Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

19
Set20

O que 4 dias de cuidado na alimentação e hidratação extra podem ter feito pela minha psoríase...


celiacloureiro

Tenho recebido várias mensagens privadas de pessoas que conhecem alguém que tem psoríase, e que por algum motivo não se parece muito com a minha, ou é exatamente igual à minha. A psoríase é uma doença muito complexa que pode causar vários tipos de lesão diferentes. Há quem a tenha por placas grandes e avermelhadas (como que continentes), e quem a tenha em pintinhas (como que ilhéus), e há quem a tenha apenas localizada e muito ressequida apenas nos cotovelos, joelhos e couro cabeludo. Eu, por exemplo, nunca tive lesões no couro cabeludo, no rosto nem nos joelhos. A minha psoríase começou com uma medalhinha no centro do peito, que foi crescendo e que não desaparecia de modo algum.

A psoríase é uma doença autoimune (o corpo combate-se a si próprio), crónica e não contagiosa, possivelmente despoletada por stress ou outros fatores psicológicos. No Brasil existem cerca de 5 milhões de pessoas com essa doença, e é encarada como algo que, não comprometendo a capacidade de trabalho do paciente, pode prejudicar a sua contratação e permanência num posto de emprego devido a discriminação quanto ao aspeto das lesões ou medo de contágio. Por esse motivo, a minha pesquisa sugeriu que há muito apoio do estado nessa doença, inclusive financiando medicamentos biológicos. O número de doentes em Portugal é de cerca de 250 000 (https://psoportugal.pt/), e o estado também garante alguns benefícios aos portadores da doença. Em primeiro lugar, existe uma “portaria” para doentes com psoríase, que garante comparticipação extra nos medicamentos com receita médica indicados para a doença. Isto porque muitos corticoides e pomadas/loções podem ser também indicadas para outras doenças que não apenas esta. O estado também financia tratamentos como fototerapia e medicamentos biológicos, desde que o paciente se disponibilize para acompanhamento próximo e para o camadão de exames de rotina a realizar para seguir essas terapêuticas. A minha dermatologista (a espetacular Ana Ferreira no Hospital dos Capuchos), disse-me que há imensos doentes de psoríase que não fazem tratamento. Não me espanta… a dada altura também me aborreci das análises, raio-x e testes à tuberculose a cada três ou quatro meses. Durante anos tomei Enbrel, um imunossupressor na altura com o custo de c. 1360,00€/caixa (continha 4 injeções de 25ml, que eu devia injetar duas vezes por semana no braço, barriga ou coxas). Era-me entregue gratuitamente na farmácia do hospital, e via outros doentes crónicos a levantarem os seus medicamentos com o mesmo ar resignado.

A psoríase pode evoluir para uma série de outras complicações, entre elas a artrite reumatoide, que é uma doença bastante debilitante porque ataca as articulações e dá dores atrozes. Tenho uma familiar que sofre dessa doença e tem fases em que se deixa ficar no sofá até que alguém surja para poder auxilia-la a levantar-se. Por todos estes motivos, mas também pela carga psicológica que a psoríase acarreta para o doente, entende-se que não é uma doença que mata, mas é uma autoimune que mói bastante, e a todos os níveis.

WhatsApp Image 2020-09-19 at 16.11.08 (1).jpeg

Existem vários fatores que causam irritação na pele (diretamente) ou no organismo do doente que tem psoríase, como sejam:

- Tabaco;

- Álcool;

- Stress;

- Fritos;

- Açúcar;

- Glúten;

- Lactose (no meu caso);

- Alimentos processados em geral;

- Tecidos artificiais como nylon ou poliéster;

- Banhos longos e com água quente (a psoríase não gosta muito de água e muito menos quente, que pode irritar ainda mais a pele).

Alimentos passíveis de causar inflamação no corpo também despoletam crises de psoríase, porque o corpo intensifica o combate a esse “invasor”, e o resultado da luta é visível na escamação e vermelhidão da pele. Alimentos picantes, por exemplo, podem ter este efeito.

O combate à psoríase começa por dentro, o que pode ser mais difícil e bem mais exigente do que passar um creme com cortisona sobre as lesões (acaba por causar habituação e deixar de funcionar), injetarmo-nos numa base regular, ou tomar comprimidos que atuam sobre o organismo e as manchinhas, mas que custam a saúde do estômago (quando penso no sabor a borracha dos comprimidos que tomei, ainda sinto pontadas no estômago). Para se ter uma vida saudável apesar da doença, há que trabalhar a paz de espírito e fugir ao stress, trabalhar o corpo (tento fazer yoga, porque a qualquer instante a doença pode evoluir para aquela outra que nos come as articulações), cuidar da alimentação e manter um ritual de hidratação (chato) adequado.

Decidi escrever estas linhas para alertar os outros doentes de como isto é, acima de tudo, uma jornada pessoal. Há que entender o que irrita especialmente o nosso organismo, o que despoleta a psoríase, e ajudá-la com rotinas básicas (evitar os alimentos prejudiciais, evitar vícios como tabaco e álcool, hidratar a pele, ser rápido nos duches, apanhar sol ou suplementos de vitamina D sempre que possível – e indicado pelo médico). Como disse a minha dermatologista, “Eu nunca lhe disse para ir à praia, só lhe disse que precisa de apanhar sol”. De facto, este ano deitei-me a ler na varanda durante várias manhãs e os resultados foram quase imediatos. Fazia 30 minutos exatos de exposição, e senti-me muito melhor. As lesões perdem relevo e a pele começa a cicatrizar. Mas não chegou.

1580491376_41c8bbd60077c2463ba35d50dda1b73c (1).jp

Há muitos anos que não faço tratamento para a psoríase (desde 2015). Também não usava tratamentos tópicos nem tomava comprimidos. Simplesmente hidratava a pele com o creme de ureia do Istituto Español (1,99€ em primor.eu) e usava o gel de banho que melhor funcionou com a minha pele ao longo destes anos todos, D’Aveia PS (Pele Seca, Emulsão de Limpeza – c. 23,00€). Este último é de uma marca portuguesa, cheira bem, acalma muito a pele e faz imensa espuma. Mesmo com o duche rápido diário, acaba por durar uns 2 meses, se não mais. Basta umas gotinhas para uma pessoa com 1,50m como eu. Apenas estas três coisinhas funcionaram durante anos, e desconfio que a somar a isso haveria talvez o rescaldo de vários anos das injeções de Enbrel, e ainda o facto de ter mantido uma alimentação quase vegetariana durante mais de dois anos (significa que comia leguminosas e verdes, não consumia carnes vermelhas, cozinhava peixe e carnes brancas em receitas que valorizavam os vegetais). Entretanto, comecei a tomar antidepressivos e julguei que a própria tranquilidade que advém desse tipo de medicamento estava a contribuir para a quase não manifestação da doença.

O que mudou este ano? Além de retomar as carnes vermelhas, as batatas fritas, o leite comum (durante anos também só tomei bebidas vegetais), os iogurtes, o pão, bolachas, doces com fartura, também deve ter havido alguma angústia extra devido a esta situação de pandemia mundial. E, pela primeira vez em anos, senti a doença propagar-se para zonas do corpo onde nunca a tinha tido de todo (como por exemplo as costas da mão).

Há quatro dias postei uma foto da minha perna completamente tomada de manchinhas pequeninas, muito dispersas, mas vermelhinhas (ativas e em expansão). Nesse dia decidi recomeçar a minha dieta. Rejeitei o pão, os fritos, tentei evitar glúten (mais arroz e menos massas, que adoro), comprei um chocolate negro (apesar de o cacau, o café e o chá também irritarem o doente de psoríase, o chocolate negro sempre tem menos açúcar que é outro fator problemático), ignorei as Oreos que tinha no armário e comprei bolachas de água e sal para comer com queijo fresco. Comprei fruta (figos, manga, ameixas, amêndoas), verduras (muita sopa comi esta semana), salmão (as gorduras boas ajudam) e entupi-me de água e sumos naturais (maçã, manga e ananás). A água também é importante porque convém mantermos a pele hidratada… Só que eu bebo pouquíssima água, tem de ser pensado isso de beber água. Fui ao médico (consegui uma consulta super rápido no médico do meu posto) e pedi um creme para aplicação local que ajudasse. De salientar que só comecei a pôr o creme nos braços ontem, e que nem sequer toquei nas pernas com ele porque precisava de entender o papel da dieta nisto.

ureadin-locao-hidratante-10-ureia-1l.jpg

Ah, também entrou em cena uma loção hidratante de farmácia com ureia a 10% (quando se tem psoríase, os hidratantes diários devem ter pelo menos 10% desse componente, segundo me explicou a minha dermatologista. Estes hidratantes são cremes comuns que podem ser comprados nas farmácias e parafarmácias sem receita médica. O meu é da ISDIN, Ureadin, 400ml custou c. 17,00€. Não estou a ser generosa na utilização e tem sido o meu aliado nos últimos quatro dias.

 

Resumindo, em quatro dias:

- Mudei a alimentação (derrapei ao beber 1 café, comer 2 cookies, 1 refeição com couscous, 1 pão e 1 pastel de nata – os erros aqui são a cafeína, o açúcar, o glúten), mas de resto tratei-me com carnes magras, grelhados, alimentos anti-inflamatórios (alho, legumes de verdura escura, frutos secos, tomate – comprei biológico e sabe muito melhor, e o salmão, a somar a muita água.

- Passei a dedicar-me mais ao ritual de hidratação diário (D'Aveia Emulsão de Limpeza PS como gel de banho e ISDIN, Ureadin 10% Ureia como loção hidratante);

- Fui ao médico e pedi uma pomada que ajude a controlar as lesões - saí de lá com uma Betnovate que custou uns módicos 2,51€ (sem acionar a portaria de doente de psoríase), mas creio que seja necessário receita que comecei ontem a aplicar nos braços;

WhatsApp Image 2020-09-19 at 16.11.08.jpeg

Passei um bocadinho de fome de açúcar, mas estou aqui a tentar decifrar esta feitiçaria que aconteceu na minha pele. Passaram quatro dias e as lesões já secaram (as das pernas sem ajuda da pomada, que só apliquei nos braços)…

Por isso, façam a experiência. Não descurem o papel da alimentação no controlo desta doença tão complexa. Agora, para comemorar, vou comer uma pratada de massa e mais logo volto a ser santa.

De qualquer modo, para melhor aconselhamento, procurem um dermatologista. 

1 comentário

Comentar post

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D