A Ilha
celiacloureiro
A Ilha
Há uma coisa que eu repetia muito por casa, um pensamento que me ocorreu muitas vezes. Acho que vi demasiados filmes de sobrevivência e daí esse lugar mental ao qual regressei tantas vezes:
- Se ficasse sozinha numa ilha, do que precisaria de facto?
O que me leva a dizer às minhas irmãs, de vez em quando:
- Se vocês estivessem numa ilha, ia dar-vos jeito saberem fazer…
Ok, hoje é o dia três do nosso isolamento (voluntário, porque o Estado ainda não começou a mandar os malucos para casa), e graças às minhas invenções já destruí os casquilhos da casa de banho e da despensa (o da despensa para tentar repor o da casa de banho). Enfim… Hoje fiz arroz de cozido à portuguesa para o almoço, já comeram isso? Cozi lombardo, chouriço e farinheira, bem como cenoura, e depois fiz o arroz nessa água. Agora está tudo no forno encimado por umas rodelitas de chouriço.
Às vezes as minhas irmãs interrompiam-me com:
- Já sei, já sei, se estivéssemos numa ilha…
Isto é a nossa ilha. Fomos obrigados a repensar o que é, de facto, essencial. Alguns comportamentos de ontem parecem-me agora fúteis e desadequados, mas a vida corria a outro ritmo. Há uma semana abraçava e beijava os meus sobrinhos. Há uma semana exata estava a comer crepes no Choco & Nut, e havia uma fila de pelo menos meia hora para sermos atendidos. Há uma semana estava a receber visitantes estrangeiros (da Austrália, de Valência, da Madeira), que foram ao nosso escritório devido ao cancelamento da BTL, e que trouxeram consigo a marca de todas as suas interações. Há poucos dias estava a comprar uma mala à tiracolo online.
E do que é que preciso de facto, afinal? Da possibilidade de escrever. De livros para ler – tenho mais de 170 por ler em casa. De alguns alimentos básicos e criatividade a cozinhá-los. De uma rotina – não quero passar os dias de pijama e cabelo empastado. De limpeza e de um pouco de sol na varanda. Isto é a ilha…
Há pouco, um rapaz jovem com um bebé ao colo, acompanhado de outro amigo (ora empurrava um o carrinho vazio, ora o outro, parou e cumprimentou o conhecido com quem se cruzou. Houve direito a apertos de mão e palmadinhas nas costas, sempre com a criança empoleirada no braço. Isso levou-me a pensar se isto que estamos a viver não virá comprovar, para quem ainda tinha dúvidas, a teoria da seleção natural do Darwin. Os idiotas e inadaptados caem, enquanto os restantes sobrevivem. Acho que é isso, estamos a falar de sobreviver. Porque independentemente do grau de letalidade do vírus, qualquer caso que inspire um mínimo de cuidados está à mercê do equipamento médico disponível. E ontem, na Assembleia, dizia-se que temos 1400 camas com ventiladores. Somos 10 milhões, como tantas vezes repetimos. 10 milhões… Mas mesmo que sejamos 1401 infetados… que será desse 1, a quem a doença quiçá pouparia, mas a falta de equipamento não?
Sejam conscientes. Vão para a vossa ilha. É lá que estão seguros.
