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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

04
Nov25

Meditações


celiacloureiro

Há coisas que, ainda que acabe por as compreender relativamente a mim mesma, nunca conseguirei evitar – ou, pelo menos, contornar, amenizar.

Tenho meditado. Foi um conselho do meu psicólogo, que os dá muitos e úteis. Por algum motivo, esse foi o melhor que recebi até hoje. Tem sido uma experiência imersiva, intensa e inesperada. Na sessão de ontem, sentada em posição de lótus, permiti-me fazer uma viagem nova. As deambulações têm sido por sítios que costumo revisitar da minha infância, mas fui sempre uma mera espetadora, o repositório da memoir, que guardo deles. A meditação permite-me interagir com eles, deixar-me submergir por essas recordações, aprofundá-las e senti-las de novo. A partir de um sítio seguro e da maturidade que tenho vindo a construir.

Ontem, involuntariamente, chorei. Foi um choro orgânico que veio com aquela imagem avassaladora. Quando medito, vejo o mundo a partir de diversos ângulos. Às vezes, vejo o que tenho à minha frente enquanto percorro o antigo corredor da minha casa de infância, mas é mais frequente ver-me de fora, de cima, ficando assim com acesso a todo o cenário. Na imagem de ontem, vi-me talvez com um ou dois anos, de pé na caminha de grades, a apertar a proteção entre dedos húmidos de lágrimas e ranho. Chorava, assustada. Estava escuro e eu estava sozinha no berço. A minha mãe era um vulto inquieto na cama a alguns metros, mas recusava-se a resgatar-me. Aquele vulto disforme era tanto a minha mãe quanto um monstro que eu receava. Quando eu insistia, ela gritava-me qualquer coisa na sua voz mais colérica, exigia-me que me calasse. Sou capaz de ter adormecido de exaustão, sem que ninguém viesse. Sei-o não porque confie cegamente nas imagens que a meditação me proporciona, mas porque conheço a mãe que me criou nos anos 90. Sei que seria assim, é um guião fácil que nunca tinha visitado.

Senti o desespero que devo ter sentido nessas situações, e não duvido de que tenham sido verdade. O meu pai não estava em lado nenhum. Sei bem que sempre o apreciei mais pelo que não me “causava” do que pela ajuda que me dava. A minha mãe assustava-me, deixava-me apavorada. Ele era só uma presença benigna que, quando procurada, me abria os braços e me deixava subir para o seu colo nos cafés que frequentávamos depois de jantar.

Eu não fiquei com a minha mãe por muito tempo. As coisas mudaram quando o meu irmão nasceu, quando eu tinha 18 meses exatos. Talvez seja por isso que ela me gritava quando eu a chamava durante a noite: dormia mal, porque estava grávida, ou porque receava que eu acordasse o bebé. Sei que, aos poucos, fui transferida como uma propriedade de pouco valor para os braços da minha avó, e que isso foi o que me permitiu construir um futuro para mim. Porém, em termos emocionais, veio agravar o sentimento de desamparo anterior. A minha avó fez o melhor que sabia, mas sabia pouco. Moldada pelo que ficava bem, pela ideia que ela própria tinha de uma mãe – que deve suportar e sacrificar tudo – estava profundamente convencida de que a minha não gostava de mim. E não se coibia de mo dizer. Eu estava lá, embora a memória não esteja acessível. Ao meditar, contudo, é como se levantasse esse véu sobre os sentimentos e a projeção das conversas que se repetiam ao meu redor. “A mãe parece que não gosta dela”. “A mãe só quer saber do outro filho”. “A mãe não se rala se ela está bem ou se está mal”. Aos poucos, a minha avó ajudou a minar a minha relação com a minha mãe. Não o fez intencionalmente, mas foi aí que conduziram os seus reparos, os seus lamentos, as suas demonstrações de afeto para comigo. Dou-to, porque da tua mãe não podes esperá-lo.

Também foi sempre notável que havia eu e o outro, e que o meu irmão não era tão atormentado pelos rancores da minha mãe, embora também não lhes escapasse. Eu acho que isso se deve ao facto de ela ter sido destruída emocionalmente por uma mulher, a sua mãe adotiva, e depois por ter sido hostilizada por outra, a minha avó, que não a achava boa o suficiente para o filho. Ali estava eu, outra mulher, a massacrá-la.

Eu tenho recordações de andar de fralda e de ser perseguida pela minha mãe na sala da casa da avenida. Era um rés-do-chão cuja janela se elevava acima da calçada, numa avenida que era percorrida por motas a alta velocidade de madrugada. Sempre odiei o barulho dos motores das motas, das motas a rasgarem o vento em linha reta. Pergunto-me agora se não será por isso. Porque, no ventre da noite, as motas que aceleravam avenida acima ou avenida abaixo me acordavam, me assustavam. E então eu chorava e chamava pela minha mãe, mas ela recusava-se a sair da cama para me consolar. E, se o fizesse, era com brusquidão. Com repreensões. Com palavras duras e pesadas e embargadas de sono e de incómodo. Não me lembro de ter sido resgatada para junto dela como me lembro de ser abraçada pela minha avó quando tinha medo do Ambrósio, a personagem que alimenta os terrores noturnos das crianças que a minha avó achou que faltava na minha vida. É provável que eu já fosse uma criança irritável, além de impressionável, insegura e hiperativa. Em cima disso, havia o Ambrósio: um casaco de cabedal pendurado no pau da vassoura a bater na janela da marquise quando eu fugia ao que consideravam um comportamento adequado. Saltava para o colo da avó e ela ria-se, acolhia-me, pousava o queixo na minha cabeça. Mas só mais tarde é que conclui que ela estava a salvar-me do mesmo terror que me causara ao pedir ao meu pai ou ao meu tio para vestirem a vassoura com o casaco de cabedal e irem até à escada espetá-lo na janela da marquise.

Ontem, enquanto meditava, apercebi-me dessa imensidão de abandono, de desamparo, que é o alicerce de tudo o que sou. Já tinha recordação de querer fazer chichi durante a noite, estendida no berço, e de adiar até me descuidar porque sabia que a minha mãe ia rasgar a noite com gritos se eu a despertasse para ir à casa de banho. Também sabia que, se molhasse a roupa e os lençóis, ela ia gritar à mesma, mas mais tarde. Ela estava piamente convicta de que, sem memória do sucedido, não haveria mossa. Daí a uns anos, eu não teria como saber que a minha mãe não tinha paciência para as minhas impertinências noturnas. Eu conheço a minha mãe. Lembro-me de parte dos seus discursos e consigo preencher as lacunas daqueles que me escapam agora. Seria algo como “Nunca me deixam dormir em paz”. “Nem a dormir está quieta”. “É de propósito”. E, ainda mais frequente e doloroso, “Está bem é com a avozinha”, e “Isto é culpa da avozinha, que está sempre a mimá-la”.

Aos poucos, talvez porque os meus gritos noturnos não encontrassem ternura nem apaziguamento na presença da minha mãe, transferi o meu afeto para a minha avó. A somar a isso, lembro-me dos alfinetes de ama a espetarem-se-me na carne. Lembro-me do que é ser mordido nas nádegas. Lembro-me do impacto dos anéis de turquesa nos lábios e nos dentes. Sei o que é um lábio rasgado. Lembro-me, sobretudo, de como ela cheirava a álcool e de como se deixava rebolar na cama, a rir, quando por fim nos apanhava e torturava. Vou usar esta palavra, porque era tortura. Era tortura semelhante à que ela também suportou por parte da mulher que a adotou sem o mínimo de vocação para a maternidade, e ela quis expiar os seus demónios arrastando-nos, a mim e ao irmão que chegou logo a seguir, para a sua realidade em que lágrimas de riso se misturam com as de dor. Ela tinha um sentido de humor distorcido que, por sorte, foi ganhando sensibilidade com o passar dos anos. Os meus irmãos mais novos não passaram por nada disso. Desde que cresci – desde que aprendi a falar e a reportar o que me faziam – ela deixou de se comportar assim. Era um segredo só entre nós.

Com o tempo, passei a considerar que devia haver algo de errado comigo. É claro que também a hostilizava, mas não tinha maturidade para compreender que a minha frieza para com a minha própria mãe era um espelho da brutalidade com que tantas vezes ela se aproximava de mim. Eu odiava passar tempo na casa dela. Até quando era bom era mau. Como quando distribuiu uns quadradinhos de chocolate por mim e pelo meu irmão e se afastou a praguejar: “Quando eu era pequena, fazia com que um quadradinho de chocolate durasse dias, se fosse preciso. Estes devoram tudo”. Era asco e desaprovação e desprezo na voz dela. Ela fazia caretas quando nos dizia essas coisas, atirava os seus traumas para cima de nós como se não estivesse a moldar os nossos nesse mesmo momento. Por algum motivo, lembro-me dessa frase dela. Lembro-me desse dia. Tudo o que de sombrio havia no mundo era dela que me chegava. Era ela quem se ria quando nos assustava, era ela que achava graça às nossas lágrimas, às nossas tentativas de nos escondermos dos alfinetes e das dentadas.

Era ela que passava a tarde toda a dormir – porque estou convicta de que padecia da mesma exaustão proporcionada pela PHDA de que também eu padeço – e nos deixava entregues a nós mesmos com menos de 5 anos. Era ela que nos deixava com acesso aos animais que havia na casa, à varanda aberta sobre a cave, ao fogão a gás, à consola da chaminé onde o meu irmão bateu com o nariz, à bolsinha da sua maquilhagem que violei e que me valeu uma bofetada com as costas da mão. Era ela que nos deixava sozinhos em casa o dia todo quando ia para a Feira da Ladra, ao sábado, ou do Relógio, ao domingo, e quando chegava castigava-nos por todos os disparates que tínhamos feito para nos entreter sem supervisão.

Era ela que bebia na nossa presença e nos chamava nomes, e virava a mesa e fazia os objetos voar e batia com portas. Era ela que gritava quando o meu pai lhe respondia em voz baixa, porque “era um banana” e “só queria a mãezinha”. Era ela que me empurrava para a frente da porta do roupeiro com espelho depois do banho e agarrava no pente dos seus cabelos de mulata, crespos, e o passava furiosamente pelos meus cabelos finos e molhados, e ficava indignada quando eu me queixava, quando chorava, quando não queria que me penteasse. Porca. Lembro-me de sentir que ela me achava porca porque não gostava de me pentear.

Por tudo isso, nunca soube o que é ter uma mãe e “mãe”, para mim, sempre foi uma palavra carregada de amargura. Sobretudo quando havia um círculo próximo e o olhar da sociedade em geral a censurar-me por não ser capaz de gostar da minha mãe. Por lhe soltar a mão e atravessar a avenida movimentada a correr quando via a minha avó.

A meditação está a levar-me de volta a esse sítio onde descobri que nunca tive o colo da minha mãe. Nunca um beijo na têmpora. Nunca um suspiro conjunto, abraçadas. Nunca me cantou uma canção de embalar, porque talvez também nunca lhas tenham cantado. Nunca foi o porto de abrigo, a muralha protetora para a qual corria quando tive medo. Pelo contrário: sentir-me segura implicava, muitas vezes, fugir dela. Recusar-me a ir com ela. Dizer-lhe que não gostava dela com a esperança de que ela desistisse e desaparecesse.

Meditar leva-me a resignificar a imagem dos pulsos enfaixados da minha mãe, depois de os usar para estilhaçar o vidro do postigo da porta da minha avó quando a noite já ia tarde. Porque queria levar-me consigo. Queria desesperadamente levar-me consigo. Não ia embora sem que eu saísse por aquela porta e a deixasse arrastar-me no frio noturno até à sua casa. Uma vez lá – a minha imaginação preenche as lacunas da memória –, abria o frigorífico e tirava outro vinho de pacote, queixava-se da minha avó, lamentava os maus tratos do seu passado, dava a entender que eu lhe tinha sido roubada, arrebatada, e que era tão ignóbil que me tinha vendido aos carcereiros. Estava do lado deles. Não via que o meu pai não prestava para nada? Que a minha avozinha é que me virava contra ela?

E havia as sirenes azuis do carro da polícia na curva, as cortinas a agitarem-se e os vizinhos por trás, semiocultos, não era nada com eles, e a minha avó a vestir-me um casaco à pressa sobre o pijama e a dizer que eu tinha de ir com a minha mãe. O meu pai nem chegava a sair do quarto. Talvez eu não lhe importasse o suficiente para enfrentar a fúria embriagada da minha mãe. É provável que também aí voassem palavras que eu não devia ouvir, que acreditavam que eu não ia ouvir. “É maluca”. “Está bêbeda”. “Só se lembra dela quando está neste estado”. “Amanhã tem escola, deve chegar a uma bela hora”. “Deixa-a ir, se não ela não se vai embora e é uma vergonha por causa dos vizinhos”.

E lá ia eu, cordeiro sacrificial – digo-o agora, que medito e que sei o que é amar e querer proteger uma criança acima de tudo –, para que o silêncio fosse restabelecido na curva e a minha mãe partisse com o seu alcoolismo, os seus gritos inconvenientes e os seus pulsos rasgados. O sangue a escorrer-lhe por entre os dedos, os vidros no chão do corredor e as luzes da rua projetadas na tijoleira. E o casaco a ser-me enfiado enquanto eu fitava aquela cena, enquanto via aquele vulto para lá da porta a gritar o meu nome, rouco, raivoso. Célia, Célia. Vens comigo, Célia. Deixa lá a tua avozinha e o teu paizinho.

Foi preciso chegar aqui e meditar para perceber que nunca fui fria, nem má. Estive foi sempre sozinha, e talvez seja por isso que não me imagino a estar de outra forma. Nunca me vi como vítima, mas só agora entendo que, como qualquer vítima, precisei de resgate.

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