Tempo
- e casa, coisas positivas.
celiacloureiro
Como dar a volta a isto? Agastando-me? Chorando? Receando a cada instante?
Se o que está a passar-se é o grande acontecimento que há-de marcar a minha geração? Julgo que sim. É saído de um filme de ficção científica, e às vezes parece mesmo que estou a sonhar. Que a qualquer momento alguém se começa a rir e diz que é tudo brincadeira. As pessoas demoram a reagir, mas não podem demorar demasiado: a cada instante que estão em negação estão a arriscar-se e aos outros. Vou manter-me afastada das pessoas de família e amigos que amo, porque os amo. Vou evitar ao máximo dar a cara na rua e relacionar-me com outras pessoas. Já basta o que vi hoje - gente nas esplanadas, velhotes a limparem o balcão da farmácia com as mãos, distraídos, a Lusoponte com funcionários nas portagens a receber cartões multibanco e dinheiro sem luvas uns atrás dos outros... etc.
Enfim... As coisas positivas?
Tempo. Tempo é o o que de mais valioso existe. Eu até costumava dizer que, se tivesse tempo, lia o Guerra e Paz. Pois bem, agora tenho.
Decidi que hoje, último dia de trabalho no escritório, seria também o dia de fazer todos os recados urgentes. O primeiro passo foi ir à farmácia, que estava bem calma. Comprei paracetamol, um termómetro, um frasco de solução em gel com álcool e vitaminas. Vamos reforçar estes sistemas imunitários!
Ao chegar à minha rua, fui uma última vez às compras para esta semana: clementinas para vitamina C, limões para cházinhos, verdes, enchidos que se aguentam bem durante algum tempo, cenouras, alho e cebola para poder cozinhar. Esta semana já tínhamos comprado outros bens numa ida ao supermercado da esquina - que sentido faria ir para uma grande superfície, right? - incluindo 2 pacotes de farinha, ovos, manteiga. Podemos fazer pão caso o que temos termine antes da nova ida às compras. Vai ser giro - vamos comer saudável, cozinhar, passar tempo juntas a trocar dicas de cozinha.
Não comprei água engarrafada nem papel higiénico, porque felizmente tenho torneira em casa, e também porque os 12 rolos de folha dupla que temos chegam sempre para uma semana aqui em casa. Não somos muito cagonas aqui, mas em casas onde se é entendo que tenham redecorado a sala com esses rolos tão inestéticos. Também tive cestos com álcool-gel diante dos olhos na farmácia - e digo-vos, eram às dezenas! - mas consegui agarrar só um, porque prefiro que os meus vizinhos usem os outros para evitar contaminar o corrimão do prédio e as maçanetas das portas e etc. Sabem como é, vivemos em comunidade. Que me adianta estar toda esterilizadinha enquanto a vizinha do lado está na esplanada, cabeça com cabeça com a amiga, a ler as medidas de prevenção do coronavirus no telemóvel?
Voltando às coisas felizes, como vou usar o meu tempo? Apesar de estar a trabalhar, ganharei imenso tempo por não ter de me deslocar.
Ora bem:
- Vou ler os Russos;
- Vou cozinhar com amor;
- Vou manter a casa limpa;
- Vou seleccionar roupa para deitar fora;
- Vou arrumar a prateleira dos tupperwares e a das formas;
- Vou fazer yoga antes de começar a trabalhar;
- Vou escrever romances;
- Vou tentar - tentar - aprender russo em casa através de uma APP que usei para aprender italiano (vamos ver se a reencontro, porque não me lembro do nome);
- Vou plantar o jardim que queria tanto desenvolver na varanda - assim que os trabalhadores desmontem os andaimes;
- Vou dar aulas de História à minha irmã mais nova e vou fazer com que ela se mantenha ativa e estude através das plataformas da Leya, da Porto Editora, dos próprios livros escolares e da nossa extensa biblioteca domiciliária!
- Vou apanhar sol enquanto leio na varanda - porque tenho varanda! - e porque a vitamina D é essencial para não nos transformarmos em vampiros raquíticos.
E é isto. Sendo o tempo tão precioso... porque não aproveitá-lo para algo de positivo? Sabemos lá quando voltaremos a ter tempo seja para o que for!
