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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

26
Nov22

Pai Natal Solidário CTT


celiacloureiro

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Há dois anos, oferecemos um computador portátil à Laura através do Pai Natal Solidário. Reparei na carta da Laura já tarde, e era das últimas que precisavam de atenção.

É triste imaginar que algumas destas crianças não irão receber o que pediram, e às vezes são coisas tão singelas que comovem.

Este ano decidi ajudar com antecedência, elegendo duas cartinhas pelas quais serei pessoalmente responsável (juntamente com a minha irmã que não pode ouvir expressões como "roupa quentinha" que começa a chorar).

Porém, como juntos conseguimos mais, peço uma vez mais o vosso apoio para realizar mais desejos de Natal de crianças desfavorecidas.

 

Como consta no website dos CTT, que podem visitar aqui:

O Pai Natal Solidário dos CTT é uma ação de solidariedade social que surpreende crianças em situação de risco, realizando os seus desejos de Natal.

Estas crianças, até aos 12 anos de idade, são convidadas a escrever cartas ao Pai Natal, com os presentes que desejam receber. Depois, as responsáveis pelas instituições entregam as cartas nos CTT, que tratam de as colocar online e nas Lojas CTT para serem escolhidas.

Qualquer pessoa pode fazer com que o desejo de uma destas crianças se torne realidade e surpreendê-las no Natal. Para isso, apenas tem de apadrinhar uma das cartas que estão disponíveis durante os meses de novembro e dezembro.

 

Selecionei algumas cartas que me comoveram especialmente, e proponho-me a:

- Receber os vossos donativos e atribuir um número de "doador" a cada pessoa que me aborde em mensagem privada. A pessoa poderá ver o seu número na listagem de doações recebidas e a respetiva contribuição, para ter a certeza de que foi contabilizada;

- Organizar os donativos carta a carta, segundo a ordem abaixo, sempre que fechar uma carta aquele presente está assegurado e passamos à próxima;

- Escolher artigos de qualidade e duradouros, sempre que possível em saldo/com desconto, sem prestar atenção a marcas a menos que ofereçam a melhor relação qualidade/preço;

- Apresentar as faturas, fotos e quaisquer materiais de apoio para que acompanhem o processo deste lado.

 

Informo-vos que também poderão fazê-lo a título pessoal indo ao site dos CTT e apadrinhando uma carta. Depois só têm de entregar o presente diretamente num balcão e os CTT entregam-no gratuitamente. No entanto, essa opção funciona para presentes mais modestos. É para os mais "bicudos" que podemos precisar de ajuda. E para os mais urgentes.

 

Selecionei estas cartas, por ordem de "importância"

1. Uma Mochila e estojo para o Nataniel + chuteiras nº 40 // Budget 50,00€

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 2. Fraldas Nº 3 Dodot + Toalhitas Pele Sensível Dodot // Budget 35,00€

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 3. Brinquedo musical e roupinha para o Aildo - Budget 50,00€

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4. Uma cozinha para o Dinis - Budget 50,00€

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5. Fraldas tamanho 3 e leite Aptamil 2 para a Dulce (2 fraldas tamanho 3 Pingo Doce + 3 latas Aptamil) - Budget 50,00€

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6. Uma bola do Benfica e uns ténis da Fila nº 32 para o Carlos - Budget 50,00€

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7. Uma Casa de Bonecas para a Lia - Budget 25,00€

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8. Um bebé com carrinho para a Petra - Budget 25,00€

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9. Uma guitarra e um livro de colorir para o Lucas - Budget 25,00€

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10. Legos para o Rodrigo - Budget 20,00€

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11. Ténis para a Aguinalda - Budget 25,00€

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 12. Uma bicicleta para o Gihaith - Budget 200,00€

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Então, estamos juntos?

 

Estas e outras cartas aqui:

Pai Natal Solidário (painatalsolidario.pt)

06
Set22

Setembro


celiacloureiro

Li algures que somos a geração que mais trabalha. Não me espanta. O que me espanta - e não sei se temos tempo para o analisar -, é que trabalhemos por status, por conforto, por vício. Vivemos num estado de alimento garantido. De privilégio constante. Vivemos de pequenos luxos, e não conseguimos imaginar o dia-a-dia sem eles. Ir de carro para o trabalho. Refeições fora. Um certo coleccionismo - no meu caso, de livros. Mais olhos do que barriga sobre quase tudo, quase sempre.

De repente, tenho muito pouco tempo livre. Estou sempre cansada. Por um lado, trabalho a partir de de casa. Às vezes, dou por mim a trabalhar fora de horas, só porque sei que a tarefa tem de ser concluída, e já não há a barreira dos transportes, das horas, do anoitecer lá fora e da chuva no caminho a impedir-me de a concluir. Depois, lembro-me que tudo é um bater de asas de borboleta, e que o efeito dominó faz com que por consequência fique cansada, desinspirada, e me deite mais cedo para recomeçar tudo igual no dia seguinte.

Também continuo a traduzir livros. É preciso uma cabeça limpa e ideias coerentes para rever ou traduzir um livro. Se falhar nessa tarefa, vou ficar mesmo muito desiludida comigo mesma. Creio que, um dia, é aos livros que hei de ir buscar o meu sustento. E não me refiro à escrita. Traduzi uma mão cheia de livros em seis meses, mas, pelo motivo que mencionei no primeiro parágrafo, uma falha parece ter sempre mais peso do que uma tarefa concluída com louvor. Tenho medo de errar. Medo de que venha o cansaço e me atire por terra.

Tem-me apetecido escrever, mas não há tempo; não há vida. Há sempre algo que exige a minha presença noutro lugar. Ou uma atividade menos cansativa para concluir. 

Tenho tido cada vez menos tempo para pensar na vida. Na importância de attraversarla de olhos abertos. Atenta ao que vai acontecendo ao redor. Para ser. Para escutar o universo. Para me sentir mulher, viva, livre. . Olhando para trás, compreendo que não me conhecia muito bem. Achava que, por esta altura, teria uma vida igual à dos outros. Estaria casada e submergida pelas exigências da maternidade. Daqui a uns anos divorciava-me e voltava às amarguras da escrita, ao alívio destes desabafos. Não vi, de início, que sou feita de um material que se deixa ficar à parte, a observar, enquanto os outros vivem, triunfam e cometem erros. Acabo por julgar, por opiniar, e também por me emocionar até às lágrimas com a vida que corre como o rio para o mar, sem se deter, ao meu redor. E que não é a minha. Eu permaneço sobre uma rocha à beira do riacho, abraçada às pernas. Ora choro por nunca ter lugar na corrente, ora me dou por satisfeita por não andar à deriva por águas turvas. É mais fácil suportar os elementos a partir da margem. Em tempos, escrevi num romance algo a respeito de uma garça à beira-mar. Vem a espuma das ondas e salpica-lhe as asas. Mas a garça permanece.

Resta-me observar. Sonhar. Escrever. Viver, anestesiada, porque sentir é-me tantas vezes insuportável.

Chegou setembro. O meu mês favorito. Voltei a tomar chá e a calçar meias. Tenho um cão. Ainda consigo alinhavar algumas frases em tom literário quando me sinto inclinada a isso. Debato-me com as palavras, mas não ao ponto da exasperação. Coisas bonitas hão de chegar para mim, e todas elas cheiram a papel, a tinta e a tipografia. Livros, livros e mais livros.

Sem livros, que vida me restaria para viver?

Mood.

 

03
Jun21

Pobreza e menstruação


celiacloureiro

História Instagram a Violeta e Pêssego com Pince

A 28 de Maio, o Jornal de Notícias e outras plataformas divulgaram uma proposta do Bloco de Esquerda para a distribuição de tampões e pensos higiénicos em escolas e postos médicos. Com a ressalva de que "No ano passado, o projeto foi chumbado e depois de a medida ser aprovada em países como a Escócia, Nova Zelândia, Canadá ou Inglaterra, o Bloco decidiu voltar a insistir."

Uma vez mais, sinto que o nosso governo socialista favorece a igualdade (e os votos que daí podem advir) face à equidade. Nem todas as crianças precisam que lhes ofereçam os livros escolares. Não era necessário baixar propinas para o Ensino Superior - o que é necessário é um sistema que garanta os estudos a quem não puder pagá-los, e isso já existia através das Bolsas de Estudo. Talvez seja necessário que algumas meninas e mulheres possam levantar material higiénico para fazer face a uma necessidade fisiológica mensal. 

A Escócia, ao tornar-se o primeiro país do mundo a distribuir estes materiais gratuitamente,  baseou essa necessidade no facto de que «Uma em cada 12 jovens britânicas usa jornal como penso higiénico».

Ao ler sobre isto, recordei-me da minha própria experiência. Corria o ano do senhor de 2002, e, ao contrário das minhas colegas que estavam doidas por terem o período, eu não queria nada ter "o Benfica a jogar" em casa. Tinha feito 12 anos há 2 meses, estava no 7º ano e pouco antes a escola tinha distribuído dossiers sobre saúde sexual, com enfoque na menstruação. Tinham oferecido amostras de pensos higiénicos e de tampões. Como sempre fui uma aluna medíocre a Ciências, devo ter passado pelas brasas durante algumas das explicações. Quando uma dor de barriga aflitiva veio interromper-me um teste de Francês, pedi licença para ir à casa de banho. Nessa altura andava sempre com um penso diário, porque estávamos todas a começar a ser atingidas pelo mal comum. Não tardava muito a ser eu... Acontece que quando me limpei vi sangue, suspirei de resignação. Mandei o penso para o lixo e pensei "Boa, por este mês já estou livre".

Meti uns cêntimos no telefone pré-pago da escola, chamei a avó. Dei-lhe a notícia de que "já era uma mulherzinha", como sempre a tinha ouvido dizer, e fiquei muito espantada quando ela me perguntou se estava suja. "Como assim, suja? Por este mês já foi". A avó ficou em pânico - para ela, deixar que os outros vejam o nosso sangue menstrual sempre foi a vergonha máxima a que uma mulher pode sujeitar-se. Tinha muitas histórias do género para contar, do  tempo em que a mulher se arranjava com uma toalha dobrada e vestia saias, pelo que era mais propensa a acidentes. O verdadeiro choque veio aí, quando ela me disse que o período tinha acabado de chegar, e que havia de ficar durante alguns dias. Lá fui eu para as aulas, com meio rolo de papel higiénico nas cuecas, ciente de que em casa apenas tinha pensos diários - baratos e duradouros.

História Instagram a Violeta e Pêssego com Pince

A parte da pobreza se interligar com a  menstruação, mesmo na Área Metropolitana de uma capital europeia, deve-se ao facto de a minha luta ter começado nessa noite: a avó esperava-me com toalhas. Disse-me que usasse panos, porque os pensos eram caros. Ela recebia apenas a pensão de quem nunca descontou, o avô tinha uma reforma minúscula (porque antecipada). O pai e a mãe também estavam desempregados, e enfrentavam outros demónios que sugavam os parcos recursos familiares. 

Tive de envolver as primas na situação para conseguir que me cedessem 2 euros para comprar 16 pensos higiénicos. Ajudaram-me a convencer a avó de que no século acabado de entrar não era higiénico nem aceitável que uma menina que frequentava a escola, que fazia Educação Física, que se sentava manhãs e tardes seguidas numa sala de aula, tivesse de usar panos durante quase uma semana por mês. Ficou então entendido que os tempos tinham mudado, e ganhei o direito a comprar um pacote de pensos por mês. As conversas, ainda assim, repetiram-se todos os meses até aos meus 17 anos, com apelos para usar menos pensos, para não os mandar logo fora "quando caía uma gota de sangue", e etc., etc.

Aos 17 anos comecei a trabalhar e a ganhar o meu dinheiro. Aos 18 entrei na faculdade, despedi-me e vali-me da Bolsa de Estudo (a tal, para quem precisa) para os meus alfinetes. Nunca mais voltei a usar pensos higiénicos pagos por outrem, nem a enfrentar o horror de ter de usar uma toalha de rosto dobrada nas cuecas (nunca cheguei a usar porque sempre me recusei). 

Hoje em dia vivo com duas irmãs. É evidente que a necessidade de pensos higiénicos, tampões e panafernália de combate mensal ao período trazerem despesas acrescidas aos agregados familiares. Cá em casa somos três mulheres em idade menstrual, duas das quais além do material habitual precisam também de analgésicos para suportar as dores. Somando tudo, ao fim do ano temos uma bela conta. Ao fim de 40 anos de menstruação, podia pelo menos ter feito um cruzeiro nas Caraíbas.

Por sorte, e apesar de desempregada, ainda posso pagar essas coisas. Mas pergunto-me como é que o governo pode chumbar uma medida destas, quando o interior do país sofre de carência a tantos níveis, quando há tantas meninas sem acesso a planeamento familiar, a aconselhamento, a cuidados de saúde e de higiene básicos, e depois distribui bens indiscriminadamente - os livros escolares, a baixa de propinas - para quem precisa e para quem não precisa. Os recursos, na minha opinião, devem ser direccionados. Existem para garantir que quem precisa nunca lhes sentirá falta.

26
Jan21

Os ciganos, o coisinho e as finanças do Estado


celiacloureiro

No Domingo elegeu-se Marcelo Rebelo de Sousa para presidente da República Portuguesa, e não foi surpresa a sua reeleição. A surpresa foi o circo montado em torno do candidato da extrema-direita, e, para mim, maior surpresa foi ver que os portugueses não o puseram no seu lugar nas urnas mas, pelo contrário, cerca de meio milhão de pessoas votou nele e nas suas ideias para presidente.

O 25 de Abril teve lugar há 47 anos. Antes disso havia censura, partido único, prisões políticas, sovas a opositores do sistema, exílios e desterros. Gostaria de acreditar que ninguém com mais de 47 anos tenha votado num grão disto que fosse, mas infelizmente também aqui me enganei. Porque ficou Ventura em segundo lugar no Alentejo, por exemplo? O que significam, na realidade, os números desta eleição?

Começar por dizer que a abstenção esteve na ordem dos 60.51% - significa que dos quase 11 milhões de portugueses inscritos em cadernos eleitorais, 6.5 milhões não se deram ao trabalho de ir às urnas. Isto coloca as coisas numa outra perspetiva: é que o tão falado Ventura, o tal que diz que os portugueses se uniram para votar num partido contra o sistema, desaparece neste gráfico de minha autoria, que expressa o comportamento dos portugueses perante a eleição. O que se agiganta é o mar de portugueses que se absteve.

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O que tirei deste gráfico foi que meio milhão de portugueses (sim, ainda assim muita gente) achou por bem sair de casa e ir apoiar este candidato às urnas. São 0,5 em 11 milhões de Portugueses, e quero acreditar que somos melhor do que a crença iludida desses 0,5. A esses 0,5 peço que esqueçam o suposto rosto anti-sistema, e que se foquem nos seus argumentos para "salvar o país". Mas salvar o país de quê? De quem? Ora vejamos.

Fonte dos dados no gráfico: Resultados do ano 2021, Eleições Presidenciais , RTP Notícias

Hoje estou virada para os números, por isso fui informar-me sobre os números da população cigana em Portugal, que em 2017, segundo o alto-comissário para as Migrações, era de c. 37 mil individuos, "e 91,3% não têm o 3º ciclo." 37 mil indivíduos merecem, de facto, ser culpados por tantos dos problemas que o Chega identifica em Portugal? Não estarão a inventar inimigos do Estado e da população, à semelhança de outros demagogos do passado?

O projeto Pare, Escute, Olhe refletiu sobre a questão da atribuição do RSI a elementos desta etnia em 2015, e concluiu que "estudos, baseados em dados cedidos pelo Instituto de Segurança Social, apontam que entre 3% e 6,5% das  93.731 famílias beneficiárias do RSI são de origem cigana.  Ainda assim, não se pode negar que algumas pessoas procuram viver dos apoios sociais mas este fenómeno pode ser observado em qualquer grupo, independentemente da sua origem étnica ou social." Traduzido por miúdos, das 93731 famílias que recebiam o RSI em 2015, apenas 93,5% (no mínimo) dos beneficiários eram de etnia não cigana. Os ciganos são, portanto, uma pequeníssima fatia dos subsídio-dependentes do Estado, conforme o Chega leva a crer. Quanto a recusarem-se a trabalhar, o mesmo projeto refere o seguinte: 

  • 50,7% da população cigana já se sentiu discriminada no local de trabalho;
  • 35,3% disseram terem sido rejeitados numa entrevista por causa de sua etnia;
  • 26,9% sentiam-se mais controlados e/ou monitorizados;
  • 11,9% têm experimentado situações que os impedem de desempenhar funções com visibilidade pública por causa de sua raça ou origem étnica.

Neste ponto, gostaria de contestar André Ventura nas soluções que propõe para acabar com a subsídio-dependência e para pôr os ciganos a trabalhar, mas não o ouvi falar em integração, em combate à discriminação, em por ex. benefícios fiscais a empregadores que contratem funcionários de etnia cigana, ou seja lá o que pudesse contribuir para inverter os problemas laborais desta etnia e, consequentemente, afastar esses 6.5% (no máximo) do RSI. 

Pensando em soluções - se realmente a minoria cigana for um problema - creio que as coisas passem por dois pontos: aplicar a lei de igual modo para todos os cidadãos portugueses, independentemente da sua etnia, e reforçando a intervenção de assistentes sociais junto das famílias de minorias étnicas que possam entrar em colisão com aquilo que é o cumprimento da lei da nossa República (a isto chamaria investir num futuro mais inclusivo). Menciono também o abandono escolar por parte da etnia cigana (91.3% da população cigana não tinha o 3º ciclo, em 2017 - segundo o mesmo artigo do Expresso acima citado), e outras práticas como a excisão genital feminina, que devem ser combatidos sem pruridos culturais por violarem direitos universais. 

O combate à corrupção deve ser ativamente praticado por todas as instâncias do nosso Estado, e qualquer português com acesso à internet pode consultar, por exemplo, a lista de devedores à Segurança Social online. Encontramos os devedores divididos em duas classes: pessoas singulares e coletivas. Fui às coletivas e encontrei 12 páginas de devedores listados para dívidas entre 1 e 5 milhões de euros (12 milhões se cada um dever pelo menos 1 milhão), mais 12 páginas de meio a 1 milhão, e 42 páginas de 250 mil a meio milhão de euros. Por entidade devedora. Divirtam-se aqui.

No site da autoridade tributária encontramos o mesmo esquema. Temos  22 entidades listadas num PDF, sinalizadas como devendo mais de 5 milhões de euros ao estado cada, e 6 páginas A4 com listas de devedores de 1 a 5 milhões. Há muito mais escalões de devedores.

Também há que nos preocupar com a TAP, o BES, os Berardos e os Luís Filipes Vieira desta vida (cujo grupo económico, em 4 anos, causou 225 milhões de euros de prejuízo ao BES e que é um dos principais devedores ao banco que os portugueses estão fartos de resgatar). Mais detalhes aqui.

A somar a isto, roubam os proprietários de certos estabelecimentos - e roubam até ao manter empregados sem contrato de trabalho, sem passar faturas, sem serem honestos nas declarações que fazem. Em Portugal, foge-se aos impostos e às contribuições, às dívidas e às obrigações desde o topo até cá abaixo. Aqui em Almada, por ex., há proprietários de redes de pastelarias que pagam o salário mínimo a funcionários sem contrato por 6 dias de trabalho semanais. Proprietários que se passeiam de carrão e que entregam o dinheiro em envelopes em mãos à multidão de empregados cujas famílias dependem destes escroques para se alimentarem e não serem subsídio-dependentes. Vai a ver-se e são estes senhores que, entre uma baforada de charuto e mais um envelope para pagar os seus muitos funcionários ao fim do mês (o retrocesso civilizacional!), dizem que quem destrói o país são os ciganos e os estrangeiros que, em 2017, representavam apenas 3,8% da população residente em Portugal, e que por exigências do SEF têm de se manter ativos no mercado laboral para poderem permanecer no país.

Vergonha é importante, mas é a começar por cima, e não a escolher bodes expiatórias na arraia-miúda. 

Informem-se. Parem, escutem, olhem. Com olhos de ver.

15
Dez20

Dói, ser mulher


celiacloureiro

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Nos últimos tempos, tenho refletido muito acerca da condição da mulher (e da minha condição de mulher). Pensei em colocá-lo num desenho, e saiu este que uso para ilustrar este post. O sangue é, com toda a certeza, aquilo que salta à vista. Mas este sangue não é a menstruação, nem um aborto espontâneo, nem o que fica de uma violação. Este sangue é tudo isso, e muito mais.

Ontem estava a ver um episódio intitulado Métodos Contraceptivos de uma espécie de mini-documentário da Netflix chamada Resumindo, Sexo. São 25 minutos sobre o modo como a mulher sempre foi a principal responsabilizada por uma gravidez indesejada, e como isso resultou na sua pobreza, por vezes ostracização, dependência do marido, linchamento público, enxovalhamento social, etc. Ao longo de toda a História as mulheres submeteram-se a toda a espécie de mezinha, ritual, brutalidade, para interromper gravidezes indesejadas. Também inseriam objetos estranhos no próprio corpo e lavavam-se com vinagres, poções ou mesmo com excrementos de animais (de elefante, na Índia, por ex.), para evitar gravidezes. Apenas na década de 50 do século XX é que a indústria farmacêutica se interessou por produzir estrogénio sintético, e a pílula revolucionou a vida das mulheres no mundo inteiro. Inicialmente, as mulheres foram cobaias dessa mesma indústria, e poucas décadas depois tornou-se claro que essas pílulas traziam muitos efeitos secundários indesejáveis - alguns letais - para essas mulheres-cobaias. Pouco depois surge o DIU, um anzol de cobre, também disponível em plástico, implantado no útero de mulheres inicialmente de Porto Rico, também como cobaias, para apenas depois se tornar opção nos EUA e restante mundo. Pelo menos 18 mulheres terão morrido, nesses primeiros anos, com choques sépticos e infeções graves do útero e outros órgãos. O documentário dá voz a Loretta Ross, que usou uma nova espécie de DIU aquando da sua saída no mercado, e que perante as dores e o desconforto que sentia no ventre os médicos procuraram incessantemente uma DST. Mulher negra com tantos cuidados para não conceber, só podia ser uma promíscua e portanto estar infetada com uma doença desse espectro. Foi apenas quando entrou em coma que se percebeu que o DIU lhe havia destruído o útero, e lho removeram de emergência. Porquê? Porque as mulheres não são ouvidas, e eu continuo à procura do motivo, do porquê. Terminam dizendo que existe, há anos, uma pílula masculina em testes, porém os efeitos secundários não agradam aos laboratórios nem às entidades que poderiam acolhê-los e distribuí-los no mercado. É inconcebível que os homens fiquem sujeitos a coágulos, flutuações de humor, sensibilidade extrema, mamilos sensíveis e dores de cabeça, como ficam as mulheres ao tomar a sua pílula. O homem não aguenta desconforto? Ou a indústria é mais terna com o sexo masculino? Ou simplesmente mais preguiçosa, com a mulher? A resposta é clara, posto que continuam a tentar minimizar esses efeitos do medicamento antes de o lançarem no mercado.

Avancei para o episódio sobre Fertilidade, e uma vez mais a mulher é a responsabilizada em quase todos os casos de infertilidade num casal. Faz sentido, na medida em que o corpo da mulher é o labirinto que recebe a semente, e se algum caminho estiver vedado não há gravidez. Por outro lado, é mais uma responsabilidade psicológica em cima da mulher. E, quando o problema é mesmo da mulher, é a mulher quem extrai óvulos, é a mulher quem se injeta sozinha na barriga, na coxa, com hormonas para aumentar a produção de óvulos, é a mulher que se submete aos tratamentos In Vitro, é a mulher que depois carrega o embrião, o feto, e o alimenta com o seu corpo, e é ela que sofre os pontapés na bexiga, a incontinência, as dores nas costas, os enjoos, as tonturas, o cansaço, o sono, o parto. O parto - com ou sem anestesia, o parto em que tantas vezes arrisca a vida, o parto, e depois são dela os mamilos abocanhados, feridos, gretados, pela criança, é sobre ela que recai o julgamento social se não perde peso suficientemente rápido.

Mas há mais, há o Parto, que é o episódio que se segue. Outro episódio na minissérie sobre Sexo em que, afinal, tudo é sobre a mulher e as dores, físicas e psicológicas, que tem suportado ao longo da História. Dizia uma das vozes que a mulher é a mamífera que experiencia mais dor ao dar à luz, e que assim é apesar dos milénios de evolução sobre a nossa espécie. Porquê? Porque a Natureza não se interessa pela dor, interessa-se pela sobrevivência, e a nossa espécie continua a reproduzir-se, com ou sem dor. Mas e a Ciência, não podia interessar-se um pouco mais pela dor, na mulher? Neste ponto, uma das comparações pareceu-me preciosa. O ser humano é o único animal que sofre por antecipação. A mulher chega ao parto aterrorizada, confusa - epidural ou sem epidural? Vou conseguir trazer a criança ao mundo de parto natural ou vou acabar na sala de cirurgia? - e tudo isto são também reflexos de cultura, a cultura a imiscuir-se no momento em que a mulher deveria estar em plena harmonia com a natureza - com ou sem drogas, acreditar que de algum modo foi feita para conseguir ultrapassar aquele momento. A comparação que se estabelece é com uma pessoa a tentar fazer necessidades numa sala em que é constantemente interrompida e, por embaraço, retém-se. Imaginem sentir o vosso corpo prestes a explodir em fluidos viscosos enquanto estão rodeados de estranhos... Os hospitais tentam proteger alguma da privacidade da mulher, mas as salas continuam a ser partilhadas com outras, as enfermeiras entram e saem, trocam turnos, há auxiliares, vozes, bebés a chorar ao longe, mães a gritar na sala ao lado. A mulher retém-se. O parto dura para sempre e, no fim, acaba a defecar na maca às vezes. Como é que a Ciência chegou onde chegou - isto é, mete homens no espaço e tudo -, mas a mulher continua a parir com dor e trauma?

E há toda outra dor. Há a dor física, o desconforto, a escolha - dói assim ou dói assado? Por exemplo, no meu caso particular, tenho dores atrozes quando estou com o período. Cheguei a sair do trabalho e a apanhar um táxi para casa, do outro lado do rio, porque não conseguia conduzir naquela aflição (e com analgésicos). Tive de escolher isso ou as dores de cabeça horríveis que tenho agora, nos dias que antecedem o período, e a possíbilidade de coágulos sanguíneos mesmo tendo má circulação. Isto, ou aquilo? E nada é isento de dor. E porque continuam a demorar tanto a diagnosticar a endometriose quando a mulher se queixa d dores excruciantes? Porque és mulher, aguentas com certeza.

Na última consulta ginecológica, o colo do meu útero foi salpicado com ácido acético, e isto enquanto estava ali, de pernas abertas, com duas pessoas ao meu redor e uma dor excruciante na lombar, porque... já disse que quando o período vai vêm as dores na lombar? Antes não tinha, será da pílula? Será de ser mulher? Por sorte, não houve biópsia. Havendo, e estando já à beira do desmaio, teria com certeza perdido os sentidos. Sem anestesia. Porquê? Parece-me muito importante despistar cancro, mas porquê fazê-lo de um modo tão horrível que receio regressar àquele gabinete, repetir aquele exame? Os homens passam por procedimentos do género sem a ajuda da ciência analgésica? Pela primeira vez, numa maca de hospital e com um espéculo dentro de mim, ouvi uma médica dizer, quando me encolhia: Isto não é fita, dói-lhe mesmo. Estes úteros jovens são muito sensíveis.

Significa que não sofro sozinha, sofremos todas, mas não sofremos juntas. Porque não sofremos juntas? Porque é que há tantas mulheres na ciência e continuamos a ter de passar por procedimentos dolorosos sem que se busquem alternativas, e a assumir responsabilidades que, na realidade, são de todos?

Ser mulher dói. Tem doído muito nestes 31 anos. E há-de doer mais, se vier tudo o que descrevo acima...

Ciência, porque não te lembras de nós?

07
Dez20

Os disparates sobre Auschwitz e Birkenau


celiacloureiro

Analisemos a seguinte entrevista de JRS, e nada mais (é de dia 18 de Novembro, mas apenas agora lhe cheguei após ler o parecer do autor João Pinto Coelho a seu respeito).

Link para visualização: Grande Entrevista Episódio 55 - de 18 Nov 2020 - RTP Play - RTP

Coisas que me parecem disparatadas na Grande Entrevista ao JRS sobre os seus livros em torno de Auschwitz-Birkenau:

  1. O tom: sinto que estou a assistir a uma aula, pelo que não posso contrariar o professor;
  2. Dizer que não há autores conhecidos em Portugal que aborde o tema “Holocausto” na ficção (vou considerar ficção e não jornalismo), quando há um finalista do prémio Leya, que também é prémio Leya e best-seller, e que inclusive esteve envolvido em polémicas com o governo polaco devido ao seu trabalho… Ele é jornalista, e além disso está no meio literário… ou está completamente alheio ao resto? A somar a isso, a sua ideia de escritor “conhecido” é um Nobel e um candidato a Nobel português… Não faria mais sentido comparar-se a escritores de vendas, e não te cultura literária? Um Chagas Freitas, um Raul Minh’Alma? Ou, a nível internacional, a um Dan Brown tuga?
  3. O jornalista escuta quase sem contestar, sem contrapor – à semelhança de muitos leitores que defendem o intelecto de JRS dos Santos sem pestanejarem. Malta, não acreditem nem no que a vossa mãe diz: pensem por vocês;
  4. Os erros históricos: dizer que em 1942 Himmler alegava que não podiam “matar judeus”, tinham era que os expulsar, quando é o arquiteto da “Solução Final” e a tinha em prática desde 1941, e quando no próprio ano de 1942 Auschwitz passou a funcionar como campo de extermínio, a par com outros semelhantes… Ver “Hitler’s Circle of Evil”, ou “Hitler’s Most Wanted”;
  5. A interpretação histórica e as contrariedades: por um lado diz que a realidade foi muito pior do que estamos acostumados a ouvir dizer, por outro lado dá o exemplo de alguns sobreviventes que não têm “más memórias” de Auschwitz e que queria dar voz a essas pessoas;
  6. Transportar leitores da sua realidade para a de um romance é a essência da literatura – ele não sabia?
  7. As motivações dos nazis vêm de anos de lavagem cerebral ao povo alemão, inclusive aos próprios nacionais-socialistas e às elites nazis, perpetuada inclusive na Educação – as crianças começavam desde cedo a aprender o ideal da superioridade da sua raça – consequentemente da inferioridade das restantes, em especial da hebraica, e desde muito cedo o antissemitismo funcionou como bode expiatório para unir o povo alemão contra um inimigo comum. Que novidades terá a dar-nos sobre a motivação dos nazis? Não, eles não buscavam um mundo melhor. Sim, eles buscavam um mundo melhor apenas para eles próprios e para o povo ariano que concordasse com eles;
  8. Custa-me a crer que haja sobreviventes que digam que não se sofria muito em Auschwitz, talvez digam que “não sofreram muito”, é uma experiência pessoal, conseguida por bloqueio ao ambiente que os rodeava, ou por serem jovens, ou por se considerarem sortudos porque viram outros sofrer mais. Dizer que “não se sofria muito” parece-me ofensivo e há milhares de entrevistas com sobreviventes que contam outra versão;
  9. A definição de “psicopata” do JRS parece-me desprovida de significado científico. O psicopata não é só um tipo muito mau, é um tipo que pratica o mal sem que esse lhe fira a alma. Muitos nazis eram psicopatas, sim, precisamente porque o nacional-socialismo colocou o poder nas mãos dos degenerados, nas mãos de quem odiava mais e mais alto, e por isso estava mais apto a abraçar políticas de ódio e tirava verdadeiro prazer das torturas que infligia às suas vítimas – ler Morrer Sozinho em Berlim, Hans Fallada (1947), que viveu nesse tempo na Alemanha;
  10. Porquê que os nazis fizeram o que fizeram ao povo judeu? É complexo, não é? Mas não tem grande mistério, e a resposta é de conhecimento geral. Eu explicá-lo-ia do seguinte modo, que se traduz numa interpretação diferente da do autor: 1º Porque precisavam de subir ao poder, e descobriram os benefícios da retórica e da propaganda para dominar o povo alemão – a estratégia básica era a de identificar um inimigo comum contra quem todos pudessem marchar em simultâneo. A partir daí, e tendo em conta a política de expansão de Hitler, foi necessário financiar a guerra. Quem tinha dinheiro na Alemanha estropiada pela I Guerra Mundial, endividada até à medula pelos americanos, entretanto desgraçados pelo crash da bolsa? Os judeus. O inimigo comum do povo ariano. Que fazer? Deixá-los partir com a riqueza que os nazis cobiçavam? Despojá-los dos seus bens e deixá-los partir (e com que meios o fariam)? Deixá-los ir espalhar relatos da indignidade de que tinham sido vítimas no -exterior? Unirem-se e regressarem para esmagar os nazis? Não. Apoderaram-se dos seus bens e eliminaram-nos. A caminho disso extraíram-lhes a vida por via do trabalho – obrigando-os a trabalhar para fornecer o exército nazi de munições, equipamento, combustível, etc. O extermínio esteve sempre em mesa – Himmler era o cérebro desse projeto, porém não o fariam enquanto pudessem tirar utilidade daqueles desgraçados. Porque apressaram o seu aniquilamento? Porque estavam cercados de aliados e quiseram queimar arquivo;
  11. A ideia do gás surgiu para permitir uma morte mais humana aos judeus? Acho que até o meu sobrinho de 10 anos sabe que os nazis criaram mecanismos de extermínio em massa, e que isso não foi uma consequência de não saberem o que fazer com os hebreus, mas sim o objetivo final de um projeto muito maior, o qual, claro, envolveu muitos anos e muitas mentes, e muitos recursos. Speer trabalhou para uma Auschwitz mais eficaz na eliminação de seres humanos porque os via como animais, e não porque queria poupá-los a mais sofrimento;
  12. Só se fala em câmaras de gás, mas a câmara de gás era só um dos muitos modos como eram executados os prisioneiros nazis – não apenas judeus, como inimigos políticos, prisioneiros de guerra, etc. – se o gás era para uma morte humana, então porque é que Mengele torturou humanos com experiências inimagináveis (inclusive tentando mudar-lhes a cor dos olhos, injetando-lhes pigmentos na íris?); se o gás era para uma morte humana, porquê os fuzilamentos, as torturas, as execuções sumárias, os espancamentos, etc.?

 

Para concluir: trata-se de uma interpretação perigosa daquele que é possivelmente o momento mais documentado da História. A ler com cérebro e muito cuidado, porque arriscam-se a sair da leitura mais burros.

05
Nov20

2020 - O essencial são os outros


celiacloureiro

2020 tem sido um dos anos mais conturbados da vida de toda a gente. Acontece de tudo, desde perder o emprego, até cair um frigorífico em cima do tio. Os dadaístas não teriam conseguido inventar um ano assim. Um ano em que de repente é evidente o que é essencial e o que é acessório. No fim das contas, o que se conclui é que o essencial são os outros. Mas os outros, quando autênticos, não vão a lado nenhum. 

Desde ontem que ando a remoer neste texto. Tudo começou quando a minha irmã parou diante da mesa onde estava sentada ao computador e me perguntou que champô ando a usar agora, porque o meu cabelo anda ótimo. Ora bem...

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- Em 2020 o meu champô é da marca do Pingo Doce, custa tipo 1,69€ e, ao que parece, o cabelo nunca esteve tão bom.

- Em 2020 o meu gel de banho é o carote d'Aveia, porque a psoríase tem estado péssima por causa dos excessos de gulosices;

- Em 2020 a psoríase esteve ótima, porque fiz imensas semanas de praia;

- 2020 foi o ano que mais fui à praia na vida;

- Em 2020 a Relógio d'Água publicou E Tudo o Vento Levou;

- 2020 foi o ano em que um contrato meu acabou sem ser renovado - o Turismo está hibernado - e descobri o que é ser desempregada;

- 2020 levou-me à inscrição no IEFP, e a sentir pela primeira vez o que é estar sentado em casa com o Estado a chover-nos dinheiro em cima;

- Em 2020 fiz imenso yoga;

- Em 2020 fiquei completamente sedentária e nunca tive dores de costas tão más;

- Em 2020, as dores de costas deram-me as piores enxaquecas da minha vida;

- Em 2020 tenho 30 anos e quero fazer um piercing no nariz - será que faço?

- Em 2020 cortei imenso o cabelo - que se lixe, não passa disso mesmo;

- Em 2020 não fiz a ecografia mamária semestral;

- Em 2020 fiz o rastreio do cancro do colo do útero e fui chamada num ápice para uma consulta que foi agora adiada por tempo indeterminado;

- Em 2020 cancelei o seguro de saúde e marquei uma consulta no público, à qual compareci uma semana depois;

- Em 2020 devia largar os anti-depressivos, mas vou continuar;

- Em 2020 li Guerra e Paz e li imensos outros livros;

- Em 2020 estive praticamente um mês de férias na aldeia da minha avó, a gozar aquilo que a vida tem de melhor: tempo;

- Em 2020 aventurei-me em novos troços do Dão a nado;

- Em 2020 colhi morangos;

- Em 2020 conheci um cabrito chamado Tiago;

- Em 2020 conheci imensa gente boa, gente nova, conheci as  suas histórias, aprofundei relações, recebi imensos presentes e dei outros tantos (o bacalhau com natas da Tété, os bombons, o bolinho de aniversário da Tété, mais bombons, o paninho de cozinha bordado em redor);

- Em 2020 comprei uma Bimby - depois de anos a dizer que aquilo é para quem não sabe cozinhar, comprovei que mesmo alguém que pouco saiba de cozinha, como eu, pode virar um chef de culinária;

- Em 2020 converti-me às marcas brancas e, com elas, aprendi a gerir uma vida digna e com o mesmo nível de qualidade anterior com quase metade do meu salário de 2019;

- Em 2020 acertei os contratos de serviços para o essencial, apaguei mais vezes a luz e fechei mais vezes a torneira enquanto lavava os dentes;

- Em 2020 comecei a comprar apenas roupa em segunda mão, e a essencial;

- Em 2020 tive mais tempo para reciclar e para plantar salsa e manjericão (vão florescer?);

- Em 2020 comprei uma hera e outras plantas para alegrar a casa;

- Em 2020 ajudei uma gatinha bebé, esfomeada, a ser salva de uma vida de parideira na aldeia e a ir viver com conforto na capital;

- Em 2020 fui para aí 6 vezes a um centro comercial (definitivamente menos de 10 vezes) e não tive saudades nenhumas;

- Em 2020 comi menos em restaurantes e mais em casa;

- Em 2020 entreguei o carro e percebi que os Ubers, Bolts e MTS desta vida funcionam às mil maravilhas;

- Em 2020 o meu tio de 54 anos, desempregado crónico, recomeçou a vida do zero - com alguma roupa e um emprego novo, está de pé e provou que podemos recomeçar em qualquer altura, basta estar-se vivo;

- Em 2020 o meu avô morreu e ainda não fui ao cemitério;

- Em 2020 a Rafaela começou a andar e a passar as mãos em todas as superfícies, e ando atrás dela a dizer "não, está porco" ou "não, pode ter covid";

- Em 2020 vi os portugueses nos transportes todos de máscara, e nem a minha imaginação tinha previsto tal coisa;

- Em 2020 fechei para sempre a porta da casa onde cresci, resgatando dela apenas a casa de bonecas de madeira que o meu pai fez com as próprias mãos;

- Em 2020 aprendi a desapegar-me ainda mais de consumismo, de marcas e de objetos;

- Em 2020 fiz mais companhia às gatas;

- Em 2020 descobri que os vizinhos com menos dinheiro, ou que perderam o emprego, são os que pagam a senhora da limpeza do prédio (minha mãe) com mais celeridade;

- Em 2020 as minhas melhores amigas instalaram-se a preceito nas suas novas casinhas;

- Em 2020 uma grande amiga licenciou-se;

- Em 2020 o meu tio levou com um frigorífico no peito no trabalho - rimos imenso, quando regressou do Hospital a dizer que queria ir trabalhar no dia seguinte;

- Em 2020 renegociei o contrato com a NOS e os tipos melhoraram os serviços e baixaram a prestação;

- Em 2020 fui a imensas entrevistas de emprego para entender duas coisas sobre o mundo do trabalho: a primeira é que não temos de ficar cingidos a uma área específica, e que temos mil e um outros contributos a dar noutras áreas, a outra é que os pattrões portugueses pagam uma miséria aos empregados, e muitos são autênticos sanguessugas. Porque é que os funcionários aceitam? Outros patrões aproveitaram o covid para fazer os empregados trabalharem full-time em layoff, quando continuavam a faturar normalmente. Descobri um caso em que a funcionária trabalha 6 dias por semana (48 horas) por um salário mínimo sem subsídios ou outros apoios, pago em mãos, e outro em que o funcionário trabalha 40 horas por semana, pelo salário mínimo, há 18 meses e sem férias nem subsídios. Ainda lhe disseram (é estrangeiro) que em Portugal pode ser despedido por faltar uma tarde para ir ao médico, ainda que traga justificação. E essas pessoas são donas de grandes grupos de pastelarias ou de restaurantes da moda, desses que vemos os amigos postarem fotos com hashtag no instagram em torno de salas bonitas e trendy;

- Em 2020 decidi que não quero ter filhos;

- Em 2020 quis ter filhos porque pareceu-me a altura ideal;

- Em 2020 percebi que vivo numa cidade ótima, numa localização ótima e com conforto, e que ia ficar fechada nesse refúgio com pessoas que amo, o tempo que fosse;

- Em 2020 conheci melhor o meu sobrinho durante as férias, e o amor multiplicou-se;

- Em 2020 comi Pho pela primeira vez (o desejo de um dia ir ao Vietname);

- Em 2020 voltei a cozinhar goulash (a viagem à Hungria e a vida que se tem gozado desse modo);

- Em 2020 comecei a cozinhar para o meu tio, cujos colegas de trabalho pedem para provar o Goulash e a sopa vietnamita que leva para o trabalho (chupem, o covid não deixa essas proximidades!);

- Em 2020 comecei a ir ao supermercado da minha rua e à mercearia da minha rua (esta semana, quando uma velhota levou o meu saco, foi-me assegurado que o devolveria, e assim foi) - vivo numa aldeia, embora cheia de serviços;

- Em 2020 comecei a comprar livros em segunda mão e agora custa-me muito comprá-los novos ao PVP costumeiro ou mesmo com 10% de desconto;

- Em 2020 fui a uma festa: a Feira do Livro;

- Em 2020 retomei relações antigas em torno de mesas intimistas, na casa dos amigos, com o cheiro deles e os objetos deles;

- Em 2020 percebi que estamos todos mesmo muito ligados uns aos outros;

- Em 2020 nasceram bebés sozinhos com as suas mães, e morreram pessoas sozinhas com os seus médicos;

- Em 2020 tenho tempo;

- Em 2020 perdi imenso peso;

- Em 2020 ganhei imenso peso;

- Em 2020 não fiz a limpeza de dentes semestral;

- Em 2020 ensinei a Rafaela a lavar os dentes;

- Em 2020 tentei aprender russo (agora sei ler em russo, embora não saiba o que as palavras significam);

- Em 2020 mantive contato com amigos de outras partes do mundo;

- Em 2020 ainda não sei se os amigos vão poder vir para soprar as velas;

- Em 2020 ainda não sei se vou poder receber a família para o Natal;

- Em 2020 ainda não sei como convidar o casal nepalês meu amigo para o Natal;

- Em 2020 o meu arroz doce é finalmente bom (Bimby linda);

- Em 2020 desenvolvi a ideia para um projeto em torno de livros;

- Em 2020 aprendi a amar de modo saudável;

- Em 2020 aprendi que o que vale no amor é aquele momento em que estamos com a cabeça no ombro da outra pessoa e sentimos o peito estremecer-lhe de gargalhadas por causa de alguma coisa que dissémos;

- Em 2020 o amor é universal;

- Em 2020 a internet mantém-nos todos ligados;

- Em 2020 a futilidade e a imagem perderam relevância - e os influencers afinal não servem para nada.

E podia continuar para sempre.

Mas fico-me por aqui, porque, e de modos inespesperados, e às vezes arrepiantes, está a ser um ano... wow. Inesquecível.

 

 

28
Set20

Carta às mulheres que continuam com homens execráveis


celiacloureiro

Isto não é um apelo feminista: é um apelo à integridade física e psicológica de um estrato social que são as mulheres, e é dirigido às que vivem relações tóxicas com homens que deviam estar internados em alas psiquiátricas, e que ameaçavam levá-las a elas à loucura – ou à morgue.

Há vários argumentos para uma mulher não deixar um homem execrável: um deles é que é pai dos seus filhos, e não quer que os filhos cresçam sem pai. Aqui talvez devamos atentar na definição de pai. Um pai não é o tipo que entrega uns trocos para as compras da casa, nem quem paga metade da creche, nem quem oferece um brinquedo aos miúdos no Natal. Há tipos que são pais sem um tostão no bolso, mas que tiram prazer da companhia dos filhos, que agem com cada pensamento direcionado ao melhor das crianças. Depois há tipos para quem estar com os filhos é um frete, um cansaço evitável, um aborrecimento de fim-de-semana. Os filhos como fardo, e o pretenso pai a destruir um fim-de-semana de amigos e copos por causa dos putos.

Para mim um pai é quem ama os filhos, quem os põe à frente de si próprio, quem canaliza para eles (e para o seu bem-estar) os recursos necessários para que possam crescer saudáveis e felizes. E atenção que os miúdos não precisam de muito para serem felizes.

Esclarecida a definição de pai, uma mulher, sobretudo se uma que trabalha, não precisa de aguentar uma relação abusiva por causa dos filhos – pelo contrário, se o pai maltrata a mãe, física ou psicologicamente, se lhe destrói a paz e a autoconfiança – priva-a da força necessária para cuidar das crianças. E as crianças, acreditem, não querem pais que maltratem as mães. Por muito que esses pais tenham os bolsos cheios de rebuçados flocos de neve.

Quando o homem aterroriza a mulher com ameaças, com mensagens que talvez pudessem encontrar até um enquadramento penal, com ofensas, com boçalidades que traduzem – resumidamente – que ele na realidade é uma besta, a mulher deve fechar a porta. Porque é que algumas mulheres são maltratadas – humilhadas, espezinhadas – por este tipo de homem doente, e não fecham a porta? Algumas não conseguem fazê-lo – porque ele as ameaça e persegue, por exemplo. Mas outros têm um bocadinho de respeito às autoridades e, sobretudo, querem preservar a imagem de santo perante a família e os amigos (em suma: esconder que são, afinal, a tal besta), e até as deixariam ir em paz. Isto é, durante alguns dias, ou semanas, podem até mentir, dar a entender que daqui por diante vão ser melhores. A mulher tem é de compreender que esses homens não têm melhor – aquilo são eles a nu, e depois de mostrarem a sua verdadeira natureza não há como varrê-la para detrás da máscara do cordeirinho de início de namoro.

E algumas mulheres deixam mais depressa um homem que as traia do que um homem que as maltrate. Porquê?

Uma relação tóxica destrói a mulher, destrói a família, destrói a conceção de família e relacionamento saudável para as crianças. Suga a alegria, a espontaneidade, os momentos bons de que as vidas devem ser férteis. Torna-se uma relação de interdependência que os destrói a ambos – um porque a alma apodrece ao fazer mal, outro porque a sensibilidade se estilhaça ao ser vítima de agressões gratuitas de alguém a quem, a todo o momento, se procura agradar. Espero que essas mulheres encontrem forças para se livrarem dos homens execráveis: acordem um dia e entendam que são mais, que merecem mais, e que o problema é que esses homens não sabem amar, não saber pôr-se no lugar dos outros, não querem construir nada nem sequer providenciar vidas melhores aos filhos que dão diligentemente andam por aí a fazer. Atenção: claro que têm o seu lado charmoso (manipulador), ou são bonitos, ou ótimos a fingir-se de arrependidos. Não caiam em nenhuma dessas tretas.

O feminismo fundamentalista dos anos 60 e 70 apregoava mulheres de pêlo no sovaco e que não precisavam de homens para alcançar sucesso. O feminismo de hoje em dia, mais consciente, sabe que o que importa é a felicidade da mulher. Que a mulher se cumpra psicologicamente, sexualmente, socialmente, e também, se o desejar, na maternidade e nos relacionamentos amorosos. O que não entendo é como é que algumas dessas mulheres de hoje, que sofrem nas mãos de homens abjetos, ainda não entenderam a verdade absoluta por detrás do famoso “antes só do que mal-acompanhada”.

Libertem-se! Os vossos pais não vos criaram para isto. Ou, se os vossos pais também viviam relações doentes, como não registaram o exemplo como um a não repetir? Libertem-se! Os vossos filhos não têm de levar com os danos colaterais da vossa relação apodrecida. Libertem-se! Merecem mais, merecem melhor. Nunca se rebaixem. À primeira ofensa, partam para outra. Há homens que avançam sobre a boa-vontade de uma mulher até a transformarem num caco, num ser humano que se auto-anula, num trapo velho. Libertem-se! Estamos convosco.

19
Set20

O que 4 dias de cuidado na alimentação e hidratação extra podem ter feito pela minha psoríase...


celiacloureiro

Tenho recebido várias mensagens privadas de pessoas que conhecem alguém que tem psoríase, e que por algum motivo não se parece muito com a minha, ou é exatamente igual à minha. A psoríase é uma doença muito complexa que pode causar vários tipos de lesão diferentes. Há quem a tenha por placas grandes e avermelhadas (como que continentes), e quem a tenha em pintinhas (como que ilhéus), e há quem a tenha apenas localizada e muito ressequida apenas nos cotovelos, joelhos e couro cabeludo. Eu, por exemplo, nunca tive lesões no couro cabeludo, no rosto nem nos joelhos. A minha psoríase começou com uma medalhinha no centro do peito, que foi crescendo e que não desaparecia de modo algum.

A psoríase é uma doença autoimune (o corpo combate-se a si próprio), crónica e não contagiosa, possivelmente despoletada por stress ou outros fatores psicológicos. No Brasil existem cerca de 5 milhões de pessoas com essa doença, e é encarada como algo que, não comprometendo a capacidade de trabalho do paciente, pode prejudicar a sua contratação e permanência num posto de emprego devido a discriminação quanto ao aspeto das lesões ou medo de contágio. Por esse motivo, a minha pesquisa sugeriu que há muito apoio do estado nessa doença, inclusive financiando medicamentos biológicos. O número de doentes em Portugal é de cerca de 250 000 (https://psoportugal.pt/), e o estado também garante alguns benefícios aos portadores da doença. Em primeiro lugar, existe uma “portaria” para doentes com psoríase, que garante comparticipação extra nos medicamentos com receita médica indicados para a doença. Isto porque muitos corticoides e pomadas/loções podem ser também indicadas para outras doenças que não apenas esta. O estado também financia tratamentos como fototerapia e medicamentos biológicos, desde que o paciente se disponibilize para acompanhamento próximo e para o camadão de exames de rotina a realizar para seguir essas terapêuticas. A minha dermatologista (a espetacular Ana Ferreira no Hospital dos Capuchos), disse-me que há imensos doentes de psoríase que não fazem tratamento. Não me espanta… a dada altura também me aborreci das análises, raio-x e testes à tuberculose a cada três ou quatro meses. Durante anos tomei Enbrel, um imunossupressor na altura com o custo de c. 1360,00€/caixa (continha 4 injeções de 25ml, que eu devia injetar duas vezes por semana no braço, barriga ou coxas). Era-me entregue gratuitamente na farmácia do hospital, e via outros doentes crónicos a levantarem os seus medicamentos com o mesmo ar resignado.

A psoríase pode evoluir para uma série de outras complicações, entre elas a artrite reumatoide, que é uma doença bastante debilitante porque ataca as articulações e dá dores atrozes. Tenho uma familiar que sofre dessa doença e tem fases em que se deixa ficar no sofá até que alguém surja para poder auxilia-la a levantar-se. Por todos estes motivos, mas também pela carga psicológica que a psoríase acarreta para o doente, entende-se que não é uma doença que mata, mas é uma autoimune que mói bastante, e a todos os níveis.

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Existem vários fatores que causam irritação na pele (diretamente) ou no organismo do doente que tem psoríase, como sejam:

- Tabaco;

- Álcool;

- Stress;

- Fritos;

- Açúcar;

- Glúten;

- Lactose (no meu caso);

- Alimentos processados em geral;

- Tecidos artificiais como nylon ou poliéster;

- Banhos longos e com água quente (a psoríase não gosta muito de água e muito menos quente, que pode irritar ainda mais a pele).

Alimentos passíveis de causar inflamação no corpo também despoletam crises de psoríase, porque o corpo intensifica o combate a esse “invasor”, e o resultado da luta é visível na escamação e vermelhidão da pele. Alimentos picantes, por exemplo, podem ter este efeito.

O combate à psoríase começa por dentro, o que pode ser mais difícil e bem mais exigente do que passar um creme com cortisona sobre as lesões (acaba por causar habituação e deixar de funcionar), injetarmo-nos numa base regular, ou tomar comprimidos que atuam sobre o organismo e as manchinhas, mas que custam a saúde do estômago (quando penso no sabor a borracha dos comprimidos que tomei, ainda sinto pontadas no estômago). Para se ter uma vida saudável apesar da doença, há que trabalhar a paz de espírito e fugir ao stress, trabalhar o corpo (tento fazer yoga, porque a qualquer instante a doença pode evoluir para aquela outra que nos come as articulações), cuidar da alimentação e manter um ritual de hidratação (chato) adequado.

Decidi escrever estas linhas para alertar os outros doentes de como isto é, acima de tudo, uma jornada pessoal. Há que entender o que irrita especialmente o nosso organismo, o que despoleta a psoríase, e ajudá-la com rotinas básicas (evitar os alimentos prejudiciais, evitar vícios como tabaco e álcool, hidratar a pele, ser rápido nos duches, apanhar sol ou suplementos de vitamina D sempre que possível – e indicado pelo médico). Como disse a minha dermatologista, “Eu nunca lhe disse para ir à praia, só lhe disse que precisa de apanhar sol”. De facto, este ano deitei-me a ler na varanda durante várias manhãs e os resultados foram quase imediatos. Fazia 30 minutos exatos de exposição, e senti-me muito melhor. As lesões perdem relevo e a pele começa a cicatrizar. Mas não chegou.

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Há muitos anos que não faço tratamento para a psoríase (desde 2015). Também não usava tratamentos tópicos nem tomava comprimidos. Simplesmente hidratava a pele com o creme de ureia do Istituto Español (1,99€ em primor.eu) e usava o gel de banho que melhor funcionou com a minha pele ao longo destes anos todos, D’Aveia PS (Pele Seca, Emulsão de Limpeza – c. 23,00€). Este último é de uma marca portuguesa, cheira bem, acalma muito a pele e faz imensa espuma. Mesmo com o duche rápido diário, acaba por durar uns 2 meses, se não mais. Basta umas gotinhas para uma pessoa com 1,50m como eu. Apenas estas três coisinhas funcionaram durante anos, e desconfio que a somar a isso haveria talvez o rescaldo de vários anos das injeções de Enbrel, e ainda o facto de ter mantido uma alimentação quase vegetariana durante mais de dois anos (significa que comia leguminosas e verdes, não consumia carnes vermelhas, cozinhava peixe e carnes brancas em receitas que valorizavam os vegetais). Entretanto, comecei a tomar antidepressivos e julguei que a própria tranquilidade que advém desse tipo de medicamento estava a contribuir para a quase não manifestação da doença.

O que mudou este ano? Além de retomar as carnes vermelhas, as batatas fritas, o leite comum (durante anos também só tomei bebidas vegetais), os iogurtes, o pão, bolachas, doces com fartura, também deve ter havido alguma angústia extra devido a esta situação de pandemia mundial. E, pela primeira vez em anos, senti a doença propagar-se para zonas do corpo onde nunca a tinha tido de todo (como por exemplo as costas da mão).

Há quatro dias postei uma foto da minha perna completamente tomada de manchinhas pequeninas, muito dispersas, mas vermelhinhas (ativas e em expansão). Nesse dia decidi recomeçar a minha dieta. Rejeitei o pão, os fritos, tentei evitar glúten (mais arroz e menos massas, que adoro), comprei um chocolate negro (apesar de o cacau, o café e o chá também irritarem o doente de psoríase, o chocolate negro sempre tem menos açúcar que é outro fator problemático), ignorei as Oreos que tinha no armário e comprei bolachas de água e sal para comer com queijo fresco. Comprei fruta (figos, manga, ameixas, amêndoas), verduras (muita sopa comi esta semana), salmão (as gorduras boas ajudam) e entupi-me de água e sumos naturais (maçã, manga e ananás). A água também é importante porque convém mantermos a pele hidratada… Só que eu bebo pouquíssima água, tem de ser pensado isso de beber água. Fui ao médico (consegui uma consulta super rápido no médico do meu posto) e pedi um creme para aplicação local que ajudasse. De salientar que só comecei a pôr o creme nos braços ontem, e que nem sequer toquei nas pernas com ele porque precisava de entender o papel da dieta nisto.

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Ah, também entrou em cena uma loção hidratante de farmácia com ureia a 10% (quando se tem psoríase, os hidratantes diários devem ter pelo menos 10% desse componente, segundo me explicou a minha dermatologista. Estes hidratantes são cremes comuns que podem ser comprados nas farmácias e parafarmácias sem receita médica. O meu é da ISDIN, Ureadin, 400ml custou c. 17,00€. Não estou a ser generosa na utilização e tem sido o meu aliado nos últimos quatro dias.

 

Resumindo, em quatro dias:

- Mudei a alimentação (derrapei ao beber 1 café, comer 2 cookies, 1 refeição com couscous, 1 pão e 1 pastel de nata – os erros aqui são a cafeína, o açúcar, o glúten), mas de resto tratei-me com carnes magras, grelhados, alimentos anti-inflamatórios (alho, legumes de verdura escura, frutos secos, tomate – comprei biológico e sabe muito melhor, e o salmão, a somar a muita água.

- Passei a dedicar-me mais ao ritual de hidratação diário (D'Aveia Emulsão de Limpeza PS como gel de banho e ISDIN, Ureadin 10% Ureia como loção hidratante);

- Fui ao médico e pedi uma pomada que ajude a controlar as lesões - saí de lá com uma Betnovate que custou uns módicos 2,51€ (sem acionar a portaria de doente de psoríase), mas creio que seja necessário receita que comecei ontem a aplicar nos braços;

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Passei um bocadinho de fome de açúcar, mas estou aqui a tentar decifrar esta feitiçaria que aconteceu na minha pele. Passaram quatro dias e as lesões já secaram (as das pernas sem ajuda da pomada, que só apliquei nos braços)…

Por isso, façam a experiência. Não descurem o papel da alimentação no controlo desta doença tão complexa. Agora, para comemorar, vou comer uma pratada de massa e mais logo volto a ser santa.

De qualquer modo, para melhor aconselhamento, procurem um dermatologista. 

31
Ago20

A questão da habitação digna


celiacloureiro

Quando o meu avô morreu em Abril, o contrato de arrendamento da casinha onde sempre viveu com os filhos expirou também. Era um contrato celebrado em 1975, e a senhoria há muito que torcia pela morte do meu avô para poder recuperar a casa. Tudo bem, é património que lhe pertence. O tio sairá, até Outubro. A odisseia de procurar casa é que tem sido muito amarga, e tem-me levado a muitas reflexões.

Em primeiro lugar, o meu tio tem 54 anos, a quarta classe, um emprego estável (embora apenas desde Maio, porque antes disso era cuidador do avô), e um salário diria que até bem simpático. Resumindo, o salário dele equivale ao que eu recebia ao fim de uns 5 anos a fazer uso da minha Licenciatura em Turismo. Não me parece nada mau para um homem nas suas circunstâncias, e é um emprego numa junta de freguesia onde têm manifestado apreciação pelo seu trabalho e intenções de o manter.

 

Dir-se-ia que tem as ferramentas certas para viver uma vida digna, com emprego digno e habitação digna, mas não. Não porque um T1 em Almada custa, no mínimo, uns 500,00€. Além disso, pedem referências do além, IRS, fiador, e sei lá mais o quê. Eu compreendo, porque ao longo dos últimos anos houve imenso investimento em imobiliário, as casas compraram-se, remodelaram-se e estão no mercado de arrendamento que reflete todos esses gastos, os impostos e ainda o lucro (mais ou menos) pretendido com o negócio. Mas a maioria dos portugueses – creio eu -, não tem como viver nessas condições. Há um T0 a arrendar em Almada Velha (onde os carros mal circulam e a cada duas casas há uma em ruínas cheia de bicharada) a 850,00€, "totalmente remodelado". Uff!

O mais chocante para mim tem sido a questão dos quartos alugados. Toda a gente aluga um quarto, a preços astronómicos, sem recibo, a exigir todo o tipo de papeladas, e nas circunstâncias mais absurdas.

Vi um “excelente quarto” a 500,00€ em Almada, e fiquei estupefacta. Até “referências” da pessoa eram exigidas. Vi quartos de toda a espécie, inclusive quartos partilhados – quem não adoraria pagar 250,00€ por uma cama de beliche e dividir o quarto com outras três pessoas? Hoje vi um quarto a 190,00€, mas dizia “partilhado”. Quando fui ver as fotografias, cheguei à conclusão que, se a pessoa tiver mau dormir, acaba na cama com o parceiro de indignidade imposta.

190 por cama.png

Falei ao telefone com inúmeras pessoas, todas elas com quartos para alugar em casas onde não habitam, e que desejam inquilinos sem animais, que não fumem, que tenham trabalho fixo ou que sejam estudantes, de preferência jovens e mulheres. Há um quarto a duas ruas de mim por 230,00€, pareceu-me o ideal porque o tio sempre viveu aqui. O senhor nem se dignou a responder-me. Outro, com um quarto na mesma localização a 250,00€, diz que só quer aceitar estudantes, prefere esperar. “É outro tipo de vida, sabe?”. É, acho que sei. E o que resta para um homem de 54 anos, com um salário razoável para este país de gorjetas, sem habitação própria?

Há dois dias fui visitar um sítio onde ninguém merece viver, e fiquei horrorizada. Trata-se de um bairro social ainda no concelho de Almada, mas noutra freguesia. Está a quatro ou cinco paragens de metro da minha porta (centro de Almada) e é um mundo à parte. A senhora era muito simpática, tinha uma voz doce e é conhecida de uma amiga da minha mãe. Enfim, não estava a lidar com uma estranha. Falaram em 180,00€ para o quarto, com tudo incluído, porque se tratava de uma casa num bairro social. Perdoem-me por, apenas aos 30 anos, descobrir o que é um bairro social.

A minha conclusão é que, quando se trata as pessoas como animais, algumas delas transformam-se mesmo em animais. Por favor, não interpretem mal a minha frase. Eu dirigi-me a casa de uma angolana com dificuldades que teve direito a habitação social, que trabalha e que já passou por muito. Eu é que nunca podia sonhar que o Estado atirasse pessoas para aquela realidade.

Por toda a parte se via muçulmanos, negros, pessoas de etnia cigana. Um mundo à parte, como vos digo. Não tenho absolutamente nada contra aquelas pessoas, e o que por vezes as possa tornar degenerados não é a sua cor, etnia ou religião, mas a segregação a que os vi ali expostos. Tive algum medo – porque senti que estava em terra de sobreviventes, e a sobrevivência por vezes toma diversas caras. Eu morei a algumas ruas dali, quando tinha 18 anos. E, uma vez mais, era outro mundo. Era uma área tranquila, com um jardim público muito sujo, isso é verdade, e com um supermercado frequentado por toda essa multiculturalidade de pessoas, mas até tinha um espírito bairrista. Dávamo-nos todos bem, a minha mãe é negra e tem amigos de todas as cores e etnias. Éramos uma parte tranquila daquela freguesia, por muito que as histórias más nos chegassem de perto.

Naquele bairro social, os prédios não têm porta. Pensar-se-ia que, se os prédios precisam de porta, ali precisam mais do que em qualquer outro lado. Havia lixo cá em baixo – pó, penas, plástico enrolado, garrafas, latas. Dentro do prédio, não fora. As paredes, outrora brancas, estavam todas amareladas, escavacadas, grafitadas. Vi mensagens de cariz xenófobo, racista, preconceituoso em geral nas portas, nas paredes, nas caixas de luz e gás. Por toda a parte graffitis, barulho, roupa estendida, tinta lascada, sujidade em geral. Subi as escadas (um prédio de uns seis andares sem elevador) de coração nas mãos. Como é possível que a senhora simpática viva ali? Como é possível que o Estado a tenha mandado para ali?

A senhora simpática abriu-me a porta. A casa cheirava bem, era ampla. Mas pobre, tão pobre! Tão maltratada… Cheia de remendos… levou-me ao quarto e eu senti que estava dentro de um filme. Daqueles sobre as misérias da América do Sul, ou daqueles sobre a Europa durante os anos de barbárie nazi. Uma miséria indescritível. O chão de tacos, irregulares, estava cheio de manchas e não vê cera há décadas. O roupeiro era barato e desengonçado. A cama era daquelas de pinho barato, mas já com história, e tão estreita que um homem adulto mal caberia lá. Um lençol preso por molas coloridas fazia as vezes de cortinado. A televisão (minúscula e antiga) estava pousada sobre dois tocos de madeira. A cama estava primorosamente feita, com lençóis limpos, e eu sentei-me nela acompanhada pela senhora simpática. A senhora simpática é muito bonita, muito doce de modos, muito cuidada. Unhas e cabelo perfeitos, e eu olhava-a recortada contra a parede atrás, suja, descascada, crivada de buracos, torta. Ela disse-me que queria pintar o quarto, queria torná-lo mais confortável. Aceitou tudo o que lhe perguntei: “o tio poderia pôr um pequeno frigorífico no quarto?”. Foi um amor, e comunicou-me que o preço não era 180,00€, que a amiga se tinha precipitado. O preço era 250,00€ mas podia aceitar um pouco menos. 230, talvez? Ficou 230,00€.

Ficou 230,00€ mas, ao sair daquela casa, ao chegar cá fora para tentar respirar, ao deparar-me de novo com aquela rua, aquele lixo, aquela fachada em ruínas, as pessoas à janela, tantos rostos diferentes, todos desconfiados – todos uma ameaça para mim – lamentei, lamentei que tenha sentido desse modo. Lamentei, acima de tudo, que aquela mulher esteja a viver de uma habitação que eu e o meu tio pagamos com os nossos descontos, e que esteja a alugar um quarto a um valor talvez 500% acima daquilo que paga de renda num sítio onde ninguém – absolutamente ninguém – muito menos crianças! – deveria ter de viver.

Vim para casa a sentir-me horrível. Como recusar o quarto sem a ofender? Como dizer-lhe que o meu tio não pode morar num sítio desses? Que uma pessoa que toda a vida viveu numa rua limpa em Almada, com hortas e jardins cheios de flores, não consegue viver naquele sítio onde tantas vezes nem a língua que é falada se compreende? Como dizer-lhe que, na minha sensibilidade, acho que daria um tiro na cabeça ao fim de uma semana ali? Que, quando o quarto me fosse insuportável, os barulhos insuportáveis, a sujidade insuportável, não teria como fugir para a rua para respirar ar puro, porque na rua há pessoas a vender droga? Na rua há pessoas a assaltar outras (a minha amiga e a sua mãe foram assaltadas ali, embora vivessem na parte “segura” da mesma freguesia). Um ambiente assim leva ao desespero, ao crime, ao suicídio, ao abandono escolar, aos antidepressivos, aos homens a tornarem-se bestas para sobreviver. Porquê? Porquê que se permite que alguém viva assim?

E o meu tio, que será feito dele neste contexto de ganância, de irrealidade, de miséria anunciada para todos? Encontrará um quarto digno? Irá viver para debaixo da ponte? Portugal, para onde vais assim tão desgovernado?

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