O vírus, a economia, o turismo
celiacloureiro
Trabalho em Turismo, no chamado Incoming. Significa que tudo o que conquistei na vida foi graças às nossas fronteiras abertas, ao interesse dos estrangeiros. O meu núcleo laboral é composto por guias-intérpretes, motoristas de turismo, hoteleiros, comerciais, etc. Sem pessoas a vir, a nossa vida fica em suspenso. Tudo bem. A saúde primeiro, havemos de dar a volta.
Sobre o vírus, só me resta dizer que as pessoas continuam a não entender, e as autoridades não têm agido conforme esperado. Das poucas vezes que saí de casa, fiquei horrorizada com tudo o que testemunhei. Não posso garantir que não tenha tocado no vírus, ou que não o tenha trazido para casa. Levei os meus próprios sacos, tentei não tocar em nada… Mas ainda assim tive de empurrar o carrinho no supermercado, que abrir os frigoríficos de iogurtes, que meter as laranjas no saco, sem saber se a dona Helena não terá estado lá primeiro a apalpá-las todas… Quando pus as coisas na caixa, a senhora (sem luvas nem máscara, aliás como todos os funcionários), passou um pano imundo só para fingir que se preocupa com o vírus e que está a fazer o mínimo, e depois passou-me tudo com as mãos nuas, que tive de pegar com as mãos nuas e trazer para casa. Quando dei por mim, estava a marcar o código do cartão no terminal que toda a Almada havia tocado nessa manhã, e desinfetei as mãos com álcool ao preço do ouro antes de pegar no saco.
Nem vou mencionar o senhor do talho, que me partiu o frango, e depois fez os hambúrgueres com as mãos, sem nunca as lavar entre manejamento de carnes e sem luvas. O meu passeio de terror biológico terminou com o senhor da mercearia a esfregar a mão na minha para me dar as moedas de troco. E eu a desinfetar de novo as mãos, tipo maluquinha de Arroios.
Por fim ajudar os produtores e os hotéis e a restauração local… Os produtores de álcool que produzem a garrafa a 4,95€, vai custar-me muito ter vontade de os ajudar. Quanto aos hotéis em Portugal, a fazer férias em Portugal… Desde 2017 que repito que passei férias dois anos seguidos na Andaluzia porque Portugal era demasiado caro. E Portugal foi ficando sempre mais e mais caro. Eu entendo, é o capitalismo. É renovar as alas dos hotéis e a decoração de novo. É o buffet do pequeno almoço com granola e ovos Bennedict. Tudo bem, os estrangeiros adoram, e eu também.
Mas também é verdade que conheço funcionários de hotel, empregados de restauração, que eram explorados com salários mínimos enquanto os quartos eram vendidos ao preço da ocupação – altíssima. Já era indecente antes, e agora é intolerável. Uma amiga, secretária de um diretor de uma unidade 5 estrelas, com acumulação de funções e mestrado feito fora de Portugal, levava para casa pouco mais do que o ordenado mínimo atual. Acabou por abandonar o posto porque não é edificante, não é digno, a nível psicológico, receber-se tão mal depois de um tão grande investimento em formação e de assumir, de segunda a sexta, funções que requerem tanta responsabilidade.
Outro exemplo que adoro é o do restaurante onde gostava de ir comer bacalhau, para o qual também levávamos turistas. Trata-se de um restaurante nas Avenidas Novas, em Lisboa. O valor do menu de bacalhau com natas, com entrada, prato principal e bebida, era 13 euros até 2016. Pode parecer barato, mas tinham outros menus bem mais caros, e a sala tinha capacidade para 100 pessoas ao almoço e 100 pessoas ao jantar. Em 2017, com a loucura do Centenário de Fátima e a enxurrada de visitantes, o mesmo menu subiu para 17 euros. Em 2019 custava 27 euros. Liguei para lá e perguntei se tinham acrescentado uma azeitona que fosse ao menu, se o chef era novo e minimamente reputado. Foi uma piada, mas eles não se riram. “Não, é este o preço”.
Em 2017, quando se tornou urgente encontrar um hotel em Lisboa/arredores com budget para o mercado polaco, que não tem o poder de compra de outros mercados, mas que compensa em volume de viajantes, fui visitar um hotel naquilo que só pode ser considerado Buraca, mas que ostenta o nome de "Alfragide". Trata-se de uma unidade de 2 estrelas, e apresentei-me, indicando ao diretor que buscava alternativas para mercado polaco. Mostrou-se desiludido, perguntou se não trabalhava com outros mercados. "Sim, com italianos, canadianos." "Mande-me os canadianos, deixe lá os polacos." Deu-me um gozo enorme dizer-lhe que os canadianos não vinham do Canadá para ficar alojados na Buraca. E a insolência? As políticas gananciosas e restritivas de alguns hotéis para com as agências de viagens, como se fôssemos completamente dispensáveis, e éramos. Os turistas chegavam de aluvião... Grande volta que isto deu, não?
Para 2020 tinha planeado uma viagem de uma semana a Itália, tendo, claro, simulado uma viagem por Portugal primeiro. Eu adoro o meu país, adoro meter-me num carro e ir de aldeia em aldeia. Falta-me o Norte profundo, Foz Coa, o Douro, Miranda, regressar a Vila Real, ir até Caminha, ao Gerês, a Viana do Castelo. Resumindo: uma semana em Portugal, contabilizando gasolina, portagens e alojamento, ficava mais caro do que uma viagem a Roma, com voo, transfers e alojamento, num hotel central simples. Desisti dessa ideia por dinheiro. Porque o hotel de 4 estrelas onde fiquei em Évora há dois anos custava 70,00€/noite em Junho, e agora custa 130,00€. Desisti de Portugal (nunca sequer tive em conta o Algarve), porque não posso pagar um salário mínimo em 4 ou dias de alojamento. A somar a isso as portagens e a gasolina com taxas absurdas para o nível de vida dos nossos cidadãos desmotivam grandes deslocações. Tenho saudades de Braga e de Guimarães, mas não vou pagar 140,00€ para ir voltar num fim-de-semana. Com esse valor meto-me no aeroporto e, dependendo da altura do ano, vou até Espanha, França, Itália, Holanda, Londres, Irlanda, Marrocos ou Alemanha. Pois é… o Portugal dos anos 90, que pedia aos portugueses para “irem para fora, cá dentro”, há muito que não tem interesse na carteira dos portugueses. Não conseguem extrair-nos o lucro que extraem de povos com um poder de compra muito superior. E por isso chateia-me que nos peçam para apoiarmos a economia local, como se, no caso do Turismo, eu preferisse qualquer outro sítio do mundo ao meu próprio país. O meu país é se tornou proibitivo, e por isso viajei muito mais para fora do que no interior. As limitações de tempo e de dinheiro a isso obrigam.
Não procuro romantizar o vírus, nem nada que o valha. Mas reparem como estamos todos tão ligados uns aos outros, e como what goes around comes around….
