Está tudo tão quieto...
celiacloureiro
É estranho. Nas últimas duas semanas, implodi. Permaneço funcional, rio, distribuo amor (ocasionalmente mau humor), cozinhei, trabalhei, lavei roupa, li (embora devagar).
Mas é que está tudo tão quieto ao meu redor...
Começo a habituar-me a esta sensação de estar constantemente sozinha. Uma solidão que pouquíssimas vezes consegui mitigar na vida, porque sempre me senti, de algum modo, incompreendida. É difícil ter-se compreensão e perdê-la, ou abdicar-se dela.
Hoje perguntaram-me, ao almoço, como me vejo daqui a alguns anos. São conversas boas, porque a pessoa diante de mim quer mesmo saber a minha resposta. Está tudo muito quieto ao meu redor, é o que lhe explico. E por muito que esteja tudo tão quieto, é melhor assim. Pergunta-me se me vejo com alguém, se me vejo com uma família. Não vejo. Nem quero. Cheguei aí - não quero. As pessoas, por malícia ou franqueza, desiludiram-me tanto... Estamos todos tão centrados em nós mesmos. Às vezes nem nos conhecemos. Repetimos os mesmos erros uma, e outra, e outra vez. Como é que sabemos se estamos a agir por lucidez ou por carência? Por vontade ou porque a solidão, às vezes, se torna ensurdecedora?
As crianças que me rodeiam são deliciosas, mas eu não consigo imaginar-me a viver em prol de outro ser humano. Se a criança que em tempos tanto quis estivesse aqui, a esta hora estaria a secá-la, a mudar-lhe a fralda, a medir-lhe a febre ou a arrancar os cabelos a tentar adormecê-la. E assim estou aqui, e está tudo tão quieto ao meu redor... À exceção da Clair de Lune, que esteve lá em todos os momentos quietos da minha vida.
Às vezes pestanejo e sinto que passou uma década. Mas passaram dois dias. Há muros, barreiras, obrigações. Quero tanto a casinha rodeada de tílias... Cedo ou tarde, vou acabar na casinha rodeada de tílias, onde tudo será silêncio e reflexão. Talvez aí descubra os segredos da existência, o porquê de eu respirar, aqui e agora. E quiçá escreva algo que ajude os corações humanos a partir desse recanto de erva-príncipe e lúcia-lima.
Tenho saudades da avó. Tenho saudades do pai. Tenho saudades do meu irmão - posso ter ao menos um dos dois de volta? Tenho saudades dele. Porque me parece tudo um tremendo desperdício?
Tenho saudades da minha infância, quando pegava num caderno, numa caneta, e me sentava num banco com a janela aberta. Para lá da janela recortava-se o céu de verão, as silhuetas dos pinheiros gigantes do seminário. Todos os meus sonhos se projetaram naquela tela, e talvez eu soubesse tudo já aí. Já estava tudo tão quieto aí, quando era de madrugada e eu aproveitava a luz do candeeiro de rua para escrever, porque tinha medo que a avó me apanhasse e quebrasse o silêncio ilícito das minhas reflexões. Ainda lhe oiço a voz comovida de sono e de indignação, como se eu a ferisse, a ofendesse: Célia, estás a gastar luz a uma hora destas?
E eu a projetar tantas coisas bonitas nessa janela, a ouvir a Clair de Lune. A pensar que o tempo havia de trazer-me outra coisa que não quietude. A sentir-me sozinha, sempre sozinha. Por muito que na época os amigos fossem muitos, os irmãos ainda mais. Eu regressava a casa, ao meu quarto ou à marquise, e para lá dos vidros foscos a lua estava cheia, e eu tinha tempo para a admirar. Acendia um cigarro, às vezes sentava-me no telhado de zinco e contemplava o silêncio e a quietude ao meu redor. Parece que já antevia o vazio que havia de estar lá sempre. Parece que já sabia que a avó havia de se ir embora. Que o pai iria logo atrás. Que o avô, embora pareça imortal, também há-de ir. Para sempre. Desde essa quietude que me agarrei à magia e aos momentos de maravilha que a vida me tem oferecido, e que têm sido tantos... Parece que sabia que um dia teria um vislumbre de amor, e que depois viveria sem ele. De tal modo que sei - simplesmente sei - que não voltarei a escrever sobre amor. As coisas que morrem não regressam, nunca. Tornam-se pó ou, se quisermos ser poéticos, poeira de estrelas. É a mesma coisa. O riso, as lágrimas, os ruídos dos beijos, os abraços, o calor, a textura da pele, as palavras, sobretudo as palavras, desintegram-se. Escapam-se para o universo, expandem-se para um buraco negro e tudo cai em silêncio, escuridão e quietude.
O cheiro do avental da avó, a sua silhueta à janela a cortar as unhas com a tesoura da costura, desapareceram. A voz da avó, que por enquanto subsiste na minha memória, talvez um dia seja esmagada pelo peso dos anos. Talvez um dia eu pestaneje e tenham mesmo passado 20 anos, e eu já não me lembre do seu riso, do sacudir dos seus ombros, das mãos pousadas nos joelhos e dos pés largos nos chinelos velhos.
Mas porquê este silêncio opressivo, demolidor? Porque está tudo tão quieto, e eu na bruma química dessa quietude? Eu perante a noite, enorme. Eu perante os dias, todos iguais.Eu sempre cansada, mesmo quando rio, mesmo quando durmo, mesmo quando leio, mesmo quando escrevo, mesmo quando engulo as vitaminas, mesmo quando está sol. Eu a ausentar-me enquanto conduzo, a esvoaçar por aí e a regressar à consciência no meio dessa quietude gritante. Eu a querer escrever, mas não há emoção para despejar no papel. Fiquei vazia de tudo. Até do sentimento de injustiça, de desânimo, de perda. Nada. Não sinto nada. Caramba, está mesmo tudo muito quieto cá dentro.
Pergunto-me se uma pessoa pode esgotar-se. Creio que, esgotando-se, saberá que está esgotado. Que acabou. Que deu tudo, que é só isto. Toda a gente deve ter um fundo, e acho que estou no meu fundo (não fim de linha, mas fundo, embaixo de tudo, tudo o que havia estava por cima e deixou o frasco). Acho que a pessoa, quando chega ao seu próprio fundo, sente que acabou para os outros e, em certa medida, para si também. Não quero, eu não quero.
E, porque não quero, porque me despeço sempre, porque a voz da avó não vai voltar a sobressaltar-me de madrugada, enquanto escrevo...
Sinto que tenho sido despojada da miúda que fui, que ria, que dizia graças, que se rojava no chão e que arranhava o cotovelo nos muros, que brincava às famílias, que tinha nomes para os Nenucos, que escrevia histórias em cadernos de folhas pautadas e que acordava ao nascer do sol para ver a natureza a despertar na serra Algarvia, com as pernas a baloiçar para lá da eira. Em harmonia com essa quietude, que na época me fazia sentir plena.
Está tudo quieto. E quieto há-de permanecer.
