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Célia Correia Loureiro

Sobre a vida, em dias de chuva, de fascínio ou de indignação!

17
Mai20

Sacrifícios


celiacloureiro

O que se tem passado nos últimos dias, em que toda a gente adoptou a palavra "desconfinamento" como mote, tem sido vergonhoso. Mais do que isso, saber que a PSP foi recebida a tiro no bairro dos Machados, perto do Parque das Nações, quando fazia o seu trabalho de acabar com uma festa... Uma festa. Pena que eu não mande em nada, porque não seria tão branda. Não faria avisos, não seria contida nas medidas de coação. Abrir fogo contra a autoridade policial não seria desculpável, fosse como fosse. Mas ignoremos esta parte. Uma festa? As pessoas estavam a fazer uma festa? Quão estúpidos podem ser, e à centena, para estarem a fazer uma festa? 

Não tenho argumentos para explicar o impacto desta pandemia a nível mundial. Não haverá cálculo total de quantos perderam o emprego, quantos viram o seu negócio afundar-se, quantos estão apartados dos seus familiares, quantos idosos estão sozinhos a passar por isto. Há cálculo, sim, de quantos perderam vidas: são mais de 300 mil pessoas, pelo mundo inteiro. 300 mil pessoas. Mas não, a nós não há-de tocar. E, se ficarmos doentes, a culpa é da senhora do supermercado, que não deve ter desinfetado as mãos. A culpa é daquele meu amigo, que no dia em que veio jantar a minha casa tinha ido visitar o primo. A culpa é do Estado, porque disse que podíamos desconfinar. A culpa é da Linha Saúde 24, que quando começámos a ter sintomas demorou 6 horas a atender. A culpa é do Hospital, que não tinha ventiladores. E entretanto pegámos à avó, ao filho, ao tio asmático e à prima sem sistema imunitário. E a culpa nunca é nossa.

Somos um povo de irresponsáveis. Além disso, somos um povo de otimistas que se fiam na Virgem. Somos um povo que manda tudo fora depois de tantos quilómetros de estrada. Estamos fartos, não estamos habituados a imposições, a regras, nem tão pouco a recomendações. Sacrifício para nós começa no ter de ficar em casa - na nossa casa, com os nossos 170 canais, internet 4G/5G, frigorífico à disposição, a família - que deveríam ser as pessoas que mais amamos no mundo, mas afinal é intolerável ficar-se fechado com eles dois meses. É intolerável não podermos beber cerveja e fumar na rua. É intolerável que os nossos filhos não possam ver os avós, o virus a nós não há-de apanhar! A mim não há-de chegar! Ah, eu que sou o maior da minha aldeia.

Sacrifícios... sabem lá os Europeus o que é isso.

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