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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

03
Abr20

Desilusão


celiacloureiro

Ultimamente, a minha casa transformou-se no meu refúgio. Nem tenho vontade de sair, porque a cada vez que o faço fico horrorizada com o que vejo nas ruas durante este estado de emergência.

Nos últimos anos deixei quase por completo de frequentar locais públicos, por incapacidade de tolerar o comportamento coletivo dos portugueses. Não digo que os defeitos que aqui destaco sejam só dos portugueses, mas dói-me que também sejam dos portugueses. Deixei de ir à biblioteca para trabalhar, porque a biblioteca, que devia ser um refúgio de silêncio e reflexão, tem sempre pessoas a bichanar em volumes variados, quando não os próprios funcionários. Deixei de ir a estreias de cinema, por muito que queira ver o filme. Cometi a parvoíce de ir ver A Bela e o Monstro com a Emma Watson, quando saiu, e posso dizer que houve flashes de máquinas fotográficas ao longo de todo o filme. Quando a cena da dança se insinuou no ecrã, quase ceguei com tantos disparos na direção da tela. Depois fui ao instagram e, através do hashtag, descobri uma série de imbecis que tinham partilhado fotos de péssima qualidade (o flash...) com frases inspiradoras a propósito do quanto tinham apreciado o filme. Para eles apreciarem, eu não podia apreciar. Paguei bilhete igual ao deles para ser fustigada pela sua incapacidade de viver em comunidade...

Em breve deixarei de ir ao cinema de todo, porque o último filme que fui ver (Jojo Rabbit), tinha um gordinho à minha esquerda, algumas fileiras abaixo, que esteve sempre a receber e a enviar mensagens de whatsapp no telemóvel. O som estava desligado, mas a minha atenção fugia do ecrã para aquela luz insistente a bailar ao meu lado. Alguém me explica porque é que alguém paga um bilhete de cinema para arrastar para uma sala escura o seu engate de whatsapp?

Fui a um dos dois concertos de Ludovico Einaudi, foi no Coliseu (salvo erro). Meia hora depois de o concerto ter começado, à porta fechada, ainda havia gente a chegar. Ainda havia flashes desses que chegavam em direção ao palco. Passou, como sempre, o aviso de que é proibido filmar ou fotografar, mas trata-se de pessoas que não sabem ler. Eu seria incapaz de violar um pedido de um artista que admiro. Chama-se respeito, mas muita gente desconhece o termo. Se eu fosse o artista, ao primeiro flash interrompia o concerto para exigir que a pessoa fosse retirada da sala. Repito: chama-se respeito.

Na rua, ontem, esperei pela minha vez para fazer compras na Auchan mais próxima. Situa-se numa via principal da cidade e permitiu que observasse o movimento. Porque havia movimento. Havia pessoas a relaxar em bancos públicos. Famílias a passear em bando. Crianças, o que acho chocante, a passar as mãos em todas as superfícies. Pais que não sabem amar os filhos. Famílias que não receiam pelos seus velhos. Mas, acima de tudo, gerações de pessoas que não fazem caso, não se previnem, e se acham intocáveis. E o trabalho, e a economia? Poderiam por favor ir para casa, em vez de acharem que o Estado há-de salvá-los financeiramente do colapso? O Estado está a fazer a sua parte, falta que o povo faça o mínimo: ir para a porra das suas casas e ficar lá.

Odeio chico-espertos. Odeio ociosos. Odeio excepções. A excepção defrauda a ordem. E estamos, neste momento, entregues aos chico-espertos e aos ociosos. Eu adoro regras, adoro que existam porque, se cumpridas, as regras garantem que todos vivemos em harmonia, sem pisar o estado de ninguém e sem que pisem o nosso.

As autoridades são brandas, como brandos são os costumes deste país. O governo tem agido bem, até me sinto orgulhosa porque não quereria estar sob autoridadade de nenhum outro país neste instante. Mas e o povo? E o povo que sai com os filhos à rua? Que passeia aos pares? Que se senta em bancos de jardim? Sobretudo os jovens que se passeiam rua acima e rua abaixo de carro, aos três por veículo, a patrulhar vias onde polícia nem vê-la, a acharem-se os donos do pedaço, imortais e indestrutíveis? 

Hoje soube que ainda há cabeleireiros abertos. Quem iria a um cabeleireiro agora? Só um perfeito imbecil. E, infelizmente, este país está pejado de perfeitos imbecis.

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