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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

20
Jan20

Os media, as redes sociais e o futuro dos nossos miúdos


celiacloureiro

Tenho uma adolescente lá em casa, conheço outros tantos. Tenho acompanhado crianças a crescer de perto, e concluo que os media, os feeds de notícias do Facebook e sobretudo a influência dos influenciados do Instagram arruinam a infância e a juventude de muita gente.

No caso da infância, é esse incutir de consumismo desde as primeiras palavras. É Patrulha Pata, é Panda, é Violeta, é Frozen. Bolos disto tudo, festas de aniversário temáticas, fatiotas a preceito, a ideia, possivelmente errada, de que uma criança de 5 estaria mais apta a assistir a um concerto da Hannah Montana do que a um concerto dito decente, de algo que lhes prepare a formação cultural e lhes treine o ouvido para o poder enriquecedor (e até terapêutico) da Música. Nunca entendi como é que os pais desembolsam quantias astronómicas para esse tipo de concerto, e depois acham uma visita ao Jardim Zoológico ou ao Oceanário cara. Atenção, não estou a posicionar-me junto dos animais enjaulados, mas creio que apesar da controvérsia podem ser passeios mais lúdicos do que aquele até ao parque onde um tipo anda vestido de panda a dançar canções repetitivas.

Na adolescência tudo adquire outra dimensão. As miúdas ganham as manias das divas do Instagram, quer queiram quer não. Querem meter pestanas falsas, querem tops a mostrar o umbigo, querem os ténis do momento. Quando damos por elas, andam por aí com unhas de gel (o maior flagelo estético desde as permanentes falsas nos anos 80), a tirar fotos no WC, com biquinho de pato e sem nunca terem lido um livro na vida. Engravidar na adolescência é quase glamoroso. No caso dos rapazes, as marcas adquirem uma dimensão ainda mais significativa. Enquanto a rapariga se contenta com renovar o guarda-fato a cada trimestre com as últimas da Primark, o rapaz precisa de ténis e equipamentos de marca, daqueles muito caros mesmo. E privilegiarmos o bom, o duradouro, em vez da etiqueta?

Na idade adulta, a nossa geração tem de enfrentar o exagero de páginas de Instagram de famosos e de pessoas saídas de lado nenhum mas apelidadas de "influencers", que na realidade apenas ecoam a propaganda de meia dúzia de marcas que compreenderam a facilidade que os rebanhos têm em seguir um cão pastor (aka influencer). Até enjoa tanta Prozis, tanto post em torno de como o champô tal ou o iogurte tal foram capazes de nos mudar a vida. Pessoas cheias de acessórios, com tatuagens minimalistas, cabelos balayage ou ombré, em eterna remodelação das casas, viagens recorrentes a sítios exóticos, bronzeados, a fotografarem com GoPros ou drones, a usarem os mesmos relógios, os mesmos blusões de motoqueiro, os mesmos ténis compensados, as mesmas pulseiras no tornozelo, as mesmas orelhas com vários furos, as mesmas pestanas falsas e unhas de gel, o mesmo kit de contorno facial. Há que ter pelo menos uma mala da Bimba y Lola, que é um caso flagrante de se pagar pela marca em vez de pelo design ou pela qualidade. De manhã comem as mesmas panquecas da Prozis (e por 50,00€ levam uma faca de cozinha se puserem o código 4932827#), vão aos mesmos ginásios, aos mesmos restaurantes de sushi, branqueiam os dentes nos mesmos consultórios dentários, usam os mesmos batons mate, levam os filhos ao mesmo Spa para bebés, têm casamentos de sonho planeados até à exaustão, filhos perfeitos que usam todos as mesmas marcas de creme porque têm todos a pele sensível, deitam-nos todos no mesmo ninho e passeiam-nos no mesmo carrinho, que guardam dentro da marca de SUV que lhes ofereceu um renting em troco de publicidade. 

Procuram todos ser tão diferentes que nem se apercebem como são todos iguais.

Para cúmulo, o Harry e a Meghan são notícia. Não me ocorrem duas pessoas que me importem menos. Porquê dar tanto tempo de antena a estas futilidades?

O que faz os miúdos de hoje em dia, esses insatisfeitos crónicos, felizes? Eles sequer concebem o significado de felicidade para além do materialismo?

Não será esta a lista de essenciais à felicidade de um jovem, e não traduzirá isto o falhanço dos pais, que consideram as visitas de estudo demasiado caras (digo-o porque conheço a reação dos outros encarregados de educação a visitas propostas pelos professores da minha teen), mas que lhes pagam bons telemóveis para as suas crianças poderem manter os feeds atualizados?

- Subscrição Netflix ou HBO;

- Ténis de marca;

- Uma consola moderna com um vasto leque de jogos;

- Praia no verão, para se bronzearem;

- Um iPhone ou similar;

- Roupa de marca;

Cabe aos pais construir a individualidade dos filhos, protegê-los das massas, do consumo desenfreado, da insatisfação crónica e das vidas de fachada, disfarçadas com os filtros nostálgicos dos editores de imagem. Incutir-lhes o que é importante e o que é acessório. E isto é crucial para o mundo do amanhã.

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