O velho e o cão
celiacloureiro
Enquanto lia "A Morte de um Apicultor", que não é um livro que me tenha apaixonado por aí além, vieram-me vários pensamentos à ideia. Quando o livro é vago nas mensagens, o cérebro põe-se a divagar para procurar significados mais profundos naquilo que vê impresso. Não me saía uma imagem da idade: a do senhor A., tolhido pelo Parkinson, no pátio da sua casa, com o focinho da cadela entre as mãos. Pedia-lhe perdão por não ter podido passeá-la nesse dia, e pedia-lhe também perdão por saber que no dia seguinte estaria ausente e também não poderia levá-la a esticar as pernas. A Luna, como qualquer cão fiel, sacudiu a cauda e olhou-o com adoração. Mas a cena ficou-me: o senhor A. desiquilibra-se constantemente, e sente necessidade de pedir perdão ao cão por não poder passeá-lo. Eu pensava nisso, e também tentava discernir o nome das árvores ao meu redor, que começaram a derramar a folhagem sobre o Dão. Passei o dia com os pés descalços sobre os blocos de granito, a equilibrar-me no topo da levada e a atirar seixos lisos sobre a superfície das águas. O máximo que consegui foram quatro pulos antes de a pedra se afundar. Há tanta paz aqui... Porém, a data de regresso está estipulada. Com ela, a necessidade de procurar rumos mais definitivos.
Fomos passear a Luna. Levámo-la pela estrada principal, passámos por roseiras, pereiras, figueiras, laranjeiras, limoeiros, macieiras. Há árvores de tudo nesta terra, uma riqueza nunca vista. O meu sobrinho diz que, quando crescer, quer uma casa com horta para não ter de comprar legumes nem fruta. E, a guardá-la, um husky, um pitbull e um rottweiler. Pergunta-me qual é o cão mais inteligente, e eu digo-lhe que é o rafeiro.
Tento ensinar-lhe a ser bom, que força não é sinónimo de brusquidão. Ele é um miúdo sensível, que está quase (quase) a abandonar a infância. Em breve vai inibir-se perante a ideia de se ajoelhar para acariciar um cão. Em breve os sentimentos vão ficar ainda mais fechados dentro dele, e os motivos das suas lágrimas, dos seus desgostos, ficarão encerrados nele sem que ninguém lhes tenha acesso.
Hoje, no café, perguntaram-me "Trinta e quantos?".
Caramba, será que, de repente, já aparento ter os 30?
Tempo maldito, sempre a voar, sempre a mastigar-nos.
