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Célia Correia Loureiro

Célia Correia Loureiro

19
Jan20

Escrita por fórmula


CCL

Como escritora, com certeza terei as minhas manias e os meus pontos recorrentes. Há assuntos que, de tão pertinentes, de tão pessoais (mesmo sem o serem), insistem em revisitar todos os meus livros. A violência doméstica, por exemplo, é um tema que me é difícil de contornar, e o motivo é simples: está em toda a parte. Em cada aldeia deste país, em todos os tempos que eu escolha para escrever. Como não criar um novo calhamaço em torno dela? Com muita força de vontade... Há mais a dizer, digamos outra coisa num outro volume.

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Ontem à noite estava a ler um livro da Nora Roberts que a minha mãe me trouxe. É da Harlequin e compila duas histórias num único volume. Cada história tem cerca de 250 páginas. Tinha lido a primeira há uma semana, talvez, e atirei-me à segunda porque tinha o cérebro demasiado parado para me lançar a um livro bom. Costumo ler estes livros mais light como se servissem para limpar o paladar, função que cumprem com louvor.

 

Qual é, então, esta questão em torno da escrita por fórmula?

Acho que não temos dificuldade em nomear uns quantos autores que se apoiam num nicho específico, numa fórmula reproduzida a cada novo volume, para construírem o seu percurso literário e fidelizar leitores.

Nora Roberts é, sem dúvida, uma dessas escritoras por fórmula. Tanto o é que num livrinho em que os editores compilaram dois enredos da sua autoria ficamos na dúvida se ainda estamos a ler a mesma história. A premissa é a mesma: mãe solteira, filho rapaz, acaba de se mudar (ou precisa de mudar-se), muito independente (na realidade cheia de medo de uma nova relação devido a traumas passados), tipo simpático, ambos lindos de morrer. É tão parecido que dói... Parece que o autor teve um esforço mínimo de imaginação para pôr este livro cá fora e receber os direitos de autor. E funciona, não estou a dizer que não funciona. Quando quero um livro lamechas, com final feliz garantido, pego nestes livritos feitos à medida para não me defraudarem as expetativas. Não se esperando muito, o sucesso é garantido!

Talvez aquilo que sai mais caro a um autor seja precisamente a imaginação. Por isso temos alguns autores a regressar aos mesmos temas, a alinhavá-los segundo a mesma fórmula, uma e outra e outra vez.

 

Alguns exemplos abaixo:

Dan Brown (cria-se uma personagem indispensável a investigações, mas ainda assim leigo nas questões policiais/legais, e constrói-se uma série em torno dele. A pessoa que estiver a patrocinar as suas descobertas é, quase decerto, o vilão!)

José Rodrigues dos Santos (ler descrição para Dan Brown);

Nicholas Sparks (gente a passear de barco, a beijar-se à chuva, o problema de um ter dinheiro e outro não, geralmente é a rapariga de classe alta e o rapaz carne para canhão numa obra qualquer);

Margarida Rebelo Pinto (mulher muito independente, mas na realidade carente até à quinta casa, muito liberal a nível sexual, dividida entre dois - ou mais - homens, sendo que nenhum deles a trata especialmente bem e ela passa as páginas todas do livro a tentar esquecê-lo mas a vê-lo em cada pacote de leite);

Sveva Casati Modignani (foi a minha grande desilusão, porque consegui avançar bem na obra dela no fim da minha adolescência antes de descodificar a fórmula. Mas cá vai: rapariga linda de morrer do Sul pobre e socialista de Itália é cobiçada - ou apaixona-se - por um barão das indústrias de Milão e toda a gente lhe diz a cada três páginas como é linda, forte e maravilhosa, e que superou imenso);

Lesley Pearse (no caso da senhora Pearse bastaram-me três livros para retirar a fórmula: mulher linda de morrer é admirada por toda a gente ao seu redor e elogiada, mas ela não se acha assim tanta fruta e tudo de mal que lhe pode acontecer acontece, isto enquanto toda a gente salienta o seu azar e a sua força colossal!)

Nora Roberts (a acrescentar ao assunto lá de cima: mulher das artes ou homem das artes fica obcecado com pessoa que conheceu num encontro casual e a arte daí por diante só funciona com o convívio com o outro. A dada altura, ele vai dizer "estou a cortejar-te, ainda não reparaste?" e ela vai dizer "porque é que não fazemos sexo?", porque elas são sempre muito desinibidas e têm a iniciativa. Também pode dar-se isto tudo mas com fadas, elfos ou bruxas à mistura, numa Irlanda que os irlandeses não reconhecem como sua)

Outros há que pegam em temas universas - quais temas, é o amor, pronto! - e esmiuçam-no com frases que se querem chocantes, reveladoras, life changing! Mas que são só ar. E conseguem vender muito, mesmo muito, a plagiar o próprio trabalho, a fazer copy/paste e reciclagem do que lhes trouxe a fama em primeiro lugar. Por sorte, as pessoas crescem e vão-se enjoando. Muitos desses autores da nova geração de pseudo-sentimentais não sabe - ou não consegue mesmo - escrever um romance, no sentido formal da coisa.

Escrever um romance é difícil, ah pois é bebé.

Questões prementes: quais são os escritores de fórmula a que voltamos sempre? Podemos considerar os escritores de fórmula tão talentosos como os escritores que se reinventam a cada livro, trazendo novos temas, novas inquietações ao leitor?

O escritor de fórmula será um mero empreendedor (será a escrita o seu ganha-pão, o seu emprego das 9h às 18h?), enquanto os escritores de talento ganham menos mas a escrita é a sua vocação, o seu dom? O jeito para as palavras, como para qualquer arte, será mesmo um dom ou pode ser treinado? Podemos exercitar a imaginação, a linguística e a inteligência para conceber romances infalíveis no mercado, ou a capacidade de criar vidas é inata? Podemos ser todos, mediante muito treino, Cristianos Ronaldos do mundo editorial?

Duvido.

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