Materialistas (mas pouco)
celiacloureiro
Não precisamos de 1h56 minutos para contar a história do trio principal de Materialists. Na verdade, é um duo com uma aparição curta e sem sal de um terceiro membro que só existe para empurrar o casal principal para os braços um do outro. Meh.
Pergunto-me se Materialists (2025) procurava assumir um tom de crítica social. Uma mulher com ambição, bem-sucedida, que valoriza a estabilidade financeira e a facilidade com que o dinheiro elimina obstáculos do dia-a-dia (como pagando estacionamento, em vez de dar voltas intermináveis na rua, sob pena de perder a reserva de um restaurante). Percebo que uma mulher jovem se permita esse tipo de fantasias, mas a Lucy (Dakota Johnson) já experimentou a vida com o tipo bonito e atencioso que a ouve e que não sai da cepa torta. Já sabe que não funciona e sabe exatamente onde a coisa sofre atrito entre si e o John (Chris Evans).
Sinceramente, ele nem sequer parece muito interessado em sair da cepa torta, e isso é o pior. O homem furioso, frustrado com as suas circunstâncias, masem contrapartida sempre dócil e disponível para a Lucy, não é sequer tão atraente quanto isso para a mulher que o filme nos apresenta: é claro que está a debater-se para sobreviver e que não tem nada para lhe oferecer. Uma mulher de 35 anos, como a Lucy, dificilmente estaria interessada em retroceder na evolução natural da sua vida. Estaria a chegar à idade dos filhos, da estabilidade. Depois de experimentar uma vida confortável, que mulher iria decidir, no momento mais crucial da sua vida, voltar para trás em tudo o que conquistou. Infelizmente, sendo realista, é o que iria acontecer. Ele iria puxá-la para baixo.
Depois, há o Harry (Pedro Pascal), um homem que, apesar do conforto financeiro, é gentil e também tem as suas inseguranças. A melhor conversa de todo o filme tem lugar entre a Lucy e o Harry, num restaurante elegante quando ela lhe explica – e bem – que ele tem condições para arranjar uma mulher muito melhor do que ela, em termos académicos e financeiros. Parece frio, mas existem barreiras efetivas que afastam pessoas de meios diferentes. São os ideais, o “normal” de cada um, a comida que apreciam, a casa e o bairro onde vivem, coisas simples como o carro que conduzem. Certo, todos nos levam ao mesmo sítio, mas com ou sem ar condicionado? Com ou sem vidros elétricos? Com ou sem direção assistida? Não digo que essas barreiras sejam intransponíveis, mas sê-lo-iam para pessoas com as personalidades que o filme nos traz. É difícil retroceder quando já experienciámos e nos habituámos a certo estilo de vida, e é bastante óbvio que a Lucy gosta da vida que leva e tem orgulho nas suas próprias conquistas. Como aparte, simpatizo com a atriz principal, mas sinto que a Dakota Johnson faz a mesma personagem em todos os filmes. Os mesmos maneirismos, a mesma cadência da voz e a mesma entrega ritmica e quase apática das falas.
É interessante refletir sobre a inevitabilidade do amor. Como uma mulher com tudo tão organizado, que se diz “fria” e calculista, seria capaz de abdicar da razão em prol do homem que ama sem entender porquê, contra todos os motivos lógicos? Por outro lado, e embora sinta que o filme acaba por romantizar essa realidade, é pouco credível que o desfecho fosse o que acaba por ser. Para começar, porque a Lucy não é uma caçadora de ricos, ela não procura um homem que lhe dê mais conforto do que já tem, ela só quer estar com um homem que, pelo menos, acompanhe as suas conquistas. Imaginem nunca poder ir comer a um restaurante bom porque a pessoa com quem estão não ganha tão bem e não aceita que vocês paguem. É nesse ponto que não entendo que a relação pudesse funcionar. Se, de repente, o John que ela diz que “continua igual” é, afinal, capaz de melhorar as suas circunstâncias de vida, porque nunca o fez antes? Ela não estará a acomodar-se a um tipo que nunca vai querer mais, nem melhor, porque ela já o aceita como é e com tudo o que tem? Não estará a comprometer-se com o mínimo dos mínimos?
A partir da perspetiva de uma mulher de 35 anos que batalhou para ter o que tem agora – casa, carro pobrezinho, mas com AC, e ocasionais jantares sem ter de escolher o prato mais barato do menu – não entendo que uma mulher que vivesse em Manhattan, onde tudo custa os olhos da cara, optasse por retomar uma relação antiga. Atenção, ela não teria de ficar com o Harry e o seu apartamento de 12 milhões, mas certamente que haveria de querer realizar sonhos como o de ir à Islândia.
Não gostei da mensagem do filme, da ideia de que uma mulher, para ser boa, para ter coração e não ser “fria” precisa de escolher o homem no fundo da cadeia alimentar que a ama, mas nada tem para lhe oferecer. Quando o vejo a comprar comida na barraca de cachorros-quentes no fim do filme, ótimo, é fofo e quem não gosta de um cachorro-quente? Mas romantizar esse estilo de vida como “simples e bom” não me parece produtivo. Parece-me mais uma forma de dominar as mulheres, pedindo-lhes que não subam quando podem subir, que se contentem com pouco, que se fiquem pelo que está ao virar da esquina e desistam dos seus sonhos de explorar o mundo. Que não sejam fúteis e não queiram casas bonitas, carros confortáveis, viagens de sonho e apartamentos elegantes. Aceitem o menos que o tipo que amaram na juventude tem para vos oferecer.

