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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

26
Out24

Castanhas e marmelada


celiacloureiro

img_7114_1_2500_2500.jpgNos dias 24 e 25 de outubro, tive o prazer de ir até Bragança falar com jovens com idades compreendidas, sensivelmente, entre os 14 e os 18 anos. Esse evento - provavelmente o mais gratificante como "oradora" até ao momento, foi em resposta a um convite da Biblioteca Municipal de Bragança, e veio acompanhado dos meus receios do costume. O de ser longe (6h30 de autocarro a partir de Lisboa!), o de ser perante jovens estudantes - que podem ser incríveis ou um pesadelo, por terem um olhar crítico incrivelmente exacerbado pela idade -, o de me sentir, por vezes, um embuste.

Preparei um Powerpoint bonito, no qual fiz questão de falar de muitas coisas que não apenas os livros. Na verdade, acabei por nunca falar especificamente dos meus livros - não fui para os vender -, fui, acima de tudo, para tentar mostrar a importância dos sonhos, de ler, escrever, e de acreditar, aos jovens. Acho que a geração que está a terminar o ensino obrigatório terá de enfrentar desafios muito mais complicados do que aqueles que a minha enfrentou. Vejo-os mais perdidos, com acesso a todo o tipo de informação, mas, regra geral, desmotivados e desinteressados. Esta descrição não se aplica propriamente aos jovens que conheci em Bragança e que se revelaram interessados, respeitadores, verdadeiramente promissores.

No dia anterior, tive uma jornada típica da pessoa com PHDA. O autocarro era no oriente, às 08h00, mas pus o desperador para as 07h33 e 07h43 porque entendi que tinha combinado com a minha amiga que trabalha lá perto pelas 08h00. Certo, pois.

Às 06h50 o telefone começou a tocar: ela estava à minha porta e eu estava a dormir ferrada. Saltei da cama, obriguei a minha irmã a fazer o mesmo, e descemos em dez minutos. A amiga informou-me que estes 10 minutos de atraso (saímos daqui às 07h00 e não às 06h50, como tínhamos conbinado sem que eu o registasse) podiam ser catastróficos. De facto, apanhámos imenso trânsito e, pelo caminho, tornou-se evidente que não ia conseguir chegar ao Oriente às 08h00. Então, cancelei o meu bilhete (Lisboa-Bragança, com troca de autocarro no Porto) e comprei outro (apenas Lisboa-Porto...) que me permitia estar a horas no Porto para apanhar o autocarro para Bragança (exato, o mesmo que acabava de cancelar).

Apanhámos o autocarro das 08h30 e a viagem decorreu sem incidentes. Almoçámos perto de Campanhã e nem tivémos de esperar dez minutos pelo autocarro para Bragança. À terceira vez que o leitor de QR code falhou, caiu-me a ficha: eu tinha cancelado os bilhetes. Pois bem, pela segunda vez no mesmo dia, a PHDA fazia-me pagar por bilhetes que já tinha comprado anteriormente, e por sorte havia lugares livres no Flixbus.

Seguimos para Bragança, onde nunca tinha estado. Jantámos italiano no hotel, tinha intenções de trabalhar mas foi desde logo evidente que não ia conseguir. Estava cheia de sono, moída da viagem. Chegámos ao destino às 16h00 depois de sair de casa às 07h00.

No dia seguinte, parti sozinha para a primeira escola onde faria a apresentação. Fui recebida por uma bibliotecária absolutamente amorosa (como aliás, se revelaram todas), com um xaile muito acarinhado pela sua dona e uma guitarra portuguesa à minha espera.

Os jovens foram chegando, foram-se sentando e, em breve, senti que estavam todos de olhos em mim e de ouvidos atentos às minhas palavras. Falei sobre a minha infância, sobre a vergonha que podia ter-me cortado as pernas, sobre o meu pai, a minha mãe, ser criada por avós, ser pobre, ver nos estudos e nos livros uma forma de sair dessas circunstâncias. Sobre as consequências do que fazemos agora para o futuro.

À tarde, seguiu-se uma sessão semelhante, mas com outra biblioterácia igualmente amorosa a receber-me. À noite, houve sessão do Clube de Leitura de Bragança, e, como escritora convidada, pude sentar-me a ouvir pessoas admiráveis - cultas, pessoas comuns que se elevam diariamente através da leitura - a discutirem Maquiavel. 

Depois, falei dos meus livros, do mercado, dos livros que vendem e que agradam a todos e dos que nem por isso. Uma vez mais, senti-me muito bem acolhida e abraçada, tanto que a sessão se estendeu quase até às 21h00. Provámos marmeladas caseiras e deram-nos mel de Montesinho, azeite de Trás-os-Montes e punhados de castanhas, é tempo delas. Fomos então jantar no Príncipe Negro, um restaurante familiar com comida ótima - toque caseiro - onde nos pusémos a falar com a proprietária e a filha até passar da minha hora de dormir. Uma vez mais no hotel, nem sequer tentei trabalhar: sabia que estava exausta, foi só encostar a cabeça na almofada e dormir.

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No dia seguinte, fechei as apresentações com chave de ouro perante a maior audiência, onde, uma vez mais, me vi perante jovens capazes de ver por entre ideias préconcebidas e que, quero acreditar, estão dispostos a dar uma oportunidade à leitura. Falámos do que somos, tirando as camadas de gostos voláteis, de roupa da moda do momento, da religião, que é determinada pela geografia, etc. Ainda que não acreditem em nós, nunca devemos deixar de acreditar que conseguimos tudo aquilo a que nos propusermos, foi a mensagem principal que tentei passar.

Recebi inúmeros cumprimentos de professores - inclusive de História, que tanto amo - e assinei livros para pessoas que acreditam no seu poder. Conheci pessoas maravilhosas e trouxe os brigantinos no coração.

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Viémos embora num autocarro direto ao Oriente depois de um almoço excelente (mas rápido) no lindíssimo Solar Bragantino, onde entrámos por acidente. Uma estante à sombra de um dragoeiro, junto à janela e com um título de Hemingway em destaque pareceu-me o sítio certo para estar àquela hora, ainda que estivéssemos perdidas quando lá entrámos.

Durante a viagem de regresso, passámos pelas paisagens de cortar o fôlego do Alto Douro Vinhateiro, e descobri que o Ludovico Einaudi tem um novo single, Pathos, que me levou para aquele sítio especial (dentro de mim) onde o que sou e o que faço dão as mãos e sei que estou no caminho certo e que vale a pena esforçar-me para continuar.

 

 

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