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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

03
Abr20

Quando eu era romântica


celiacloureiro

Acordei ao meio dia e meia, com aquela sensação de ter acabado de ser atropelada por uma carroça de bois. Comei a imprudência de aceitar uma videochamada ainda deitada e, pela primeira vez, olhei para o meu reflexo e vi sinais de velhice. Já tinha visto sinais de cansaço, de desleixo e por aí fora, mas nunca tinha visto traços do tempo no meu rosto. E hoje encarei-me deitada de lado, com duas bolsas acinzentadas e flácidas sob os olhos, pálida e com pés de galinha. Caramba, a idade estará a apanhar-me? Já tenho trinta anos, trinta anos. Depois lá consegui acalmar-me: as heroínas dos meus romances costumam ter mais de trinta anos, uff. Ainda vou a tempo de ser a heroína de um romance.

O Rodrigo Guedes de Carvalho é uma pessoa inspiradora, daquelas como há poucas. Hoje trouxe à superfície a minha veia romântica, enterrada há várias primaveras. Encerrou-se o jornal da noite da SIC com a cena final de Cinema Paraíso, um dos meus filmes favoritos de sempre. Mostrei-o há poucos meses às minhas irmãs e choramingámos todas no final. É lindo em todas as frentes. É lindo na banda sonora, na exploração do primeiro amor, da amizade entre um velho e um menino, no papel do cinema na dinâmica de uma aldeia italiana no pós II-Guerra Mundial. E Itália, a propósito, é o país mais lindo do mundo. Juntam tudo isso, embalado pelo violino de Ennio Morricone, e as vossas emoções aportam nessa cena final com que se encerrou o Jornal da Noite esta sexta-feira. Fui ver a cena e chorei. Voltei a vê-la e voltei a chorar. E pronto, de repente lembrei-me como era ser romântica. Como era imaginar que um dia teria o tal ao meu lado, no sofá, e que podia ser eu. Podia saltitar, podia dançar de excitação e guinchar que íamos ver o meu filme favorito. No fim ia apertar-lhe o braço e chorar, e ele havia de se rir por eu estar a chorar, embora ele próprio tivesse vontade de chorar. Pronto, e é isto o ser-se romântica aos 30. É como que ser-se romântico sem grande esperança de que essas quimeras de outrora venham a cumprir-se. Mas foi bom recordar que um dia o meu peito andou tão cheio de emoções boas, e que se eu não tivesse sido romântico e sonhado tanto com um amor bonito e para sempre, nunca teria vivido estas dezenas de filmes, de músicas e de livros tão a fundo, e seria menos completa a nível emocional. A vida seria mais monocromática, e assim é de uma beleza estonteante, que inebria e comove.

Para rematar, o Rodrigo Guedes de Carvalho despediu-se da semana, no instagram, com um quadro de René Magritte, Les Amants (1928). É só o meu quadro favorito de sempre. Até a minha irmã o reproduziu na escola, e devo dizer que com algum talento para alguém que diz que não sabe desenhar. E eu vi-o, estive diante dos amants no Museu de Arte Moderna, em Nova Iorque. É por esses momentos que vivo.

Quando isto acabar, espero regressar a todos os sítios que ainda amo. Ainda que sozinha, talvez esta quarentena sirva para reaprender a sonhar, a enamorar-me da arte e da música, ainda que de coração vazio. Há beleza e fascínio na natureza e nos feitos dos homens com os pincéis, as letras e os instrumentos musicais. E eu gosto de me embriagar nessa beleza excruciante, que me espreme até às lágrimas.

Caramba, viver é sublime.

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