Pequenas reformas, grandes patifes!
celiacloureiro
A minha querida avó, figura máxima na minha educação e presente em quase todas as minhas memórias felizes da infância, sempre se queixou da sua reforma baixa. Tanto ela quanto o avô sofriam desse flagelo em Portugal: o desamparado do Estado. Eu já teria uns 20 anos, se não mais, quando finalmente entendi que estavam desamparados por um estado para o qual contribuíram pouco ou nada.
Foi para mim um instante de revelação, que levantou a ponta do véu sobre a complexidade do Estado Social, a desigualdade, a educação e o desalento das pessoas que não entendem e que, por não entenderem, se julgam abandonados e desresponsabilizados pelas suas próprias escolhas.
Costumo acompanhar o Linha Aberta e, no link abaixo, temos a história de uma senhora que sem dificuldade conquista a nossa compaixão, mas decidi tomar atenção aos factos. Como é invariável em todas as histórias de idosos no limiar da pobreza em Portugal, a história começa com "trabalho desde os...". Geralmente segue-se uma idade precoce em que deviam estar na escola, mas não estavam porque o ensino obrigatório em Portugal não é bem obrigatório. Só tens de estar inscrito, depois se vais ou não...
A questão para aqui chamada é que esse trabalho desde os 13 anos a pastorear patos, ou a coser camisas, ou a lavar roupa no tanque, não trouxe dividendos para o Estado. Não acrescentou 10 tostões aos cofres do país. Mais tarde a senhora lá terá trabalhado com descontos, completando um total de 15 anos de contribuições para a Segurança Social.
Segundo o simulador de reformas da Segurança Social, posso reformar-me a partir dos 66 anos e 4 meses, que é como quem diz: em 2056. Se esperar pelos 68 anos, obtenho uma bonificação extra. Esses dois anos já devem implicar deslocar-me de arrastadeira para o escritório, e depois devem sobrar-me uns 10 aninhos de qualidade de vida para gozar o sol e a Natureza, depois de uma vida de trabalho. Mas de uma vida de trabalho significativo para o Estado. Trabalho que, todos os anos, enriquece os cofres do país. Ainda que eu nunca tenha estado de baixa, nunca tenha beneficiado de subsídio de desemprego, raramente use o SNS (por inúmeros motivos, o principal deles a desorganização colossal, a tecnologia obsoleta, a marcação de consultas num post-it que me é entregue em mãos e que perto numa semana, quando a consulta está marcada para daí a meio ano). Que significa isto? Que durante dez anos apenas contribuí, não beneficiei. Os meus impostos garantem por aí os RSI, os subsídios de desemprego para quem não se empenha em procurar emprego enquanto dura a bonificação de férias, as baixas sistémicas de alguns nichos da função pública, etc., etc.
Eu contribuí. Muitos dos portugueses que agora estão a chegar à reforma não contribuíram, ou contribuíram pouco. As suas reformas, nesta pirâmide etária em que os jovens beneficiam de bolsas ou se agastam em estágios, e os velhinhos são cada vez mais, são garantidas em parte pelos seus parcos descontos, em parte por um esforço previdente de um Estado onde a cultura máxima é o judaico-cristianismo, e a caridade é uma virtude. Eu considero que embora a caridade enobreça quem a pratica, retira a dignidade a quem a recebe. Não seria mais proveitoso formar as pessoas, direccioná-las, instigá-las a trabalhar e a prosperar por si em vez de esperar um apoio que nem sempre vem a tempo e horas, nem sempre é garantido? Não seria melhor abater a vaca magra e obrigar o povo a lavrar a terra, em vez de lhe permitir que esprema para sempre as mesmas tetas flácidas do mesmo bicho decadente?
Qual é o problema? A educação. A formação. A população é ignorante. Mesmo os jovens são ignorantes quanto ao modo como funciona o país e as suas instituições. Depois andam pela vida a sentirem-se renegados, injustiçados.
Tenho pena da senhora, mas será que não devia ter tentado levado uma vida fora dos circuitos da economia paralela?
https://sic.pt/Programas/linha-aberta-com-hernani-carvalho/videos/2020-01-17-Linha-Aberta---com-Hernani-Carvalho---Emissao-de-dia-17-de-Janeiro---1-Parte
