Os idiotas vão acabar por matar-nos a todos
- ou porque tenho medo do coronavírus.
celiacloureiro
Apesar de estar sempre a rir-me e a fazer piadas, em certos assuntos sou uma pessoa séria. Suspeito que até perdi alguns amigos por conta dessa seriedade, que me faz ser a ovelha negra que acaba com a festa do descaso. Posto isto, tenho-me mantido até bastante tranquila até ontem quanto ao assunto do momento. Segui as recomendações (fui a tipa paranoica que recusou apertos de mão e beijos a toda a gente durante os últimos dias, inclusive a um senhor da “indústria farmacêutica” que me cumprimentou por estar a agir bem e se desculpou por me ter estendido a mão, como é hábito), e não entrei em alarmismos desnecessários. Posso dizer que não comprei uma latinha de feijão extra a pensar no que estaria a vir, porque mantive um mínimo de fé no país. Ainda assim, o caso de Itália é uma oportunidade de olharmos para o futuro e de sabermos exatamente o que está por vir. Coloco-o assim porque o otimismo do Costa e a descontração generalizada do nosso país levou a que não mexêssemos uma palha para evitar a onda que vinha no nosso caminho, mesmo com tantas semanas de vantagem para construir diques.
Qual é o meu problema com o coronavírus, afinal?
É que eu não tenho confiança no meu governo e, desde ontem, menos ainda no meu povo. Não confio no bom-senso e no discernimento dos portugueses. A nossa veia encantadora – a brincadeira e a descontração – prejudicam-nos gravemente nestas circunstâncias. O português que, perante recomendações de quarentena, foi para a multidão do Continente comprar garrafões de água e papel higiénico não tem torneiras nem sabão em casa, e também não tem dois dedos de testa. O português que assume o fecho da universidade como uma ocasião a comemorar, e que vai para a praia a sentir que lhe saiu a sorte grande, é um ser acéfalo que nem devia estar no ensino superior. O português que vê neste histerismo coletivo a oportunidade de fazer negócio e de lançar uma Corona Party, é outro idiota inconsequente. A eles o que pergunto é: não têm ninguém do grupo de risco nas vossas relações? Nenhum diabético, nenhum asmático, ninguém com cancro? Ninguém velhinho e frágil? Eu tenho um avô de 91 anos, uma mãe com cancro. Eu própria sou asmática. Mas, para lá disso tudo, tenho uma falta de fé descomunal, como já dito, no governo, e outra igual pelo Sistema Nacional de Saúde.
Não é propriamente nos profissionais que não tenho fé – embora também, e já lá vamos -, mas sobretudo nas diretivas que recebem. Na tranquilidade com que o Primeiro Ministro e a Ministra da Saúde atiraram para o ar, durante semanas, que isto era lavar as mãos e evitar contatos com a boca e isto e aquilo. O que se fez nos hospitais para preparar isto? Ontem dizia-se que só os hospitais de primeira linha tinham capacidade e indicações de como lidar com estes casos. Mas o Portugal profundamente envelhecido e isolado do interior não vai deslocar-se a Lisboa, ao Porto e a Coimbra, que o valha, para ser atendido. Os responsáveis pela Linha Saúde 24 sabia que as chamadas iam chover, mesmo porque recomendaram que ligássemos antes de aparecer nas urgências, e ainda assim só reagiu reforçando a equipa quando se tornou evidente que não estavam a responder a toda a gente.
Mas sabem do que tenho mais medo, acima de tudo? É de que a nós, saudáveis – sim, vocês que foram para a praia, que estão convencidos de que a quarentena é o melhor que vos podia ter acontecido, que foram à Corona Party e que ontem foram comprar papel higiénico para o supermercado – nos aconteça o mesmo que à jovem saudável de 17 anos, de Santa Maria da Feira, que se calhar não foi atendida na Linha Saúde 24, e que por isso foi três vezes às urgências antes de lhe fazerem um teste ao coronavírus, e de a diagnosticarem com pneumonia grave. Pneumonia grave é coisa que mata. Não será o coronavírus que a matou, se morrer, mas sim a inconsequência do governo que não obrigou os seus amigos, regressados de Itália, a quarentena obrigatória – porque é inconstitucional. Será culpa da Linha Saúde 24, que não a atendeu. Será culpa das equipas de saúde que a receberam por duas vezes sem colocar a possibilidade de que fosse o vírus do momento – ou do Ministério da Saúde que quem sabe ainda não lhes tivesse dado meios para testarem o vírus, ou diretivas a seguir em casos de suspeita. Será culpa de quem deixou que chegasse à pneumonia grave antes de começarem a tratá-la, mesmo neste clima de avisos e alarmismo. Se calhar acharam, como acham os portugueses que vão para a praia, que o calor destrói o vírus e que aquilo é uma gripezinha comum.
Em suma – será culpa de todos nós, mas acima de tudo de um governo que pratica o descaso e o positivismo até ao limiar da catástrofe, e da incompetência que carateriza toda a nossa burocracia e que, em última instância, ceifa vidas.
É disto que tenho medo, da cadeia de imbecilidade deste país… Disto e de irmos todos para o desemprego. Não do coronavírus. Coitado do coronavírus.
