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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

25
Jun24

Alentejo, here we go


celiacloureiro

Há demasiado tempo que dizia que o meu «sonho» era mudar-me para o campo. Com campo, não me referia a uma casa isolada numa estrada por alcatroar a 3 horas de Almada. O que imaginava era uma vida enquadrada numa pequena comunidade, mas com vizinhos (não necessariamente encostados a mim, mas é assim que será), uma moradia onde me livrasse por fim dos problemas do condomínio, do telhado, da limpeza das escadas e a coluna de água, com um espaço verde para os animais e para, um dia, aprender a jardinar.

Durante meses - se não anos - pesquisei continuamente essa possibilidade, mas sem coragem de dar o passo. A minha irmã era menor e a questão da escola era um dos pontos que me ia fazendo hesitar. O meu emprego era outro. De repente, a miúda estava prestes a concluir o secundário e eu trabalhava em casa. Valia realmente a pena continuar a acordar a meio da noite com o barulho dos convivas que saem do bar que há na minha rua? Valia a pena ser multada a cada três meses por não ter onde estacionar na minha zona, as filas intermináveis para a praia, o calor na selva urbana, o terceiro andar sem elevador, o chiado do metro de superfície aqui à porta, as escaramuças no café no piso térreo do meu prédio?

Decidimos que, surgindo a casa certa - a localidade certa, íamos embora daqui.

Ponderei muitas vezes adquirir uma casinha na aldeia da minha falecida avó - onde fui feliz muitas vezes, mas fica ao fundo da IP3, a 3 horas de Almada, para norte (e preferia ficar a sul do Tejo), não encontrei uma casa com um quintal adequado e conheço as fragilidades da aldeia, as discussões no café, os copos a mais, a enxurrada de visitantes de dentro e fora da aldeia em Agosto, todos estendidos à beira rio com o seu exército de Pinschers. Não havia qualquer incentivo para uma jovem de 18 anos ali.

Comecei a vir para sul, e acabei por aportar em Évora. Depois de meses à procura de casas, de repente uma por um preço decente, a precisar de reparações, como tantas outras. Posso manter a casa em Almada, adquirir a outra, remodelá-la e ficar com um plano B se o «campo» se revelar menos ideal do que imagino.

E é isso. Vou-me embora. Vou escolher os livros que vão e os que ficam. Vou (espero eu) viver no silêncio de uma pequena comunidade, com um nº de habitantes que está muito longe dos 1000. A 20 minutos de um Mercadona, de um centro comercial, de um cinema, de uma capital com ofertas culturais. No meio do calor - Jesus, é o calor que mais receio. Estarei a pouco mais de uma hora de comboio de Almada que, com os tempos, espero deixar de considerar «casa».

Espero poder organizar a minha cabeça, as minhas rotinas - com a ajuda preciosa da medicação para PHDA também -, ser mais produtiva, mais realizada, e andar por aí menos cansada.

Na véspera de assinar a escritura, de partir para essa casinha e de a ver com olhos de minha - com tudo o que a remodelação vai implicar em termos de tempo, stress, dinheiro, tenho medo. Sinto-me a sofrer sucessivos picos de ansiedade nos últimos dias. Estou assoberbada de problemas, de receios, de incertezas. Tenho ficheiros do excel com planeamento, folhas e folhas de cálculos e de calendarização. Há demasiada coisa que não depende de mim neste processo, e prevejo que terei de bater a muitas portas para pôr tudo a funcionar. Sinto-me um pouco agoniada, com vertigens, uma fome constante e um cansaço do tamanho do mundo. Vou ter de me mentalizar que será uma última corrida antes de, por fim, poder descansar à sombra da bananeira. Quero pensar assim. Não quero pensar que este passo que mais uma vez dei à revelia dos conselhos dos mais cautelosos me vai desfazer física e financeiramente. Não sinto que tenha muita margem para me desdobrar mais. Estou naquela fase em que entro no supermercado e vagueio, com um zumbido na cabeça, sem focar o olhar em nada. A medicação para PHDA não está a funcionar, estou completamente enterrada em tarefas. E o antidepressivo não tem dado conta da ansiedade. Dou por mim de dedos a tremer e cabeça a latejar demasiadas vezes.

Estou cansada. Exausta. Mas isto era necessário, e por isso vou lutar com todas as minhas forças e recursos para que se transforme na salvação pela qual eu tanto ansiava.

Respirar fundo. A meta já não está longe.

Só mais um bocadinho.

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