Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

26
Jan20

A ditadura da cosmética (a indústria e a nossa conivência)

- ou como descobri que tenho a cara suja -


celiacloureiro

Há uns dias, horrorizei a funcionária de uma parafarmácia com um hábito chocante. Tinha-me dirigido à secção das marcas sonantes para procurar dois cremes que pesquisei primeiro online. É que as minhas sobrancelhas andam sempre a escamar durante o inverno, e agora a pele ao redor também estava a ficar vermelha e irritada. De modo que fui pesquisar e o meu amigo Google sugeriu que pode ser dermatite seborreica. Antes de marcar uma ida ao dermatologista, decidi comprar um creme adequado para esse meu autodiagnóstico e ver se a coisa funciona. Depois de me esclarecer quanto aos dois cremes que me puseram em dúvida, perguntou-me como lavava o rosto. E agora pasmem: lavo a cara com água. Umas vezes morna, outras fria. Pronto, é isso, sou uma porcalhona. Fora as vezes em que uso maquilhagem, que são muito poucas, e em que passo desmaquilhante (em creme, toalhitas ou águas micelares etc.), não tenho o chamado ritual de beleza. Aquela coisa do instagram e das revistas? "A rotina de beleza de ....?", nope, não tenho. Basicamente, eu acordo, tomo banho e saio de casa. Quando saio do banho, considero que a cara já está lavada, foi esfregada com a esponja de banho. Se estiver frio, seco o cabelo à pressa. Se não, vou mesmo com ele molhado. No fim do dia, desfaço os nós do cabelo e lavo a cara (com água, em várias vezes) do fumo, suor, gordurices do dia.

A senhora começou a falar no pH da água, dos cremes de supermercado, disto e daquilo, e tentou vender-me um frasquinho de uma água qualquer coisa com “extratos naturais”, suave e sem perfumes, para eu, digamos, tirar o surro da pele.

Saí de lá apenas com o meu cremezinho básico (já de si bem caro), depois de lhe explicar que já usei a emulsão hidratante da Avène, o sérum mineral da Vichy 89, e mais uma panóplia de porcarias que às vezes me dá para comprar e que depois de duas utilizações nunca mais uso. Por isso não, dispenso dermocosmética a esse preço e com essas funções.

Porquê? Porque detesto sentir coisas na cara. Detesto sentir maquilhagem, detesto sentir cremes. Sinto que a minha pele não está a respirar, e está a absorver uma quantidade enorme de porcaria. Quando saía à noite, costumava pintar-me sempre para essas ocasiões. Entretanto, isso desapareceu e raramente ponho alguma coisa na pele. Também tenho muita dificuldade em pôr base. Faço a cedência ao BB cream, que costumo usar quando me pinto, apenas porque me parece menos agressivo do que a base. Nunca me pintei para fingir que tenho pestanas maiores, ou que tenho os lábios mais grossos, ou que não tenho sardas. Nunca usei a maquilhagem para esconder nada. Mas há quem o faça, e isso é um problema maior do que estético. É um problema de mentalidade. Creio que é melhor, até para a autoestima, preservamos o que temos, realçá-lo, talvez, mas não nos transformarmos em pessoas de plástico num mundo em que somos cada vez mais iguais, por via do sugestionamento das marcas e das influências digitais. É ver as manas Kardashians/Jenner, com os seus lábios, narizes, rabos e contornos faciais falsos. Milionárias de calções de ciclismo. Porque tiramos o cérebro da avaliação destes hábitos? Ou, se não quisermos julgar, porquê não pensar antes de adoptar esse tipo de excentricidade para as nossas vidas?

tmayohwalh3psby01rtn (1).jpg

É um mal que nos chega de todas as partes. No Instagram, há instantes, apareceu-me um anúncio de base a falar da sua capacidade de cobertura. Basicamente, tapa tudo. Tapa sardas, tapa a palidez, tapa sinais, tapa vermelhidões, tapa-te a ti. Há uns tempos, vi umas unhas de gel com pestanas lá coladas, na mesma rede social. É meio extremista, mas há quem o faça. Quando eu era pequena, a minha bisavó usava pó de arroz. Apenas. A minha tia-avó usava as unhas impecavelmente limpas, curtinhas e bem limadas. A minha avó nem isso, nem sequer pintava o cabelo. Nós agora temos de pôr creme hidratante, primer, corretor de olheiras, base, iluminador, blush, sombra, rímel, eyeliner, pó matificante e fixador de maquilhagem no fim. Nem introduzi o stick de contorno facial, que seria mais uma camada de claros e escuros. Para quê tanta porcaria?

Eu respondo: para os gigantes da cosmética fazerem dinheiro. Muitas vezes, o dinheiro vem das crianças que trabalham nas minas de mica que fornecem a matéria prima para os glitters e os highlighters. Já se luta por maquilhagem cruelty free para os animais, e que tal também free de trabalho infantil?

O segredo para contornar tudo isto não seria parar de abraçar hábitos nocivos para nós mesmos e para o planeta? Parar de consumir em massa, cremes e maquilhagem, inclusive?

A senhora que ficou chocada por eu lavar a cara deficientemente, tinha várias camadas de betume na cara, além de pestanas falsas, a boca pintada com aqueles batons mate que parece que estás desidratada, e podia atestar que aquela não era a cor da pele dela. Porquê que as pessoas se prestam a isso? Usam uma máscara todos os dias, mesmo quando o seu trabalho é dar conselhos de limpeza e de saúde. A sua autoconfiança depende dessa tal máscara? Julgam mesmo que podem sufocar a cara em toxinas e depois salvá-la com cremes e emulsões e séruns e tónicos faciais?

Screen-Shot-2019-04-22-at-1.29.10-PM-1200x641.png

Compram todas as novas teorias, como aliás as mulheres o fazem desde sempre (já no século XIX ficavam carecas de tanto usar ferros de encaracolar para estarem à la mode). Além disso, inventou-se a primeira máquina de encaracolar cabelos e as mulheres dispunham-se a passar seis horas ali sentadas. Porque é que nos deixamos ser escravas da beleza? Ou melhor, porque é que embarcamos com tanta facilidade no padrão de beleza que nos impõem?

Há uma indústria enorme por detrás disto tudo. Uma indústria que te convence a pôr pestanas falsas (que te envelhecem bastante), que te convence a usar unhas de gel (o maior flagelo estético do século XXI), apesar dos avisos de que a luz que os aparelhos emitem pode causar cancro de pele, convencem-te a fazer solário e, se não tiveres tempo (ou dinheiro) aposta no autobronzeado. Há quem use extensões, quem se banhe em perfume logo pela manhã e que quase me mata de alergia nos transportes públicos apinhados e sobreaquecidos.

Não sei se a boa saúde da minha cara se deve a andar tantas vezes limpa dessa quinquilharia toda (ou suja, na ótica da senhora da loja), mas a verdade é que cheguei aos 30 com uma pele boazinha. Esperaria chegar assim aos 40, e depois aos 50. Com as devidas rugas, mas sem a secura desértica de algumas peles maltratadas pelas águas tónicas, pelos séruns disto e daquilo, pelas esfoliações e máscaras, spas faciais e etc.

As mulheres libertaram-se de tantas coisas nos últimos cinquenta anos… Porque é que ainda se deixam escravizar e escravizam as outras com a ditadura da imagem?

https://www.theguardian.com/global-development/2019/nov/21/children-as-young-as-five-make-up-most-of-madagascars-mica-mining-workforce

https://www.health.harvard.edu/cancer/do-gel-manicures-increase-cancer-risk

Link das imagens:

https://www.express.co.uk/news/uk/506355/Slap-in-the-face-for-women-who-love-make-up

https://greatergood.com/clicktogive/ggc/terms-of-service

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D