu que estas mudanças fossem por maldade o ganância.

Passei a tarde a descansar no hotel, porque alguns dias antes da viagem tinhamos marcado um jantar no deserto de Agafay através da própria booking. Preferimos marcar tudo antecipadamente por uma questão de organização e gestão de custos. Ainda assim, e com o voucher impresso para nos virem buscar às 17h00 junto ao hotel, houve problema. Na madrugada anterior, recebi um "Hi" de um número marroquino no Whatsapp, que bloqueei ao acordar por ir ao encontro de outros "Hi" que recebo frequentemente de números da Nigéria e do Senegal e etc. Entretanto, estávamos no quarto de hotel e eram 16h00, com as jovens acabadas de chegar das compras no mercado a tomar banho e a perfumarem-se, quando decidi descer ao pátio inferior para apanhar um bocadinho de wi-fi. Comecei a ser bombardeada por chamadas e mensagens de Whatsapp da agência que organizava o tour, a dizer que, por ser Ramadão, teríamos de partir às 15h30 para apanhar o pôr do sol no deserto. Ora eu tinha fechado o tour e imprimido o voucher há nem uma semana, mas nem cheguei a enervar-me demasiado. Chamei as meninas e informei que estaria no local em 10 minutos, era o melhor que conseguia.

Fomos a correr debaixo do sol africano até à esquina onde era suposto irem apanhar-nos às 17h00, a perguntar-nos como era possível serem ainda 16h00 e já termos perdido a van. A dada altura, e perante a demora da guia - que não estava lá -, comecei a perguntar-me se não iria dar-se o caso de eles terem partido efetivamente às 15h30 e de estarem agora a voltar para trás por causa de nós. Disse-nos a agência, por Whatsapp, que eu tinha sido avisada, mas escolhi bloquear a guia. Enfim, situações. Confesso que estava animada por ser uma guia mulher, estimei que iria tratar-se de alguém com fibra. O meu pior receio confirmou-se: após quase meia hora de espera, para uma van do outro lado da avenida, apita e as pessoas põem-se a acenar-nos. Tinham, de facto, voltado para trás. Senti-me tão mortificada que subi para o veículo já com o telemóvel em riste, a dizer que o pick-up era às 17h00 perante os outros turistas. Claro que estavam lá as três portugueses trombudas e barulhentas do voo de ida, mas isso é a teoria que defendo no meu romance "Até os Comboios Andam aos Saltos". Se nos incompatibilizarmos com alguém, podem crer que havemos de nos cruzar muitas vezes.

A guia não gostou da nossa justificação, era uma jovem cheia de garra que me encostou logo ao canto e me disse que eu é que a tinha bloqueado. Ripostei em inglês que apenas o tinha feito por causa das fraudes com nigerianos e argelinos, e ela cortou-me com um:

"I don't care about you, you can leave if you want. People from Nigeria and Argelia are good people". Comi e calei, quem me manda generalizar? Gostei da atitude e prometi a mim mesma que, durante a viagem, iria pedir-lhe desculpa pelo meu nervosismo. Só não queria que todos nos detestassem na van por estarem prestes a perder o pôr do sol no deserto por culpa nossa. Como guia que fui, deveria saber que jamais se pode pôr um guia contra o grupo, o guia é o nosso principal aliado no tour, e esta acabou-se por se revelar isso mesmo.

As estradas não eram espetaculares e, logo à saída, vimos um motoqueiro no chão rodeado de outros motoqueiros, e não percebemos se estava vivo ou morto. Toda a gente anda de mota por ali, até casais com o bebé e o carrinho de passeio debaixo do braço, não me pareceu nada seguro, mas eles lá se orientam. Às vezes, eram aos quatros montados num motociclo.

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A primeira paragem foi numa cooperativa de óleo de argão. O nosso furgão - vou chamar-lhe assim, apesar de ter ar condicionado e de ser bastante confortável, por uma questão de comédia - parou junto a muitos outros absolutamente iguais. Fomos conduzidos para um jardim onde já havia várias mesas postas. Serviram-nos azeite marroquino - mais intenso do que o alentejano, adorei -, amlou e óleo de argão puro, que usam para temperar saladas (mas não para cozinhar). Molhámos o delicioso pão deles nos potinhos e pusémo-nos à conversa com duas italianas e duas amigas da Malásia. A minha irmã tinha lido A Guardiã do DestinoThe Rice Mother no original, sobre a invasão da Malásia pelo Japão, e estabeleu-se ali uma ponte para a nossa conversa. Eu também li esse livro, até a nossa avó leu esse livro, e foi muito especial estarmos ali, pessoas de mundos tão distantes, unidas sobre azeite marroquino em torno de um livro que li há 20 anos. Raios, foi mesmo. À saída, vimos as mulheres marroquinas a usarem uma espécie de mó para extrair o óleo do fruto da árvore do argão. Pareceu moroso, como tudo o que é tradicional e que usa o nosso suor como força motriz. Comprei um frasco de óleo de argão puro por 100 dirham e troquei algumas palavras com a guia. Pedi-lhe desculpa pela minha atitude e mostrei-lhe os "Hi" bloqueados no meu telemóvel, para ela entender a minha desconfiança. Disse-lhe que também trabalhei como guia e que admiro muito essa ocupação, sei como é cansativa. Com um sorriso e uma espécie de abraço, posicionámo-nos do mesmo lado.

À chegada ao deserto de Agafay - que os marroquinos dizem que não é o verdadeiro deserto, porque tem muitas pedras em vez de apenas areia e dunas - começámos a ver a poeira levantada pelas Moto 4. Um exército de Moto 4 logo à entrada mas, felizmente, à medida que avançávamos por estradas de terra batida, com nada que não aquela paisagem agreste à esquerda e montanhas distantes à direita, apercebemo-nos do isolamento em que estávamos a mergulhar. Bem no meio, havia uma espécie de acampamento montado, com tendas, almofadas, mesas postas com almofadas para nos sentarmos no chão, camelos acorrentados e um restaurante, casa de banho e até uma piscina. Havia também uma espécie de uma pira, um poço que me despertou curiosidade e que depois descobri que era o palco para o espetáculo - enfeitiçante - de fogo.

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Pediram-nos que guardássemos lugar - questão delicada, há muita ânsia por conseguir bom pouso para o seu grupo por parte dos guias, questão que levou a discussões acesas em que a nossa guia meteu os matulões a um canto - e depois a guia veio buscar-nos para irmos andar de camelo. Seguimos com o restante grupo - curiosamente, apenas não conseguimos conversar com as três portuguesas e um casal também português, que por vestir Lanidor nunca se dignou sequer a olhar na nossa direção. Paradas perante os camelos, o nosso coração de ocidentais começou a apertar-se. Não quero julgá-los, compreendo que quando se vive numa área sem nada mais a oferecer e sem bocas para alimentar, os camelos configurem uma fonte de rendimento aparentemente inofensiva. No entanto, não consegui participar naquele negócio. Havia camelos juvenis ou até mesmo bebés a seguir as mães, que iam acorrentadas. A dada altura, quando os camelos se baixaram para os turistas as montarem - incluindo das três amigas portuguesas e o casal que nunca mostrou os dentes - um deles soltou um urro que me destabilizou. Não cheguei a chorar nem a fazer nenhum tipo de discurso às pessoas que estavam comigo - nenhuma de nós quis ser cúmplice daquilo, nem nós as quatro, nem as italianas. Ficámos por ali a tirar fotos umas às outras, deixando os camelos na paz possível de quem percorre o mesmo caminho para a frente e para trás todos os dias, sabe-se lá quantas vezes por dia. Evoquei uma vez mais o "terror" que temos a camelos para não os montarmos e a guia não insistiu.

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Seguiu-se o jantar - o melhor couscous e tajine que comemos em Marraquexe, supostamente preparado por residentes locais. O que é certo é que a comida era verdadeiramente saborosa, e empurrámo-la para baixo com chá de menta. Seguiu-se um bolo de coco fofo e húmido que comemos já ao som da música berbere. A magia começou quando a noite caiu e as fogueiras se acenderam. Houve qualquer coisa de primitivo em ver pessoas a dançarem à volta da fogueira, ao ritmo daquela música hipnotizante e, em simultâneo, bastante animada. Pensei no meu próprio passado civilizacional, quantas vezes não se terão os homens e mulheres reunidos em redor de uma fogueira para cantar e dançar, porque não havia outro tipo de animação possível à noite, e era mais seguro estar-se junto diante das chamas, com as feras ao largo.

Voltámos para Marraquexe numa espécie de comboio de várias vans, a ouvir músicas internacionais. A alegria era tanta que concordámos em sair com as amigas da Malásia e a mãe e filha italianas, e pedimos para sermos todas deixadas junto à Medina. A partir daí, percorremos aquela que batizámos como "a rua dos ténis", porque era o paraíso da contrafação. Por toda a parte estavam expostos os modelos mais recentes de ténis de renome internacional, disponíveis por menos de 400 dirham. Um marroquino muito simpático quis acompanhar a italiana até um bar de shisha, e eu já imaginava que no final estaria à espera de uma gorjeta - outro aviso que ignorámos. Na verdade, penso que acabou por não levar nada - talvez uma comissão do bar para onde nos levou, visto que ficou a conversar com a recepcionista quando nos sentámos? Mas, se acham que pudémos fumar shisha, desenganem-se. Não havia shisha - consta que era preciso uma licença especial, como para o álcool. Não há nada na vida dos marroquinos/islâmicos que tenha qualquer ligação a álcool, Alá os abençoe. Não senti falta, mas vi o desespero sentado ao meu lado quando, ao terceiro bar experimentado, a única opção continuava a ser cerveja sem álcool. Bebi um cocktail sem álcool - Bora Bora -, absolutamente delicioso, principalmente no preço: 35 dirham (menos de 3,50€).

Conversámos sobre coisas de mulheres - amor e sexo, independência e oportunidades - à volta do globo. Trocámos contactos, tirámos uma fotografia todas juntas. Despedimo-nos com alegria e orgulho mútuo.

E assim terminou o segundo dia em Marrocos, cansadas mas felizes, uma vez mais seguras enquanto caminhávamos sozinhas pelas ruas escuras e cheias de animação - de cores, de brilhos, de vozes e de música - até ao nosso hotel na Medina.

10
Abr24

Marraquexe - Parte I


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Há muito que estava curiosa em relação a Marrocos. Sentia uma estranha proximidade para com o país cujas areias engoliu o nosso saudoso D. Sebastião, e a partir do qual nos chegou a civilização muçulmana em 711, com as laranjas e o zero. A viagem foi planeada um bocadinho em cima do joelho: decidimos que seria o presente ideal para celebrar o 18º aniversário da minha irmã. Cerca de mês e meio depois estávamos a embarcar, só mulheres, para o Norte de África. Permitam-me pensar assim  Norte de África, adoro a ideia de pisar o continente Africano.

Em Lisboa, tudo se passou com relativa tranquilidade, apesar de o voo sofrer um atraso de uma hora. Íamos com os vouchers dos transferes impressos, com os respetivos contactos das agências que iam fornecer os serviços, e sem grande conhecimento do que iríamos encontrar, à exceção dos comentários lidos no Reddit e de algumas trocas de informação com pessoas que já visitaram o destino e que diziam para não se comer nada cru nem dar muita conversa aos vendedores. Passei dias a treinar o meu La, shukran, porque supostamente um "não, obrigada" em arábico seria melhor acatado do que um simples "Non, merci". No entanto, como em tudo na vida, nada sai de acordo com o imaginado.

Deixem-me começar por dizer isto: Marraquexe é uma cidade altamente turística, portanto diria que segura. Sim, é possível experienciar um bocadinho da cultura muçulmana, especialmente nós, que fomos no período do Ramadão, sim, convém estar atentos e sim, há choques culturais e coisas que me custaram a digerir, mas nem por um instante me senti insegura. Nem quando me vi no meio de um jardim deserto com três miúdas e quatro ou cinco matulões de túnica ao nosso redor. Mas já lá vamos.

À chegada ao aeroporto de Menara, a fila para o controlo de passaportes foi demorada, ficámos por lá mais de uma hora de pé, com calor e cheias de sede. Como o voo já tinha partido com atraso, dei o transfer por perdido. No entanto, assim que me conectei à rede gratuita do aeroporto, recebi algumas mensagens de Whatsapp por parte da agência que ia realizar o transfer e do assistente que estava à nossa espera desde a hora esperada. Reservámos o transfer aqui e suponho que o serviço seja distribuído pelas agências parceiras. O motorista perguntou-nos quanto tempo ainda íamos demorar e esperou por nós até ao final. Em suma, deveríamos ter chegado às 08:15, hora local, e chegámos junto dele por volta das 11:00. Fomos conduzidas a uma carrinha com o logo da agência de viagens (HL Travel). Conversámos em inglês e francês sobre a cidade, a nossa futura estadia, o Cristiano Ronaldo. Todos os marroquinos e conhecem e quase todos torcem pelo Benfica. O motorista chegou mesmo a parar junto a um banco (há caixas ATM por toda a parte, mas as comissões são mais baixas nas dos bancos) para podermos levantar dinheiro. Deixou-nos junto à Medina, porque há muitas ruas intrasitáveis em Marraquexe, e pensei que seria um martírio dar com a rua do nosso pitoresco Hotel Salsabil, que pratica preços fixos pelos quartos e que tem triplos e duplos. Em menos de três minutos, tinhamos dado com o beco e estávamos ao balcão diante de um senhor com um sorriso muito dócil que, mais tarde, descobri chamar-se Said e ser um dos irmãos que cuidam do hotel. Deixou-nos fazer check-in de imediato e usar o quarto, facultou-nos a password do wifi e levou-nos para um terraço com bunganvílias e vista para a Medina, onde nos serviu thè à la menthe

Neste ponto já estava bastante relaxada, o contacto foi em tudo "ocidental", apesar de termos feito questão de nos apresentarmos com alguma modéstia (sem umbigos à mostra) e de termos visto imensa gente com trajes islâmicos pela janela do táxi. Por essa altura, também já era evidente que a palete de cores seria um "vermelho Marraquexe", uma variação mais diluída do vermelho de Pompeia, uma espécie de terracota que é a tela perfeita para a profusão de cores com que as ruas, pejadas de comerciantes, estão ornamentadas. Foi o dia mais quente, estavam cerca de 35 graus e o sol é de certa forma implacável naquela latitude.

Nesse dia, fiz uma curta visita às ruas do mercado que se estende em redor da praça Jemaa

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El Fna, a praça principal que tem o seu pico de atividade depois do pôr-do-sol e que cheira a hortelã. Vimos inúmeros produtos exóticos pela primeira vez, sentimos cheiros desconhecidos e fomo-nos apercebendo do ritmo das coisas. Em primeiro lugar, pouquíssimos preços são fixos ou estão afixados. Tudo é negociável, se estivermos dispostos a perder um bocado a regatear. Também ia com receio de parar para avaliar coisas só por curiosidade, porque tinha lido que iria materializar-se alguém ao meu lado para mas impingir. Acontece que muito pouca gente foi realmente insistente ao longo dos quatro dias. Só vivemos um episódio em que de facto o senhor tentou insistir e nos seguiu pela rua, mas não havia volta a dar: não íamos dar 200 dirham (c. de 18€) por 2 pulseiras que custam 3€ na Parfois. Não senti que, com isso, nos quisessem propriamente enganar. A minha mãe vendia nas feiras e sei como era importante ler os potenciais clientes e perceber quais os que estariam dispostos a apartar-se de uma boa quantia sem que isso lhes causasse moça enquanto, por outro lado, se cedia a um "preço de amigo" quando havia urgência em despachar a mercadoria ou contas inadiáveis a pagar. Para esse fim, basta evitar gritar Lindo! quando vemos algo de que gostamos, o que aumenta significativamente o valor do produto, e torcer o nariz quando a nossa amiga nos mostra os brincos que está a pensar comprar, o que resulta numa descida quase imediata do valor. A verdade é que uma de nós comprou um camelo miniatura de madeira por 50 dirham (c. de 4,60€), que noutro dia conseguimos arrebatar por 1 dirham (0,92€). Na mesma fileira de bancas, pediram-me 200 dirham por um artigo que comprámos mais adiante por 100. Por toda a parte, julguei tropeçar em sabonetes incrivelmente perfumados, mas depois descobri que são, na realidade, uma espécie de perfume sólido. Conseguimos obter cada por 80-100 dirham, e foi a única coisa do mar de quinquilharias que me entusiasmou realmente: o cheirinho intenso a âmbar e sândalo e jasmim e almíscar, bem como os chás de verbena, camomila, verde, hibisco.

Também foi evidente que a cidade vive de comércio e, para isso, os turistas são fundamentais. Fiquei com a impressão de que não seríamos de modo algum incomodadas, a bem de manter a fama de cordialidade e segurança. Por outro lado, o povo marroquino em si pareceu-me extremamente afável, acolhedor e inclusivamente atencioso, sem ser bajulador. Achei que há muita honra em regatear um preço e, depois de acordado, fornecer o troco exato sem mais deliberações. Por duas vezes vi-os abandonar a banca e correr pelo mercado com a nossa nota na mão, em busca de alguém que a trocasse, e nunca senti que "não voltaria a vê-la". Recebemos sorrisos, elogios a Portugal, sius e até um "É uma casa portuguesa, com certeza".

Nesse primeiro dia, enquanto me recolhi no frescor do quarto, as meninas foram até um hotel de 4* onde lhes foi dito que poderiam usar a piscina por 250 dirham cada. O nosso anfitrião telefonou para o balcão e regateou o preço, e acabaram por as deixar entrar por 200. A minha irmã ficou espantada (e francamente deliciada) por ter de discutir o preço da utilização da piscina de um hotel de 4*. Passaram o dia entre outros portugueses e espanhóis, de biquini, a tomar bebidas (sem álcool) ao sol.

O lado menos positivo foi o facto de realmente termos de estar atentas a cada pormenor do discurso. Isto é, parece-me que, uma vez estabelecido um acordo oral, o mesmo será cumprido. Porém, se puderem ocultar alguns detalhes, o mal é nosso por estarmos a pensar na morte da bezerra. No segundo dia decidimos ir visitar os jardins Majorelle, coisa que não me entusiasmava por aí além, e que ficava a cerca de 40 minutos a pé da Medina. O nosso anfitrião aconselhou-nos a chamar um táxi e informou-nos de que o preço justo seriam 50 dirham. O primeiro taxista que encontrámos na Medina disse-nos que fazia 75. Dissemos-lhe que estávamos informadas de que o justo seria 50. Do outro lado da janela, em segunda fila, O Berbere disse-nos que nos levava lá pellos 50 acordados. Mostrou-nos os valores afixados no vidro do táxi: Jardins Majorelle, 50 dirham. Durante a viagem, não pudémos verificar mas, se dizia que assim era, que estava escrito, tudo bem. Avisou-nos dos taxistas que praticam preços à descarada.

Falámos do Cristiano Ronaldo, do Ramadão, dos berberes e dos árabes e do facto de se falar espanhol numa qualquer região no norte de Marrocos. A dada altura, começaram os conselhos para os quais nos tínhamos preparado psicologicamente. Disseram-nos que os Jardins Majorelle cobravam mais ao fim-de-semana, posto que íamos sem bilhete. Seria mais de 20 euros por pessoa, e estaria apinhado de turistas. Foi tão convincente que nos levou até à rua que lhe dava acesso, onde se viu um mar de reformados e de jovens, bem como a polícia aquartelada a impedir a passagem a mais veículos. Ofereceu-se para nos levar a outro jardim "muito mais giro", e ainda por cima gratuito, ao qual "teríamos de chegar de túnica e camelo e podíamos tirar uma foto". Eu não sou esse tipo de turista, o que gosta de se mascarar de local. Trabalhei nessa indústria durante anos e acho que o turismo deve, acima de tudo, causar o mínimo de impacto no local visitado e, sempre que possível, contribuir positivamente para o desenvolvimento local. Perguntámos se o outro jardim ficava muito longe, ele disse que era praticamente a mesma coisa e que esperava por nós para nos trazer de volta. Isso já começou a parecer-nos demasiada generosidade. De mencionar que tinha acabado de levantar uma soma de dinheiro considerável, posto que teríamos de pagar o hotel em numerário. O belo jardim prometido chamava-se La Palmeraie (ei-lo aqui), mas também nenhuma de nós tinha internet para compreender a onde nos estávamos a dirigir. Decidimos confiar. Fomos tontas? Talvez, mas nunca me senti em perigo. Aliás, olhámos umas para as outras cientes de que fomos a Marrocos para ser enganadas e levar a coisa na desportiva. 

Antes de chegarmos, O Berbere aconselhou-nos a visitar o vale de Ourika no dia seguinte, e fez-nos um preço de 60,00€ pelo dia inteiro, que sabia ser bom porque tinha consultado o das agências, que era de cerca de 90,00€ para as 4. Poderíamos almoçar à beira de um curso de água e fazer um passeio da natureza, e ainda espreitar as Montanhas Atlas. Estávamos mais ou menos convencidas a ponderar, dependendo de como corresse o passeio com o nosso "guia-taxista" privado. Mostrou-nos os valores afixados no vidro do táxi: Jardins Majorelle, 50 dirham. Durante a viagem, não pudémos verificar mas, se dizia que assim era, que estava escrito, tudo bem.

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Parámos naquilo que só posso descrever como um descampado com palmeiras de aspeto bastante sofrido, estilo "armadilha para turistas". Descemos do táxi e O Berbere fez um gesto para o seguirmos. Perguntámos-lhe onde era a entrada de tal "jardim", mas era aquilo o jardim. Aquelas palmeiras tristes e os camelos lânguidos a ruminar. Naquela espécie de oásis no deserto, estavam uns quantos matulões sentados em redor de qualquer coisa, e um senhor mais velho que nos mostrou a seleção de túnicas sebosas que iríamos "ter de vestir"numa corda entre duas palmeiras, para seguirmos até à pressuposta entrada do jardim em pompa e circunstância. Ficámos sempre a olhar para o além, para os muros ao fundo, a perguntar-nos onde raio ficava o tal jardim, e porque seria tão longe dali que não podíamos ir a pé, porque "tínhamos" de ir de camelo. Neste ponto, ressalvo que o francês não é sequer a minha terceira língua, é a quarta, e que posso ter compreendido alguma coisa mal. No entanto, penso que o mais provável é que o taxista tenha sido vago de propósito. A dada altura, estou a ouvir a minha professora de história a lembrar-me de que não há almoços grátis enquanto nos enfiam as túnicas pela cabeça sem nos tocar, e nos ajeitam os lenços na cabeça em estilo... berbere?

Quando demos por nós, estávamos as quatro a olhar umas para as outras naquela fatiota, e o taxista chamou-me para a lateral do carro para me dizer que depois de andarmos de camelo teríamos de dar a contribuição de 75 por pessoa pelo passeio e pela túnica. Assim que regresso para perto da minha irmã, ela nem precisou de abrir a boca: quanto?, é o que diziam os seus olhos.

Levam-nos para junto dos camelos e, ao primeiro olhar para os pobres animais, já sei que não vou ter coragem de ser conivente com esse tipo de exploração. Prometi a mim mesma que ia deixar a sensibilidade de ocidental na Europa, mas não tive coragem. Senti que aqueles camelos só precisavam de uma coisa de mim: que os deixasse em paz. Todas nos recusámos a montá-los mas, para não dizer que achamos aquilo um tanto desumano, dissémos que tínhamos muito medo dos camelos, muito medo mesmo. Passaram um bocado a tentar convencer-nos de que devíamos tocar-lhes, eram muito dóceis. Em momento algum me senti em perigo, e diria que sou hipersensível ao perigo, mas também não me pareceu muito seguro estar ali no meio de homens cujos braços me percorriam do joelho ao pescoço a negar-lhes a minha bolsinha cheia de dirhams. Recusámo-nos veementemente e o taxista acabou por dizer que a escolha era nossa. Entretanto, o senhor que não falava francês disparou números em francês, 250 por pessoa para andar de camelo. E nós paradas diante dos bichos, a recursar-nos. 200, pronto. Nada feito. No final a coisa já ia em 75 dirhams por pessoa, como o taxista começara por anunciar, mas tive de lhe dizer no meu francês mais polido que não era uma questão de dinheiro. Simplesmente não conseguíamos ultrapassar o nosso pavor a dromedários. Afinal onde era a porta do jardim? E de quanto tempo precisávamos para o visitar? Porque não havia ali mais táxis, só nos restava regressar com ele.

Com um revirar de olhos e um bufo muito universal, o senhor das túnicas e dos camelos desistiu, enquanto o taxista nos mandou dar uma volta pelo "jardim" que ficava à nossa espera durante o tempo que quiséssemos. 

Assim que começamos a afastar-nos, digo à minha irmã que era para aquilo que estávamos ali, a experienciar outro mundo. Para ser enganadas e para nos rirmos disso. Ela esticou a túnica e riu-se: Como é que isto aconteceu? Como é que acabei num descampado com este traje? Tirámos algumas fotos e o quarto elemento, ainda mais aluado do que eu, perguntou então onde era o jardim. Deve ter sido aí que começámos a rir-nos às gargalhas e percebemos que o jardim era aquilo. aquilo. Combinámos que, ao regressar, íamos dar 50 dirham ao senhor das túnicas e estava ótimo. Nota em riste para não termos de abrir as malas entre tantos pares de olhos, e enfiei a nota na mão do senhor no instante em que nos livrámos das túnicas. Percebi que estava desapontado e começou a discutir com O Berbere, que nos disse que era 50 por cada, e não 50 total. E eu, que não tinha acordado nada, virei-me e voltei para dentro do táxi com elas. O Berbere seguiu-nos meio aborrecido, porque o passeio não tinha sido tão lucrativo como tinha imaginado que seria. Disse-lhes que eram estudantes, esclareceu. Como se não estivessem fartos de saber que as pessoas vão até ali ao engano.

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Foi então que considerou que era boa altura informar-nos de que os Jardins Majorelle eram 50 dirham, mas La Palmeraie era 100, por ser mais distante. Apontou para o vidro e dessa vez lemos mesmo: estava certo. Era 100, ele bem que podia ter avisado quando sugeriu a mudança de trajeto. A minha irmã começou a remexer na roupa e percebi que pensava o mesmo do que eu. Disse-lhe, no português mais tortuoso que consegui - porque ali todos parecem falar francês, inglês, espanhol, árabe e mesmo português - que, se ele aceitasse os 100 total, iríamos no tour ao vale de Ourika no dia seguinte. Se não os aceitasse, nada feito. Certo que, neste ponto, devíamos ter simplesmente afastado essa possibilidade por completo. Mas, é como vos digo, senti que havia honra nestes caminhos sinuosos para "ludibriar" os turistas, porque o prometido é sempre devido, é só estarmos atentos ao que se promete.

Chegamos à Medina, e portanto ao nosso hotel - vivas, com o dinheiro mais ou menos intacto e profundamente aliviadas, O Berbere teve de se dirigir à minha irmã para receber, e ela sorri bem menos do que eu, Alá a abençoe. Passou-lhe 100 e, após um compasso de espera, ele disse-lhe que 100 era por percurso. Passou-lhe os outros 100 e ele nem insistiu sobre o dia seguinte, disse apenas que estaria por ali se quiséssemos encontrá-lo.

No total, gastámos cerca de 23 euros entre as quatro para fazer uma panorâmica, ver camelos tristonhos, palmeiras delapidadas, o acesso ao Jardim Majorelle e tirar umas fotos mascaradas. Não achei totalmente mau, foi uma manhã bem passada.

Tirando esta experiência em que estivémos com menos mão no leme, o resto passou-se com bastante tranquilidade. Os restaurantes oferecem menus marroquinos com muita inspiração francesa, a doçaria é maravilhosa, comemos tudo, inclusive alimentos crus como laranja, cebola, alface e tomate. Ninguém passou especialmente mal (eu passei, mas já ia com uma virose daqui). 

Nessa primeira noite saímos para jantar num terraço em torno da praça principal e revisitei as tajines, que já tinha comido em Paris há dois meses. Viva a Schweppes citron e continua (...).

 

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