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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

13
Out24

O Pastor


celiacloureiro

Estou a dormir desde quinta-feira. É domingo. Na semana passada, dormi em Évora terça e quarta-feira. Na terça-feira saí para jantar ao lado do quarto que tenho alugado todas as semanas numa GuestHouse. Sentei-me, olhei para o menu e achei caro. Ultimamente, tenho achado estupidamente caro jantar fora, sobretudo quando comparando o valor de uma refeição fora com outros bens. Um jantar ali equivale a 2 livros em promoção, a 1 noite na GuestHouse a 300 metros da Faculdade, a 5 refeições no bar dos estudantes. A 4 bilhetes Almada-Évora ou Évora-Almada, na rede expresso. 

Acontece que meti conversa com o grupo de americanos na mesa ao lado. Quando dei por mim, estavamos a falar da vida. Eles bebiam vinho alentejano, eu fiquei-me pela água com gás do costume. Eram de várias zonas dos EUA, incluindo da Carolina do Norte, recentemente afetada pelo furacão Helene. Falámos de furacões, de vinho, do essencial. Concluímos que a geração deles trabalhou demais: ali à mesa estavam médicos, enfermeiras, uma advogada, um engenheiro. A enfermeira agarrou na minha mão, acariciou-a. Pensei que estava a captar a psoríase ou que ia ler-me a sina, ou assim. Disse, de lágrimas nos olhos, que a minha mão é o tamanho 4.5 de luvas de enfermagem, e que não produzem esse número. Que, depois de tantas décadas como enfermeira, ganhou o hábito de olhar para as mãos das pessoas e saber que número de luvas calçam. Percorreu os meus dedos com os dela e disse que estou a salvo da artrite por enquanto - condição tantas vezes de mãos dadas com a psoríase. As minhas articulações estão bem, de momento. Depois, disse-lhes que tinha escolhido ir viver para Évora porque é preciso pensar fora da caixa. Perguntarmo-nos onde precisam de nós e o que queremos da vida, e que o interior precisa de muita gente e de muitos serviços. A advogada, que era um doce, disse que a sua única filha se debate diariamente com o aumento do custo de vida na América, mas nunca ponderou ir para o vasto "interior" americano. Disse que ia refletir nisso. No que fazemos na cidade, quando podíamos estar melhor longe. Há uma semana, um amigo disse-me isso: porque vêm as pessoas para a cidade? E era suposto inferir que a resposta fosse "porque estão melhor aqui". Mas não. As pessoas vieram para as cidades - para a minha cidade, Almada - nos anos 50 e 60, para trabalhar nas fábricas de peixe do Ginjal, no gelo - como o meu bisavô. É o trabalho que move as pessoas. Havendo trabalho no interior, porque resistimos tanto a quebrar essa ideia pré-concebida?

No Mestrado de História, falamos da revolução do consumo e de, pela primeira vez na história, no séc. XIX, as pessoas terem começado a trabalhar mais somente para poderem consumir mais. É isso que nos prende à cidade. A ideia de que estamos no vórtice do consumo. Podemos consumir restauração com fartura, eventos culturais, podemos comprar ovos às 23:00 e abastecer o carro a qualquer hora, comer um hambúrguer cheio de colesterol e plástico de madrugada, podemos comprar toda a espécie de quinquilharia para a casa em centros comerciais, comércio local, outlets, feirinhas de rua, feiras artesanais, etc. Podemos embonecar-nos e gastar dinheiro com beleza e self care porque estamos rodeados de testemunhas. É consumo, tudo isto é um desejo de consumo desenfreado, enquanto falamos no planeta e em sustentabilidade e em poupança. Vamos poupar comprando em segunda mão mais um punhado de tralha de que não precisamos. Continuamos a consumir demais, a comer demais, a gastar demais e a trabalhar demais. Eis o círculo vicioso: e querem convencer-nos de que é tudo culpa do capitalismo, quando o capitalismo é só a expressão económica da natureza humana. Indulgente.

No século XVI, inventários de bens de falecidos revelavam que mesmo as classes mais podres possuíam produtos ditos "de luxo", ou evidentemente acima das suas capacidades. Pessoas no limiar da pobreza (com dietas que abaixo dos nutrientes diários necessários para uma vida saudável) possuíam açúcar. Com sorte chá. Talvez mesmo chocolate. É a nossa natureza.

Despedi-me dos americanos - que admitiram que os próprios filhos dizem que eles possuem demasiadas coisas dispensáveis. Pagaram-me o jantar contra os meus protestos. Cumprimentámos os brasileiros amorosos do Rio que nos receberam no Tempero & Prosa essa noite, e voltei sozinha para a GuestHouse. Prometi-me que trabalhava, precisava de trabalhar, mas os olhos fechavam-se por iniciativa própria. Não tive hipótese se não tentar dormir. Há noites que dormia 4 e 5 horas, e muitas vezes interrompidas por chuva, gritos, turistas e estudantes lá fora.

De manhã, uma senhora de 80 anos ou perto disso, fumava à porta de casa, de roupão cor de rosa. Tinha o cabelo branco crespo e solto caído sobre os ombros. Achei-a incrivelmente bonita, humana.

Fui até ao Colégio do Espírito Santo a pé, enrolada no cachecol de lã que comprei numa das lojas de souvenirs para turistas. Ia a ouvir O Pastor, dos Madredeus. Senti-me tão portuguesa. Portuguesa que há séculos e séculos que percorre aquelas estradas calcetadas, que se debruça sobre aquela mesma varanda alentejana para a planície mais além. Estudar num edifício do séc. XVI mexe com a intemporalidade da minha alma portuguesa. Já navegávamos então e continuamos a navegar. Enquanto avançava, sozinha, por corredores revestidos a azulejos do séx. XVIII, apercebi-me de que estava enrolada em lãs enquanto a maioria dos jovens ao meu redor estava de T-shirt e de top, os braços despidos ao sol matinal. E eu a sentir-me velha, a sentir-me arcaica, a sentir que percorria aqueles corredores desde 1550. Acordar é que eu não queria. Sou uma velha no meio destes jovens. E isso fez-me sorrir.

Cheguei a casa na quinta-feira, pelas 11:30, e ainda não parei de dormir. Com pequenas interrupções, mas tenho sobretudo dormido. Durmo o dia todo, durmo a noite toda. Deito-me às 00:00, tento ler, mas não consigo. Acordo às 12:30. às 14:30 (que são agora) estou de novo pronta para dormir. Acordarei lá pelas 17:00 para lanchar, e pouco depois estarei de novo na cama. Entre as 22:00 e as 00:00 talvez  assista a um pouco de televisão, brinque um bocado com os bichos.

Amanhã retomo a vida de trabalho. Agora, e desde quinta-feira, durmo.

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