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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

17
Abr24

Marraquexe - Parte II


celiacloureiro

Ficámo-nos pelas tajines num terraço sobre a praça. Descobri que, se o menu apenas anunciasse "tajine de beauf", podem crer que não há acompanhamento. Fui obrigada a pedir um bocado de couscous para engolir aquele pedacinho de carne, por sinal bastante tenrinho. Será por isso que quase todos os marroquinos se saíam com um batata frita quando descobriam que éramos portuguesas? Será que outros portugueses percorreram o caminho antes de nós e, quando se levantava a tampinha de barro do tajine, ficavam a olhar para dois cubinhos de carne cheirosa e apetitosa rodeada de molho fumegante, mas nem um arroz, nem uma batatinha a acompanhar?

Enfim, saltemos das tajines para o dia seguinte, durante o qual descobrimos que nada sai como previsto em Marrocos. Para começar, saímos cedo até às lojas que estavam abertas ao longo das ruas sinuosas que envolvem a praça principal. Já não estavam os 37 graus do dia anterior, por isso pudémos respirar. Depois de passarmos por brincos, luminária, tapetes, marroquinarias, sabonetes e perfumes em barra com profusão, e de inalarmos o perfume da hortelã, do âmbar e do sândalo a cada esquina, confirmámos que são quase exclusivamente homens que trabalham em comércio, mas também nas oficinas de corte e costura de cortumes, que se viam para lá das portas entreabertas ao lado das lojas. Há muito menos mulheres a trabalhar. Por exemplo, nunca fomos servidas por mulheres em nenhuma refeição, apenas vi duas jovens na caixa de restaurantes, mas nunca entre as mesas. Vi mulheres a guardar casas de banho, a recolher o pagamento de parques de estacionamento e a cuidarem dos quartos no nosso hotel. Nunca vimos mulheres no comércio, nem atrás das barraquinhas que vendiam pastelaria local nem sumos espremidos na hora.

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Por volta das 11h30, decidimos tomar um pequeno-almoço tardio perto da praça principal, num restaurante com uma decoração muito bonita, de nome Taj (havia vários com esse nome). Pedimos um menu de pequeno-almoço, que parecia bastante completo, com omolete, panquecas, pão tradicional, sumo natural e chá de menta, que nunca pode faltar, e também um sortido de doces locais. O total ficaria por cerca de 150 dirham. Quando a comida chegou - e o serviço foi bastante demorado em quase todos os restaurantes que frequentámos - perguntei-me pelos doces, mas assumi que seriam as tigelinhas com mel, doce de damasco e as panquecas com amlou, uma espécie de nutella marroquina, melhor ainda do que a original, segundo o meu gosto pessoal. Além disso, considerei que a espécie de legumes em marinada - cenouras, beringela, pepino (?) - como parte do menu do pequeno-almoço, de modo que começámos imediatamente a molhar o pão nos potes. A dada altura, aproxima-se o garçon para nos comunicar que trocou o sortido de doces por um sortido de saladas marroquinas, porque os "doces são para a sobremesa". Em suma, não mandamos em nada. Mas ríamo-nos porque fomos nesse espírito, deixámo-nos ir. Nunca me pareceu que estas mudanças fossem por maldade o ganância.

Passei a tarde a descansar no hotel, porque alguns dias antes da viagem tinhamos marcado um jantar no deserto de Agafay através da própria booking. Preferimos marcar tudo antecipadamente por uma questão de organização e gestão de custos. Ainda assim, e com o voucher impresso para nos virem buscar às 17h00 junto ao hotel, houve problema. Na madrugada anterior, recebi um "Hi" de um número marroquino no Whatsapp, que bloqueei ao acordar por ir ao encontro de outros "Hi" que recebo frequentemente de números da Nigéria e do Senegal e etc. Entretanto, estávamos no quarto de hotel e eram 16h00, com as jovens acabadas de chegar das compras no mercado a tomar banho e a perfumarem-se, quando decidi descer ao pátio inferior para apanhar um bocadinho de wi-fi. Comecei a ser bombardeada por chamadas e mensagens de Whatsapp da agência que organizava o tour, a dizer que, por ser Ramadão, teríamos de partir às 15h30 para apanhar o pôr do sol no deserto. Ora eu tinha fechado o tour e imprimido o voucher há nem uma semana, mas nem cheguei a enervar-me demasiado. Chamei as meninas e informei que estaria no local em 10 minutos, era o melhor que conseguia.

Fomos a correr debaixo do sol africano até à esquina onde era suposto irem apanhar-nos às 17h00, a perguntar-nos como era possível serem ainda 16h00 e já termos perdido a van. A dada altura, e perante a demora da guia - que não estava lá -, comecei a perguntar-me se não iria dar-se o caso de eles terem partido efetivamente às 15h30 e de estarem agora a voltar para trás por causa de nós. Disse-nos a agência, por Whatsapp, que eu tinha sido avisada, mas escolhi bloquear a guia. Enfim, situações. Confesso que estava animada por ser uma guia mulher, estimei que iria tratar-se de alguém com fibra. O meu pior receio confirmou-se: após quase meia hora de espera, para uma van do outro lado da avenida, apita e as pessoas põem-se a acenar-nos. Tinham, de facto, voltado para trás. Senti-me tão mortificada que subi para o veículo já com o telemóvel em riste, a dizer que o pick-up era às 17h00 perante os outros turistas. Claro que estavam lá as três portugueses trombudas e barulhentas do voo de ida, mas isso é a teoria que defendo no meu romance "Até os Comboios Andam aos Saltos". Se nos incompatibilizarmos com alguém, podem crer que havemos de nos cruzar muitas vezes.

A guia não gostou da nossa justificação, era uma jovem cheia de garra que me encostou logo ao canto e me disse que eu é que a tinha bloqueado. Ripostei em inglês que apenas o tinha feito por causa das fraudes com nigerianos e argelinos, e ela cortou-me com um:

"I don't care about you, you can leave if you want. People from Nigeria and Argelia are good people". Comi e calei, quem me manda generalizar? Gostei da atitude e prometi a mim mesma que, durante a viagem, iria pedir-lhe desculpa pelo meu nervosismo. Só não queria que todos nos detestassem na van por estarem prestes a perder o pôr do sol no deserto por culpa nossa. Como guia que fui, deveria saber que jamais se pode pôr um guia contra o grupo, o guia é o nosso principal aliado no tour, e esta acabou-se por se revelar isso mesmo.

As estradas não eram espetaculares e, logo à saída, vimos um motoqueiro no chão rodeado de outros motoqueiros, e não percebemos se estava vivo ou morto. Toda a gente anda de mota por ali, até casais com o bebé e o carrinho de passeio debaixo do braço, não me pareceu nada seguro, mas eles lá se orientam. Às vezes, eram aos quatros montados num motociclo.

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A primeira paragem foi numa cooperativa de óleo de argão. O nosso furgão - vou chamar-lhe assim, apesar de ter ar condicionado e de ser bastante confortável, por uma questão de comédia - parou junto a muitos outros absolutamente iguais. Fomos conduzidos para um jardim onde já havia várias mesas postas. Serviram-nos azeite marroquino - mais intenso do que o alentejano, adorei -, amlou e óleo de argão puro, que usam para temperar saladas (mas não para cozinhar). Molhámos o delicioso pão deles nos potinhos e pusémo-nos à conversa com duas italianas e duas amigas da Malásia. A minha irmã tinha lido A Guardiã do DestinoThe Rice Mother no original, sobre a invasão da Malásia pelo Japão, e estabeleu-se ali uma ponte para a nossa conversa. Eu também li esse livro, até a nossa avó leu esse livro, e foi muito especial estarmos ali, pessoas de mundos tão distantes, unidas sobre azeite marroquino em torno de um livro que li há 20 anos. Raios, foi mesmo. À saída, vimos as mulheres marroquinas a usarem uma espécie de mó para extrair o óleo do fruto da árvore do argão. Pareceu moroso, como tudo o que é tradicional e que usa o nosso suor como força motriz. Comprei um frasco de óleo de argão puro por 100 dirham e troquei algumas palavras com a guia. Pedi-lhe desculpa pela minha atitude e mostrei-lhe os "Hi" bloqueados no meu telemóvel, para ela entender a minha desconfiança. Disse-lhe que também trabalhei como guia e que admiro muito essa ocupação, sei como é cansativa. Com um sorriso e uma espécie de abraço, posicionámo-nos do mesmo lado.

À chegada ao deserto de Agafay - que os marroquinos dizem que não é o verdadeiro deserto, porque tem muitas pedras em vez de apenas areia e dunas - começámos a ver a poeira levantada pelas Moto 4. Um exército de Moto 4 logo à entrada mas, felizmente, à medida que avançávamos por estradas de terra batida, com nada que não aquela paisagem agreste à esquerda e montanhas distantes à direita, apercebemo-nos do isolamento em que estávamos a mergulhar. Bem no meio, havia uma espécie de acampamento montado, com tendas, almofadas, mesas postas com almofadas para nos sentarmos no chão, camelos acorrentados e um restaurante, casa de banho e até uma piscina. Havia também uma espécie de uma pira, um poço que me despertou curiosidade e que depois descobri que era o palco para o espetáculo - enfeitiçante - de fogo.

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Pediram-nos que guardássemos lugar - questão delicada, há muita ânsia por conseguir bom pouso para o seu grupo por parte dos guias, questão que levou a discussões acesas em que a nossa guia meteu os matulões a um canto - e depois a guia veio buscar-nos para irmos andar de camelo. Seguimos com o restante grupo - curiosamente, apenas não conseguimos conversar com as três portuguesas e um casal também português, que por vestir Lanidor nunca se dignou sequer a olhar na nossa direção. Paradas perante os camelos, o nosso coração de ocidentais começou a apertar-se. Não quero julgá-los, compreendo que quando se vive numa área sem nada mais a oferecer e sem bocas para alimentar, os camelos configurem uma fonte de rendimento aparentemente inofensiva. No entanto, não consegui participar naquele negócio. Havia camelos juvenis ou até mesmo bebés a seguir as mães, que iam acorrentadas. A dada altura, quando os camelos se baixaram para os turistas as montarem - incluindo das três amigas portuguesas e o casal que nunca mostrou os dentes - um deles soltou um urro que me destabilizou. Não cheguei a chorar nem a fazer nenhum tipo de discurso às pessoas que estavam comigo - nenhuma de nós quis ser cúmplice daquilo, nem nós as quatro, nem as italianas. Ficámos por ali a tirar fotos umas às outras, deixando os camelos na paz possível de quem percorre o mesmo caminho para a frente e para trás todos os dias, sabe-se lá quantas vezes por dia. Evoquei uma vez mais o "terror" que temos a camelos para não os montarmos e a guia não insistiu.

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Seguiu-se o jantar - o melhor couscous e tajine que comemos em Marraquexe, supostamente preparado por residentes locais. O que é certo é que a comida era verdadeiramente saborosa, e empurrámo-la para baixo com chá de menta. Seguiu-se um bolo de coco fofo e húmido que comemos já ao som da música berbere. A magia começou quando a noite caiu e as fogueiras se acenderam. Houve qualquer coisa de primitivo em ver pessoas a dançarem à volta da fogueira, ao ritmo daquela música hipnotizante e, em simultâneo, bastante animada. Pensei no meu próprio passado civilizacional, quantas vezes não se terão os homens e mulheres reunidos em redor de uma fogueira para cantar e dançar, porque não havia outro tipo de animação possível à noite, e era mais seguro estar-se junto diante das chamas, com as feras ao largo.

Voltámos para Marraquexe numa espécie de comboio de várias vans, a ouvir músicas internacionais. A alegria era tanta que concordámos em sair com as amigas da Malásia e a mãe e filha italianas, e pedimos para sermos todas deixadas junto à Medina. A partir daí, percorremos aquela que batizámos como "a rua dos ténis", porque era o paraíso da contrafação. Por toda a parte estavam expostos os modelos mais recentes de ténis de renome internacional, disponíveis por menos de 400 dirham. Um marroquino muito simpático quis acompanhar a italiana até um bar de shisha, e eu já imaginava que no final estaria à espera de uma gorjeta - outro aviso que ignorámos. Na verdade, penso que acabou por não levar nada - talvez uma comissão do bar para onde nos levou, visto que ficou a conversar com a recepcionista quando nos sentámos? Mas, se acham que pudémos fumar shisha, desenganem-se. Não havia shisha - consta que era preciso uma licença especial, como para o álcool. Não há nada na vida dos marroquinos/islâmicos que tenha qualquer ligação a álcool, Alá os abençoe. Não senti falta, mas vi o desespero sentado ao meu lado quando, ao terceiro bar experimentado, a única opção continuava a ser cerveja sem álcool. Bebi um cocktail sem álcool - Bora Bora -, absolutamente delicioso, principalmente no preço: 35 dirham (menos de 3,50€).

Conversámos sobre coisas de mulheres - amor e sexo, independência e oportunidades - à volta do globo. Trocámos contactos, tirámos uma fotografia todas juntas. Despedimo-nos com alegria e orgulho mútuo.

E assim terminou o segundo dia em Marrocos, cansadas mas felizes, uma vez mais seguras enquanto caminhávamos sozinhas pelas ruas escuras e cheias de animação - de cores, de brilhos, de vozes e de música - até ao nosso hotel na Medina.

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