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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

21
Mai20

Recomeçar


celiacloureiro

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Diria que vivi muito bem as primeiras quatro semanas de pandemia em confinamento. Com a facilidade de poder trabalhar a partir de casa, auto-isolei-me a 13 de março e só afrouxei as saídas a semana passada. Quando digo que afrouxei as saídas significa que me rendi à falta que os meus sobrinhos (alguns deles meus vizinhos) me fazia. A mais pequenina está com nove meses. Por sorte, ainda vim a tempo de viver este momento com ela: põe-se em pé, começou a gatinhar, mexe em tudo, empoleira-se em tudo, diz várias palavras. Está a tornar-se uma pessoa e, antes que se esquecesse de mim, dei-lhe colo de novo. Não o faço com leveza de espírito: acredito que o certo seria manter-nos afastados mais um pouco, irmos sorvendo do copo dos afetos gota a gota, em vez de nos embriagarmos com os cheiros e os abraços dos que nos fizeram falta.

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Mais ou menos a meio desse confinamento, durante o Estado de Emergência, via as ruas desertas da janela, sobretudo a partir das sete da tarde, quando todo o comércio essencial fechava lá em baixo, e perguntava-me porque é que as pessoas se debatiam tanto com a quarentena. Porque é que lhes fazia tanta falta estar em outro sítio que não em casa. Nesse ponto tive de entender que a minha casa é minha, que tenho uma ótima relação com as pessoas que a dividem comigo, e que sou a voz de autoridade nestes domínios. Resumindo: estive sempre numa posição privilegiada. Além disso, a minha casa é confortável, tenho computador, internet, inúmeros canais com filmes, séries (não ligo grande coisa, mas elas estão lá), e tenho a minha biblioteca pessoal com cerca de 177 livros por ler (segundo a prateleira do Goodreads). Também tenho aqui muitos dos meus livros favoritos de sempre, por isso não podia estar em melhor companhia.

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No início tive de trabalhar, embora o trabalho escasseasse. Trabalho em Turismo, que foi o primeiro sector a fechar e que será o último a abrir - tem de estar tudo harmonizado para voltar a ser seguro recebermos estrangeiros. Comecei a perguntar-me até quando as empresas iriam suportar esta sangria. Por uma decisão estratégica, essencial para a sobrevivência do núcleo em que trabalhava, o meu contrato não foi renovado. Significa que, desde dia 14, estou desempregada. Estou desempregada pela primeira vez nestes primeiros quase 10 anos de trabalho. Durante estes dez anos aprendi tudo o que sei, conheci inúmeras pessoas que hão de ficar para sempre, com quem ainda comunico e com quem me preocupo. Recebi carinho, compreensão, ouvi e dei conselhos. Agora, no escritório, ríamos, tomávamos café na copa, contávamos um ou outro episódio pessoal, trocávamos livros e oferecíamos boleias uns aos outros, sempre que possível. Almoçávamos juntos sem qualquer obrigação, falávamos dos desafios de casa, dos outros pessoais. Estávamos a tornar-nos uma família, e seremos uma família de novo quando isto acabar, se tudo correr bem. De repente tenho tempo. Mais do que não ter emprego, é ter tempo. Eu já considerava o tempo o mais valioso dos bens. E, por isso, urge decidir o que fazer com ele. Planeá-lo. Porém, por uma vez, posso dar-me ao luxo de não planear.

Dizia que não me debati com o isolamento até há pouco tempo, quando as saudades começaram a apertar. Via tanta gente desabafar, nas redes sociais, a vontade de ir aqui e ali... E eu feliz em casa. Feliz com tempo. Feliz isolada. Feliz com os meus livros e com a tranquilidade. Estava tudo tão quieto... Foi como se o mundo se entregasse a uma longa inspiração. E esse sossego fazia-me bem. Houve, no entanto, um dia em que me incomodou. Um dia em que me perguntei porque estava tão conformada com a castração da minha liberdade. Será que não havia um sítio no mundo onde eu gostasse de ir quando pudesse? Será que não sentia que estava a perder nada lá fora, sem ser o sorriso dos meus sobrinhos? Então prometi-me. E entendi: a livraria. A livraria cujo nome só hoje descobri. Entendi que era aí que gostava de ir, se pudesse. Prometi-me que iria, assim que voltasse a poder.

E hoje, na sequência de ter ido tratar de burocracias associadas ao fim do meu contrato, passei lá em seguida. Perdi lá imenso tempo. Percorri todas as estantes de literatura traduzida, descobri o canto dos russos. Dei-me conta de que agora já não posso folhear todos os livros que me chamam da prateleira, nem cheirá-los. Mas, ainda assim, a minha cabeça inclinou-se para um lado, depois para o outro, e pude ler os títulos, recordar os autores, as edições. No ar o cheiro era daquela amálgama de livros juntos, sem cheirar a nenhum tipo de papel em particular. E havia bancos velhos, postais, litografias, azulejos em caixinhas. Edições antiquíssimas, com ar de estarem prestes a desfazerem-se em pó se lhes tocássemos. E a luz do fim de tarde entrava nessa livraria no Chiado, e lá fora, junto à Brasileira, dois rapazes tocavam jazz e bossa nova. Um deles fazia voos melancólicos com o saxofone. E tudo foi tão perfeito. Ouvir algumas vozes lá fora, estar rodeada de livros, ser livre.

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Lisboa estava linda, hoje. Os jacarandás desabrocharam, a calçada está coberta das suas flores liláses. Há poucos carros a circular no Chiado, os semáforos estão fechados mas acabamos por atravessar. Decidi descer até ao Cais do Sodré, enfrentar a rua do Alecrim, descobrir o que é feito do Desassossego que pintava a fachada de um prédio em recuperação, quase no Largo do Duque da Terceira. Revi o Fernando Pessoa, o poeta Chiado, o Luís de Camões e, no Largo do Barão de Quintela, o Eça de Queiróz e a sua musa. Chegada à 24 de Julho, atravessei juntamente com meia dúzia de peões, cruzámos o vermelho porque não havia carros que justificassem esperar ao sol, e quando o elétrico passou, em direção a Belém, um dos homens a meu lado, de máscara, estendeu a mão e imprimiu-a entre a poeira que cobria o veículo. Ele passava e ele olhava, e tocava-o, como que incrédulo. O mundo real parece assustador, fascinante, inacreditável.

Apanhei o Cacilheiro das 19h, com uma brisa agradável a cruzar as janelas de um lado a outro. Estávamos todos sentados a uma certa distância dos outros. Todos usavam máscara. Aqui e ali alguém esfregava as mãos com álcool. E eu refleti sobre Lisboa, sobre o facto de antigamente estar povoada de estrangeiros, como uma torre de Babel, e de agora apenas ter escutado o português, tanto o europeu quanto o sul-americano. Uma vez chegada a Cacilhas, havia vendedeiras de ramos de espiga, e de morangos a um euro o quilo. Tinha os braços cheios, por isso não pude deter-me. Mas senti-lhes o perfume. Vi como o sol se derramava no Ginjal. Está tudo tão igual, embora tão despido de pessoas... Ao subir a rampa do cais para o terminal de transportes, dei por mim a ensaiar aquele passo de multidão, em que nos esforçamos por conter os passos, para evitar albaroar quem temos pela frente, e para garantir que não somos albarroados por quem nos segue. Aquele arrepio costumeiro de quem pode, a qualquer instante, sentir o ombro de outrem a roçar no seu, e um breve "desculpe", e a vida segue.

Senti uma paz enorme. A paz de que agora, finalmente, terei tempo. Para refletir. Para decidir o que quero fazer com o resto da minha vida. Para ter ideias. Para escrever. Para descansar e me curar. E pensei, com toda a naturalidade, que estava a ir para casa.

Agora sim, estava a ir para casa.

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