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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

17
Mar20

Duas colheres de café


celiacloureiro

Por um lado, tenho medo do filme de ficção científica que está a passar-se para lá da minha porta. Por outro, não consigo deixar de pensar que, apesar da sombra de falência, colapso financeiro, desemprego e miséria generalizada, a minha geração precisava disto.

Nós desconhecíamos o significado de liberdade. A definição de direitos, os conceitos vagos de fome, de dificuldades. Estamos habituados a sair à sexta para o nosso restaurante favorito de comida de fusão, e ao sábado para um lounge onde um cocktail custa o mesmo que um livro.

Isto é a nossa Terceira Guerra Mundial, e não é uma guerra de países contra países, mas uma guerra de cientistas contra um vírus de fácil propagação, e de governos contra os interesses económicos das suas nações a favor do valor máximo da vida. Também é uma guerra de pessoal médico e auxiliar contra a falta de investimento das nações na saúde, e contra a falta de condições generalizada.

É uma guerra que expõe as fragilidades dos povos e dos governos, e deixa mais ou menos a claro que a religião ou Deus não têm qualquer utilidade para a resolução dos verdadeiros problemas. Quando o Vaticano anunciar o apoio financeiro que dará à crise mundial que se avizinha, quiçá eu mude de ideias. Nos entretantos, somos pessoas diferentes. Tornamo-nos, a cada dia, diferentes. Crescemos e tornamo-nos mais criativos na adversidade. A minha cunhada já descobriu que o sabão azul e branco substitui a pastilha da máquina da roupa, eu tenho feito bolos e farei pão, algumas pessoas descobrirão, em breve, que o papel higiénico não é essencial.

Hoje de manhã fui até à farmácia. Esperei uns quarenta minutos pela minha vez, e apenas tinha três pessoas à frente. O protocolo a isto exige, por segurança. Todos esperamos tranquilos, apesar do vento, do frio, do desconforto de estar ali em pé. Olhei para a copa da árvore que derramava flores lilases na minha cabeça, e dei-me conta de que, este ano, a primavera não vai ser nada do que eu tinha imaginado. Eu queria ir até à Casa da Cerca ver a horta deles, ver como anda o centeio, o trigo e a cevada que, no verão encontrei dourados e prontos a colher, e que no inverno se tinham recolhido à terra. Queria ir até lá sentar-me no banco onde, em abril do ano passado, terminei de ler Cem Anos de Solidão sob canteiros de lírios amarelos. Será que já despontaram, esses lírios?

A nossa guerra é silenciosa. (Exceção feita ao boi do vizinho que hoje bateu o portão da quinta às 05h46). Fora o vento, quase não se ouviam motores nem vozes na rua. As pessoas têm medo de se abordar umas às outras, não vá o outro aproximar-se. E, malvestida, com o cabelo por lavar porque decidi que tomaria o duche diário no exato momento em que chegasse a casa (e não antes de deixá-la), dei-me conta que isto é o tipo de matéria que sai nos livros de história. Ali estava eu, na fila ordeira da farmácia. Pouco depois lá ia o novo eu, aviar-se do que havia nas prateleiras do supermercado. Já não era um eu impaciente, a correr, a despachar a lista de compras e a escolher o que queria trazer. Era eu a ver o que há, para disso me aviar. Isto é a espécie de racionamento de que a avó falava. Ou a minha amiga Maria, cujos avós polacos e os pais narraram a vida na União Soviética, quando, com ou sem dinheiro, corrias o risco de chegar aos mercados e descobrir as prateleiras vazias. Ainda que as prateleiras se esvaziam por burrice das pessoas, e não por falta de víveres ou distribuição, é certo que todos temos de nos adaptar ao ir menos vezes às compras, e por isso acaba-se sempre por trazer mais. Hoje não comprei carne, porque o talho não tinha multibanco e eu não tinha dinheiro. No talho ao lado havia multibanco, mas também havia fila. Tive de escolher, e escolhi a segurança do lar. Disse, cá em casa, “não consegui carne”. "Hoje não consegui carne." Em quantos livros li eu essa frase sem saber o que significava e que se repetiria na História?

Cada pedaço de pão é sagrado. Reparo em cada colher de café que despejo no leite, de manhã. Tenho algum receio que tudo acabe, embora não me atire ao desespero do açambarcamento. Eu estou preparada, toda a vida estive preparada. Mas a fome é uma coisa estranha. Sobretudo esta fome, de que padeço: a fome de me entupir da minha glutonice, de ir aos crepes, ao nepalês, ao McDonald’s, ou de dar um passeio no Parque da Paz, ou fazer a tal visita a Monserrate e encher a barriga de queijadas. Esta fome de comer um gelado a meio da tarde só porque sim. A fome de ver os sobrinhos a qualquer hora e de abraçá-los e de jogar jogos com eles. A vontade de ir ao frango assado quando não me apetece cozinhar… A saudade de quando um beijo e um abraço não eram coisas potencialmente letais para os mais frágeis...

E estou por aqui. A trabalhar num anfiteatro de uma rua deserta, demasiado receosa para oferecer um café ao rapaz que anda a reparar-nos as varandas todo salpicado de água neste dia gelado. Consciente dos bens que tenho em casa – a quantidade de farinha, de pão, de leite, de ovos, de peixe, de legumes frescos e congelados. Tudo foi garantido, certo e cómodo, substituível, até há uma semana.

E agora conto as colheres de café que verto na água, de manhã… E ainda bem, porque a vida nunca mais será a mesma, e esta é uma guerra silenciosa, sem tripas nem obuses pela estrada.

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