"Os Pássaros" e a paternidade
celiacloureiro
Se tudo correr bem, o meu próximo romance a ser publicado, Os Pássaros, estará convosco ainda este trimeste. Estamos a trabalhar na capa e nos detalhes finais.
Bem a propósito do tema central desse romance (a mãe, o pai), ando a ler um romance vencedor do Prémio Gongourt 2016 - Canção Doce, de Leïla Slimani. Somando a isto, o facto de ter chegado há cerca de um mês aos temidos 30 lançou-me numa senda existencial sobre a questão da reprodução. Ter filhos ou não ter, eis a questão.
Toda a gente me dirá que ainda sou nova, só tenho 30 anos, e eles só foram pais aos 32, aos 36, aos 40. O problema principal é a disposição. O querer a criança, os momentos bons, e não estar disposta a passar noites em claro, nem mudar lençóis urinados (ou vomitados) a meio da noite.
Na semana antes do Natal, dei a mão à minha sobrinha de 3 anos pelo parque da cidade, e fomos espreitar a tenda onde se davam os eventos da quadra em questão. O sol já se tinha posto, e o crepúsculo é a minha altura favorita do dia - quando tudo recai numa estranha inquietude, as tarefas diárias estão cumpridas e podermos escutar-nos por fim. Com a mãozinha dela presa na minha, as duas atafulhadas de roupa, seguimos no seu passo lento, de pernas curtas e de galochas coloridas. Foi tão perfeito, abrandar assim o ritmo da existência, permitir-me ver o mundo como novo, a partir dos olhos de uma menina esperta de 3 anos...

Pensei que, se fosse sempre assim, se fosse sempre eu a apontar-lhe a beleza das árvores, ainda rubras do outono que se despedia, a dizer-lhe que dentro daquela curiosa tenda estavam os elfos do Pai Natal a embalar os presentes... Se fosse sempre assim...
Como é que podemos ter filhos hoje em dia, condignamente? Como é suposto conseguir ter um filho, sustentá-lo com o meu salário, conseguir-lhe vaga numa creche, submetê-lo às crueldades de um mundo tantas vezes sublime, tantas vezes cão? Como é suposto separar-me dele quando é uma criaturinha frágil de cinco ou seis meses, voltar para o trânsito, para as buzinas da ponte, e depois sair, dormitar com a testa na janela do CP, lutar por lugar no Cacilheiro, e ir resgatar a criança aos braços de estranhos, chegar a casa, dar-lhe banho, alimentá-lo, lidar com as suas birras, entretê-lo, ler-lhe uma história, cortar-lhe as unhas. E ainda cortar as minhas unhas, lavar o meu cabelo, ir às compras, cozinhar, alimentar-me, limpar a casa. Há quem o faça, e parece-me extraordinário que assim seja. Não sei se serei capaz.
Há dias em que quero muito uma criança, outros em que suspiro de alívio por o miúdo que grita junto aos dispensadores de gomas da Auchan não ser meu.
Todos os dias vejo mulheres-heroínas a dar o sangue e o suor pelos filhos. São apenas de carne e osso, e o flagelo dos homens que não ajudam. Que acham que os filhos e a casa são coisas do domínio do nosso género. Como é que essas mulheres, exaustas, ainda se dispõem a servir um companheiro egoísta e pouco colaborante?
Se fosse possível ter um filho das 19h00 às 20h00, seria ótimo. Mas os filhos são para todas as horas, fins-de-semana incluídos, não é? E se eu não o amasse o suficiente para deixar de me entreter com os meus livros e os meus papéis para lhe dar colo? E se o amor místico que tanta gente diz que as mães sentem pelos rebentos não existir em mim, e só me restar um arrependimento infinito quando a criatura desdentada estiver a esgoelar-se nos meus braços?
E se o tempo passar, os meus ovários secarem, e eu me arrepender? É um dilema impossível, este. Não saber se sim se não. Se agora se amanhã. Se tarde demais. Se adotar se parir, se ...

