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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

28
Jun24

VIII Força


celiacloureiro

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Tenho sentido muita necessidade de desabafar, ultimamente. Cada um tem as suas lutas e a minha não é mais dura do que a de muitos ao meu redor, mas tantas vezes me sinto sozinha. Penso, agora que me vou conhecendo melhor, que isso se deve a vários factores que me «isolam» por trás de uma série de circunstâncias improváveis, quando combinadas, mas usuais quando isoladas. Infância difícil. Doença autoimune. Ferozmente independente. Infelizmente, nunca pude contar com os meus pais. A ajuda aconteceu muitas vezes no sentido contrário ao natural. Tantas vezes carente, tive poucos momentos em que me senti realmente vista, compreendida. Ex-romântica; pessoa que luta diariamente por tomar decisões com a razão, e que, no fim das contas, vai sempre ao sabor da intuição, tantas vezes do coração. Escolho sempre com que tipo de culpa prefiro lidar.

Confio muito na minha intuição - li, algures, que quem tem PHDA também tem boa intuição, talvez porque tenhamos tendência para (presumivelmente) reconhecer padrões. A verdade é que sempre achei que tinha alguma facilidade em ler as pessoas e as situações, o que não me isenta de cometer erros de vez em quando. Regra geral, confio no meu discernimento.

Há bocado, estava a consultar o processo de aquisição da minha casa atual e tropecei num e-mail meu para o banco, enquanto esperava que libertassem a tranche seguinte do valor do empréstimo para as obras. Nas minhas palavras «Se o arrependimento matasse...».

Fui dramática? Fui. Mas ainda bem que encontrei esse e-mail. Ainda bem que fui sincera em 2018. Assim, a Célia de 2024 olhou para aquela frase desenxabida e soltou um longo suspiro. Lembrei-me de como foi difícil fazer as obras nesta casa, esperar, mudar-me, ver o dinheiro a desaparecer. Usar o meu salário para pagar o salário dos trabalhadores, na íntegra. Ficar a negativo. Arrancar o cabelo. Chorar quando metia a chave à porta, porque era duro, era tudo novo, apesar de tudo eu só tinha 27 anos, tinha duas miúdas que precisavam de mim, queria colo. Não tinha colo. A avó tinha morrido, o pai tinha morrido, eu não era mãe, não podia ser irmã, mas tinha de dar ordens, de orientar, de gerir - a partir de todas as minhas fragilidades, todos os meus defeitos, todos os meus fantasmas. Com ajuda da psicóloga - que nem soube ver que em cima de tudo eu tinha uma depressão e déficit de atenção. Senti esta casa como muito «nossa» desde o início. Foi lindo vê-la nascer, embora me tenha sentido tão impotente como agora e na altura só me sentisse capaz de funcionar em modo automático. De me arrastar para o maldito quarto andar sem elevador que tinha acabado de escolher para viver. Eu cresci numa casa com um balde a recolher a água da chuva na cozinha. Com a porta para as traseiras presa por uma fita a um camarão na parede. Tantas vezes sonhei que essa porta se abria durante a noite, que o mal entrava por ela. Cresci a olhar para a racha no tecto (tecto esse que desabou mesmo, quando eu já não vivia lá), e para a humidade que se acumulava na impotência do branco da tinta. Cresci com remendos, com portas e torneiras e azulejos desencontrados. Os avós sentados em cadeiras de plástico que faziam as vezes de cadeirões. A mobília herdada - sempre que falecia um parente, chegavam louceiros e louça e sofás e estantes e televisões e leitores de vídeo e DVD. Cresci com uma janela na marquise onde a massa já pouco fazia para suster o vidro fosco, e sonhei tantas vezes que não conseguia fechá-la, que a ameaça vinha, o gato fugia, e a janela não colaborava. Cresci com muita liberdade e com o amor incondicional da minha avó, em melhores condições do que pessoas que conhecia pessoalmente, mas sempre com o sonho de ter uma casa. A minha casa. Tantas vezes me pareceu impossível ter uma casa. Tanta boa gente que eu conhecia e que trabalhava arduamente e que não conseguia ter uma casa. E eu na internet, quando a tive aos dezasseis anos, a percorrer os sites das imobiliárias, a sonhar com uma casa... A minha casa. Sem mal, sem ameaças, sem humidade, sem portas que não fecham. O catálogo do IKEA sempre acarinhado, rabiscado. O sonho anual renovava-se. Como eu, outros sonharam. Não alcançaram. O meu pai não alcançou, viveu a vida toda na mesma casa, foi ele que instalou o atacador na porta do quintal, e que pôs uma bacia no lavatório para receber a água quando a canalização começou a dar problemas e a deixar de escoar. A minha mãe lutou muito, teve alguns refúgios, mas acabou por perdê-los. No final, estava tranquila no seu sofá, mas mereceu mais. Mereceu melhor.

Faltou-lhes qualquer coisa que eu tive. A teimosia? A garra? A recusa em aceitar as minhas circunstâncias? O colo da avó? Eu tinha o colo da avó. O avental da avó. A mão surpreendentemente suave da avó. Ajoelhava-me no chão e punha a cabeça no colo dela. Sonhava alto, e ela, às vezes, duvidava. Duvidava que tantos livros me levassem a outro lugar que não o oculista. Duvidava que escrever livros viesse a servir para o que quer que fosse. Duvidava que um curso superior me conseguisse um emprego. Duvidada que o salário pequeno me tirasse de casa. Ela tinha medo, tinha muito medo. Talvez porque não tivesse metade da minha sorte - ou uma estrela guia tão forte como a minha. Se calhar, não teve quem a amasse como ela me amava. Algures, no caminho, decidi que tudo haveria de ser possível e que ia conseguir chegar onde quisesse, ou morreria a tentar.

Hoje tive um pico de ansiedade à tarde. Pensei que ia ter um ataque cardíaco. Foi do metilfenidato, do peso das responsabilidades, do trabalho por concluir, do psicólogo só com vaga para agosto, da luz que só iam ligar em 5 dias, da reserva de alojamento não reembolsável e que seria agora desperdiçada. Do dinheiro que é bem provável que seja curto para todos os problemas que a casa nova tem. Do sono que senti enquanto conduzia de Évora para Almada, o peso nas pálpebras, a música que não me despertava. O cansaço. As costas. A impotência. Os quilómetros. A distância. Os animais mortos nas estradas rurais. O voo das garças. As vacas na modorra da tarde alentejana, a reserva de caça, o passarinho que arranquei, inadvertidamente, ao ninho. Deitei-me, fechei os olhos. Pensei que não é normal tomar um psicoestimulante e ter de dormir para acalmar o coração que quer saltar do peito, explodir em penas, em sangue. Não volto a tomar essa porcaria.

Em vez disso, trabalho como posso, quando as minhas limitações mo permitem. É difícil concentrar-me quando há tanta incerteza sobre o amanhã. Quando tenho fome mas não tenho forças para cozinhar. Quando odeio confusão mas não há estofo para arrumar. Quando sinto que estou a falhar em todas as frentes em nome de uma teimosia, um capricho, que por vezes só eu pareço acreditar que vai valer a pena, que vai ser a resposta.

A verdade é que a eletricidade será ligada na terça-feira. O alojamento não reembolsável será aproveitado. O psicólogo teve uma desistência para amanhã. A comunidade dos livros é incrível, embarca comigo em todas as aventuras, dá-me tantos abraços à distância, tanta força para continuar. Não tive um ataque cardíaco. Tive companhia para o jantar, sem ter de pedir nada, de procurar nada.

Também esta casa, esta mudança, me pareceu impossível, mas fez-se. Esta também me parece impossível, mas far-se-á.

Hoje consultei o Tarot.

A resposta foi positiva.

Só mais um bocadinho e poderei descansar.

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