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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

09
Ago20

As amoras


celiacloureiro

A casa tem três andares. Estava deitada no último, sobre a cama de ferro. Duas das três janelas estão abertas e as cortinas quase translúcidas filtram o sol do fim de tarde. No segundo andar, alguém tomava duche e os vapores chegavam-me perfumados. Procurava a poesia que havia em mim: o jeito de observar as coisas ao meu redor, de me importar o suficiente para registá-las. Mas estou sempre cansada. Continuo a estar sempre cansada e a dormir demasiado. Pouco depois de acordar, já tinha sono. Pouco depois de almoço, tinha sono de novo. E, assim que regressei do rio, vi-me de novo sonolenta. Dormi tão bem, esta noite, que nem ouvi as crianças brincarem a jogos de mímica até tarde. Dizem que se riram, debitaram detalhes da brincadeira, mas eu não ouvi nada.

Quando vim dormir a minha sesta, disseram “vamos às amoras”, e partiram. Usaram uns chapéus de pescador que encontraram ao lado da porta, percorreram toda a aldeia até ao cemitério e debruçaram-se da ribanceira escudada de arbustos de amoras. Colheram-nas na palma das mãos, comeram-nas quentes e por lavar. Estão felizes. O mundo está a abrir-se para eles. Ontem, o R. escondeu-se de um menino francês atrás de umas bilhas de gás. O L. procurou-o para trás e para diante na rua, sem o encontrar. O francês perguntou algo ao pai, quando os dois foram apresentados. Depois disse-nos “esconde”. É a única palavra que sabe dizer em português, mas bastou.

A A. esfolou o joelho no rio, hoje. A dada altura, ela competia em velocidade, braçada após braçada, com uma menina aqui das redondezas. O R. juntava-se a dois meninos e procuravam seixos na beira da água. Sentada num bloco de granito, com o Dão aos pés, lia “A Morte de um Apicultor”, meio desligada do enredo, e meio deslumbrada pela beleza de algumas asserções.

Estou a gostar muito daqui. É a primeira vez que me vejo a sós com a gente da terra. Aprende-se imenso com os mais velhos. O senhor A., tolhido pelo Parkinson, percorre quilómetros todos os dias apoiado no seu cajado. Não o faz por necessidade: fá-lo porque lhe é intolerável estar parado. Conhece a minha cidade como a palma da mão, mas já não a pisa desde os anos 70. Significa que veio o metro de superfície e lhe alterou o rosto, mas não as nomenclaturas. O senhor A. contou que, em 1973, era cabo e foi instruído a trazer um prisioneiro de Viseu à Trafaria. O prisioneiro já tinha fugido várias vezes da cadeia em Viseu, era jovem e esperto. Na companhia de dois guardas, e de um motorista, o senhor A. viu-se na incumbência de o levar para o novo cárcere, sob ameaça de punição caso o deixasse fugir. As ordens foram as de o abater, caso tentasse fugir. O senhor A. não recebeu sequer um par de algemas para o manter imóvel, então, este senhor doce que só queria saúde para gozar a velhice, disse-nos como resolveu o quebra-cabeças: tirou os botões das calças do prisioneiro, tirou-lhe o cinto para garantir que, se tentasse fugir, as calças haviam de o atrapalhar. Por último, carregou a própria arma e mandou os outros guardas repetirem o gesto diante do prisioneiro, de modo a que este soubesse que não hesitariam em atirar. E assim se fez a travessia, sem gracinhas por parte do preso.

A história emocionou-me.

É interessante estar num local onde tanta gente conheceu a minha avó. Ela partiu, mas assim é como se estivesse mais perto dela. Hoje mesmo as senhoras da Associação Cultural do Vale do Dão montaram uma barraquinha no largo à nossa porta, a vender iguarias caseiras. Bola de carnes, pão, rissóis, pastéis de bacalhau, bolo mármore e bolo de chocolate e nozes. Quando fui aviar-me, uma delas reconheceu-me como neta da dona N., e disse que a avó era muito boazinha, e muito calma. Sinto-me em casa, aqui. As pessoas conhecem-se todas umas às outras - conhecem a minha família, lembram-se de mim em pequena. É como se não existisse só a pessoa que sou na minha cidade, mas há outra aqui. Outra que, ontem, pôde falar italiano no café, e a quem perguntaram se não se veria nesta vida, porque falta insuflar vida nova no interior - vida que tenha estudado, que acrescente valor, que arranque as aldeias a esta letargia. Há um sentido de comunidade e de entreajuda muito forte. A beleza da paisagem é inspiradora: mesmo quando o tempo está nublado é difícil considerar que haja alguém a sofrer no mundo. Mas há. Isto é um refúgio do mundo lá fora e creio que, se não fossem as minhas irmãs, seria uma opção séria a considerar.

Porque devo sacrificar a minha liberdade, a minha sanidade, para viver a vida que é esperada de mim? Knut Hamsun, Lars Gustafsson e Júlio Dinis acreditam nos poderes regeneradores do campo, da vida rural, da proximidade à natureza. E eu sinto-me tão sufocada na cidade… É como se o meu coração fosse verde, e os meus olhos só exultem perante o dourado do sol a pôr-se nas serras.

Esta pausa a que a vida me obrigou, não será antes uma oportunidade de repensar o que quero para o meu futuro mas, acima de tudo, o que desejo para o meu quotidiano?

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